Deserto do Fufu à espera de luz no fundo do túnel

O bairro Deserto do Fufu, zona de Cambembeia, comuna de Calomboloca, município de Catete, na província do Bengo, está mergulhado num mar de dificuldades. Há falta de quase tudo. Literalmente, pode-se dizer que os habitantes estão a fazer uma travessia pelo deserto e que tarda a acender a luz no fundo do túnel, que indicie o início do processo para se ultrapassar os principais constrangimentos.

Luanda /
12 Out 2020 / 13:39 H.

Os problemas vão desde a falta de assistência médica, escolas, água potável e energia eléctrica, estendendo-se às péssimas vias de acesso, que dificultam o escoamento dos produtos agrícolas, o que faz com que a maior parte da produção se estrague nas áreas de cultivo.

Os habitantes do Deserto do Fufu têm que se deslocar dezenas de quilómetros em busca de assistência médica, ao passo que crianças há, muitas delas com menos de 10 anos, que percorrem todos os dias cerca de 16 quilómetros para aprender a ler e escrever.

Os moradores, que se dedicam essencialmente à agricultura e à pesca, pedem urgentemente mais atenção à resolução dos problemas. Entre as prioridades, defendem a reabilitação das vias de acesso, bem como a abertura de serviços sociais básicos, ligados fundamentalmente aos sectores da Saúde e da Educação.

A localidade de Cambembeia fica a 120 quilómetros de Luanda e a aproximadamente 30 Km do município de Catete, distância que é percorrida em quase duas horas. Quando chove a zona fica praticamente isolada do resto do município, pois a estrada torna-se intransitável.

A falta de água canalizada é outra preocupação apontada pelo coordenador do bairro Deserto do Fufu, Miguel Manuel Adão “Mbuta”. Acrescenta que a população consome água retirada directamente do rio Zenza, o que tem causado o surgimento de muitas doenças, como diarreia e sarna, que se juntam ao paludismo, febre tifóide, tosse e desnutrição, as mais frequentes na região.

COVID-19 não chegou...

No bairro Deserto do Fufu ninguém usa máscaras. Instado a pronunciar-se sobre isso, o coordenador Mbuta disse simplesmente: “aqui a doença ainda não chegou, só usamos máscaras quando vamos a Luanda ou à sede”.

Talvez notando o nosso espanto, Miguel Manuel Adão acrescentou: “estamos à espera que o Governo envie os médicos para fazermos os testes”.

Boas notícias

No Deserto do Fufu quase não se fala em criminalidade. “O cidadão, aqui, está consciente de que não deve roubar, não deve mexer em coisas alheias, todos têm em mente que o trabalho é a solução para sustentar a família”, diz, visivelmente satisfeito, o coordenador Mbuta.

Os raríssimos crimes que ocorrem, acrescentou, praticados por pessoas que vão ao bairro à procura de serviço nas lavras, são resolvidos localmente pelos sobas, como aqueles em que alguém tira a coisa de outrem sem autorização, ao passo que os mais complexos são transferidos para Catete, para que as autoridades resolvam.

Outra boa notícia é o projecto de criação de uma cooperativa agrícola, para facilitar o acesso ao crédito, aquisição de instrumentos de trabalho e de fertilizantes, bem como o escoamento dos produtos para os principais centros de consumo. Ernesto Ndala Silvano, presidente da comissão instaladora, diz estarem em curso os trâmites legais para a concretização do projecto, para que os camponeses possam respirar um pouco de alívio.

“Precisamos de material para o cultivo, como catanas, enxadas e machados, bem como tractores e outros equipamentos mecanizados, para aumentarmos a produção”, sublinhou Ernesto Silvano, que defende a abertura de uma loja de venda de sementes e fertilizantes, para deixarem de depender de Catete ou de Luanda, onde, refere, os preços são muito altos.

Exemplo de perseverança de um professor

António Luís Carmo, natural do Cuanza-Norte, apesar das dificuldades encontradas na zona de Cambembeia, comu-na de Calomboloca, não desistiu. O seu projecto inicial, em 2016, era cultivar hortícolas (tomate, cebola, beringela, batata-doce, repolho e couve), mas, hoje, produz diversos bens, com destaque para frutas (limão, laranja, tangerina, manga e abacate).O sistema de rega era feito de maneira artesanal. Actualmente conta com um sistema gota a gota, com apoio de geradores, augurando, para Novembro e Dezembro as primeiras colheitas.

Professor de profissão, António Carmo produz em mais de sete hectares e lamenta a falta de apoio, pois, refere, tem que comprar gasóleo para abastecer as moto-bombas, fertilizantes, material agrícola, mangueiras para irrigação e pagar os 11 trabalhadores.

O sonho do professor emprestado à agricultura é conseguir patrocínio para a compra de um aparelho de sistema solar, para diminuir os gastos na compra de combustível, ajudar outros agricultores e garantir a iluminação do local.

“Muitos empresários com vontade de investir nesta área são desencorajados por causa do acesso. Com o rio aqui próximo e a reabilitação das vias podemos fazer muito mais, estamos apostados a diminuir a importação de produtos que podem ser produzidos localmente”, disse António Carmo, que diz acreditar que a luz no fundo do túnel para a resolução dos principais problemas da comunidade acenda o mais rápido possível.