“Se EUA e Irão não se entenderem, haverá riscos de segurança no plano geoestratégico em África”

Brigadeiro Correia de Barros, do Centro de Estudos Estratégicos de Angola, aborda o conflito entre Teerão e

Luanda /
16 Jan 2020 / 08:52 H.

Qual é a possibilidade de uma terceira guerra mundial, conforme aventam analistas, face a tensão entre Teerão

e Washington?

Para chegarmos ao ponto de uma terceira guerra mundial parece-me um exagero, mas isto resulta dos efeitos

desta nova política do presidente Donald Trump sem lógica nenhuma, porque está a arriscar demasiado e a

criar problemas altamente complicados.

Não se sabe se quis denegrir o trabalho do anterior presidente (Barack Obama) que conseguiu criar um acordo para atrasar o Irão a vir a adquirir armas nucleares. Não se sabe por que Trump decidiu sair desse acordo. Unilateralmente decidiu sair desse acordo, impor novas sanções ao Irão. Tudo o que indicava a Agência Internacional Nuclear é que os iranianos estavam a cumprir com o acordo de redução do seu programa nuclear, daí que países signatários do acordo como Rússia e China não concordaram com a saída dos EUA. Até agora ninguém denunciou o acordo. Depois de tantas fantasias de Donald Trump, que criou uma série de dificuldades no Médio Oriente, que já era complicada, a situação tornou-se ainda mais complicada. É uma situação que terá reflexos no mundo inteiro, mas não vejo suporte na ideia de uma terceira guerra mundial, estamos longe disso. Mas a situação é grave. Estamos diante de uma situação em que nunca mais se sai dela, a guerra no Iraque, a guerra no Afeganistão, a guerra na Líbia, enfim, quer dizer, permanentemente questionamos o que é que isso custa para a paz mundial. É complicado. Parece haver uma semelhança: George W. Bush lançou um clima de medo na luta antiterrorismo em vésperas de eleições para um segundo mandato. E venceu.

Será que com Donald Trump é mera coincidência?

Está a se repetir o mesmo cenário. Realmente quando Bush (filho) no auge da guerra do Iraque lança o antiterrorismo como leme de campanha eleitoral, após invenção de pretexto de armas nucleares que o Saddam Hussein teria no Iraque e depois verificou-se que não era realidade. É bem verdade que havia dúvida se o Saddam era o ideal para liderar o Iraque, a julgar pelo seu estilo de governação, mas a verdade é que depois dele o Iraque ficou um caos. O mesmo aconteceu com a Líbia, com Moammar Kadafi. São problemas que se vão repetindo. Veja que o general Qasem Soleimani não era muito querido no Iraque e no Irão, mas como entender a multidão que acorreu ao funeral, uma solidariedade que o mundo assistiu quer no próprio Iraque, quer ainda muito mais no Irão, bem como em certos países da região. O que os americanos fizeram não é correcto. Eles (Irão) têm a maioria esmagadora das pessoas mesmo que não estejam de acordo com Soleimani e Ayatollah Ali Kameni. Ainda assim, o lado humano da população na região sobressaiu devido a forma como o general foi morto. É complicado fazer uma agressão destas num país que Trump considera amigo, o Iraque, e pior com uma proeminente figura militar iraquiana morta no ataque ao general.

É realista a ideia de que o Irão não teria capacidade de ripostar o que considera “insulto” de Washington?

A retaliação é uma falsidade. O Irão não conseguirá fazer a mesma coisa feita pelos EUA, sem apoios de parceiros. E nunca o faria de forma oficial. O derrube das torres gêmeas do World Trade Center, em 2001, não foi assumido oficialmente por nenhuma nação do mundo árabe. Atribuiu-se a outros como Bin Laden, o mesmo indivíduo que os americanos usaram aquando da invasão da União Soviética no Afeganistão. A AlQaeda foi criada por esta altura com apoio dos americanos. E depois já não serve e decide-se que vamos matá-los.

Isso tem custos elevados em matéria de segurança. Não me parece que seja uma forma correcta. Agora, Trump já mandou mais quatro mil soldados ao Médio Oriente, o que pressupõe que a retaliação não será de forma directa. Há muitos interesses americanos na região com a produção de petróleo, há também o Golfo de Omã, perto do estreito de Ormuz e noutras regiões próximas ao Irão.

E os 52 alvos identificados...

...É fácil desmistificar isso. Por isso as Nações Unidas já reagiram alertando para os chamados crimes de guerra. Os alvos em causa tratam-se de valores culturais que vão ser destruídos. E para as Nações Unidas destruir por destruir valores culturais é crime de guerra. Trump não sabe o que está a dizer, porque se trata de património cultural, não são alvos militares. Destruir aquele património que faz parte da história do Irão, da antiguidade, é um crime contra a humanidade.

Daí então que a directora-geral da UNESCO reuniu-se há poucos dias com a representante do Irão junto daquela instituição das Nações Unidas para alertar a universalidade de patrimónios culturais e naturais do Irão como vectores para a paz e o diálogo entre os povos?

Exactamente. Por que mesmo que não o faça, ameaçou destruir todo aquele património. Os EUA não podem fazer este tipo de ameaça, não é correcto.

Acredita que se o próximo presidente dos EUA vir a ser um democrata terá um percurso similar ao de Barack Obama, de ir ao encontro do mundo árabe para reconciliação?

Sem dúvida! Senão nunca se vai a lado nenhum. O Trump dizia na campanha eleitoral, que deu-lhe a vitória, “América First” (Os EUA em primeiro lugar, em tradução livre), mas parece estar a derrubar as grandes conquistas que a América, falo dos Estados Unidos, conquistou até agora. EUA é a grande potência do mundo, a grande oposição vem da China que até agora tem trabalhado num espírito de cooperação com outros países e não o contrário. Há um aspecto que pode ser meio complicado, se entrarmos para uma nova guerra fria em que quem é amigo de fulano tem de ser inimigo de sicrano. Sabemos o quanto isso nos custou, como sucedeu com Angola, por termos o apoio de um dos lados. Os EUA ficaram nossos inimigos e tudo faziam para estragar o que estava a ser feito. Dizia-nos que não éramos democratas, mas o grande amigo que os EUA tinha, aqui o nosso então vizinho Mobutu Sesse Seko, não era nem de longe um democrata. Não tem lógica nenhuma. Se existir uma segunda guerra fria vamos ter problemas sérios similares aos do passado.

Moscovo atirou-se na guerra da Síria inclusive com a diplomacia, mas quanto a tensão Teerão e Washington parece haver alguma cautela...

...A Rússia pretende voltar a ser uma grande potência. Obviamente que está muito longe das duas mais fortes, EUA e China. Ainda está atrás de outras de quem se fala pouco, como a Índia. A Rússia tem ainda dificuldades económicas que a colocam longe destas potências. No entanto, isto não quer dizer que deixou de ter o poder das armas e olha que continua a ter, mas sem grande espaço para o palco que tinha ao tempo da guerra fria.

Por que razão os EUA lamentaram há dias o facto da China e Rússia não terem condenado o ataque sofrido pela sua embaixada em Bagdad?

Se calhar nem houve tempo para esta reacção esperada e houve logo o ataque mortífero ao general iraniano. O ataque a embaixada serve de análise de fundo pelo facto de os EUA alegarem sempre que o Iraque é um país amigo. Se reparar, o grande apoio ao governo iraquiano provem dos EUA, fundamentalmente na preparação e formação das forças armadas iraquianas.

É normal os vizinhos do Iraque não terem reagido ao ataque a embaixada dos EUA?

O Médio Oriente tem problemas internos que precisam de ser resolvidos.

É necessário uma solução interna, só entre eles países árabes e vizinhos, que é a diferença ideológica entre xiitas e sunitas. Tem mesmo de ser internamente, porque quando num país o governo é sunita e noutro xiita, a cooperação é muito complicada. Provavelmente não houve condenação para não aquecer mais os problemas existentes entre os países árabes vizinhos. Tudo que o Irão faz, a Arábia Saudita condena. Tudo que a Arábia Saudita faz, o Irão condena. Se houver alguém a lutar contra a Arábia Saudita, o Irão apoia. E o inverso também acontece. É um problema que tem de ser visto e resolvido entre eles.

Agora, se as grandes potências estão a auxiliar um ou outro, não me parece que o problema ficará resolvido o mais cedo possível. É preciso que este tipo de problema desapareça. Não é com o fornecimento armamento a um ou a outro, nem com bater palmas quando um investe contra outro, que a situação vai se acalmar naquela região. É verdade que há interesses com a venda de armamento e a comercialização de produtos petrolíferos, mas não é melhor maneira de ajudar a reconciliação naquela zona.

Agora que o Irão não quer desistir do seu programa nuclear, acha que os países vizinhos vão recorrer ainda mais a indústria do armamento prevenindo-se do pior?

Obviamente! Se já se tinha chegado a um acordo para diminuir o impacto deste programa, porque que Trump denunciou o acordo unilateralmente?

Mas parece ser política de Trump não avançar com a assinatura de acordos.

Basta olharmos para outros casos similares até mesmo com a Europa. No caso do acordo nuclear era para se ter um controlo do desenvolvimento destes programas, mas a forma como andam as coisas tudo indica para o início de um recuo. Tem o problema do Paquistão e a Índia que andam sempre aos desentendimentos, com acusações recíprocas no campo diplomático e não só. Recentemente, a Índia decidiu não abrir a fronteira na zona de Caxemira (região dividida entre Índia, Paquistão e China) e está a criar outro problema. É grave, porque são duas potências nucleares. É preciso olhar para Israel que também tem armas nucleares.

As Nações Unidas conseguem ou não persuadir a desistência destes países aos programas nucleares?

Não acredito. Todos eles olham para os países do Médio Oriente que foram persuadidos a não desenvolver tais programas e quando atacados pelos EUA não conseguiram defender-se. Casos concretos são do Iraque e da

Líbia. Moammar Khadafi pretendia também desenvolver programas similares, mas foi desaconselhado. E a

forma como enfrentou a morte nos últimos dias da perseguição que sofreu, continua a ser um alerta a nível dos

países árabes na região. É aí que os outros se questionam que não adianta largar as armas nucleares, porque de

seguida podem ser apanhados. É o que está a acontecer com a Coreia do Norte.

Teme largar tudo e no dia seguinte ser invadido, olhando para os exemplos dos outros que já citei.

Se a tensão se intensificar entre Washington e Teerão, há razões para países africanos preocuparem-se? Como fica a segurança diante dos focos das forças negativas desde a Nigéria a República Centro Africana aos Grandes Lagos?

A grande questão de fundo é se vamos criar uma outra guerra fria e se isso vai dar estabilidade a África. São questões

pertinentes. Vamos outra vez cair naquela situação em que as potências determinam se és amigo de fulanodeixas de ser meu amigo?

É preciso que as grades potências se conformem que o mundo tem de viver em paz, onde da forma que se aceita uma cooperação

com a China também podemos fazê-lo com os americanos. As repercussões para a África do Norte podem ser as

mais previsíveis devido a proximidade geográfica com o Médio Oriente. Mais para o centro de África é menos preocupante no actual contexto, ao passo para os Grandes Lagos, particularizando aqui o nosso País, é ainda menos preocupante. Mas, para todos os efeitos, é preciso criar condições actuando em prevenção para que tais situações não aconteçam.

O que está a acontecer na Nigéria com actuações de grupos extremistas é preocupante, neste contexto, devido a

desta referência, tendo em conta que o petróleo promoveu o derrube de governos e presidentes no Iraque

e na Líbia?

Foi o que falei logo de início, que os problemas do Médio Oriente devem ser resolvidos entre eles, até por que há

divergências religiosas. A religião é a mesma, mas uns pensam de uma forma e outros de outra. É preciso que cada

um aceita o outro mesmo com ideologias diferentes, sem ninguém impor ao outro a maneira de pensar.

O Parlamento iraquiano aprovou uma resolução para a retirada das tropas americanas em seu território. Washington discorda, mas Alemanha vai retirar parte de 120 militares. É prenúncio de mais um braço de ferro?

O problema é que os países da NATO foram para o Iraque com uma ideia, de ajudar na reconciliação entre os iraquianos. Se estivermos recordados, aquando da guerra do Iraque, a Alemanha, a França e a Itália opuseram-se a entrada

dos americanos, que teve apoio apenas da Grã Bretanha. Hoje em dia Alemanha, Itália e França só estão lá porque as

coisas mudaram completamente, no sentido de dar força a um país que estava enfraquecido, o Iraque, para que

pudesse resolver minimamente os seus problemas e não ser dominado por outros. Agora, Alemanha quer sair

porque não há condições para lá estar e se por acaso os americanos saírem, pior ainda. Alemanha e outros países estão

no apoio aos contingentes militares americanos e se estes saem, todos saem porque não haverá condições para

ficarem.

Se por um lado o ministro dos negócios estrangeiros do Irão parece moderar um pouco no discurso, não é o caso do líder supremo Ayatollah Ali Kameni que mantém um discurso de vingança...

...todos aceitaram o acordo de redução do programa nuclear, o Irão estava a cumprir com os prazos, segundo a

Agência Internacional Nuclear, não era um acordo eterno, tinha como limite dez anos para diminuir todo investimento que estava a se fazer para produção de armas nucleares. Com sanções levantadas, e porque o Irão precisa também de resolver problemas sociais internos, acreditava-se que tudo correria bem e de repente se rompe tudo criando problemas, alegando que a direcção do Irão não é a mais correcta do mundo. É claro alguém teria de ficar chateado com isso.

As vezes a história faz recear quando é que ela se repete. Quando George W. Bush ameaçava invadir a Coreia do Norte, após invasão ao Iraque, Kim Jong-il orientou o lançamento de um míssil que sobrevoou o Japão e caiu no mar.

Tóquio temeu reviver Hiroshima e Nagazaki e alertou aos EUA para entender-se com o vizinho sem consequências para si. Porque essa política de retaliar vizinhos parceiros do “inimigo”?

Exactamente...são estes problemas frequentes. Bush pai tratou a questão do Iraque de forma diferente retirando-se

de lá. Já o Bush filho entendeu a invasão. Agora, os aliados dos americanos na região do Médio Oriente são os inimigos

do Irão, um problema muito parecido ao da guerra fria. E depois surgem os argumentos dos EUA de que no Irão não

há democracia, mas na Arábia Saudita, um aliado dos americanos na região, há

democracia?

Então, voltamos na mesma conversa onde se nota que não é correcto. Por isso, a diplomacia, ao nível

em que as coisas estão, serve para ajudar a resolver os problemas, não só a nível dos países mas também das regiões.

Fazer como Barack Obama fez, a promoção do acordo com o Irão, com as grandes potências do mundo, para

atenuar estragos no futuro.

Hoje fala-se pouco de instabilidade nos Grandes Lagos. É sinal de que vai tudo bem?

Primeiramente, Angola teve sempre um papel relevante na manutenção de paz nesta região e é bom ressaltar-se sempre

este esforço que é contínuo. O feito de há meses de conseguir juntar dois grandes inimigos, os presidentes do

Ruanda e Uganda, a assinarem um memorando de entendimento em Luanda para entendimento e diálogo

contínuo é muito positivo, pois de lá para cá há alguma estabilidade na região. Há questões que não se conseguiram resolver ainda, mas o apoio de Angola é crucial.Prevalece a insegurança marítima.

Recentemente piratas marítimos sequestram navio petroleiro que ligava Luanda ao Togo. Como contornar estes acontecimentos?

Faltam investimentos em recursos técnicos e humanos. A segurança marítima continua a ser um problema complicado, principalmente no Golfo da Guiné onde os países da região, infelizmente, têm poucos meios para contornar a situação. Estão longe de o conseguir fazer.

O controlo passa por evitar os problemas e se estes existirem só resta controlá-los, interceptá-los. Se antigamente os problemas de pirataria marítima estavam em foco no corno de África, hoje estão concentrados no Golfo da Guiné. Só para ter ideia, houve 62 ataques de piratas marítimos no Golfo da Guiné ao longo de 2019, com assaltos a mão arma sobre os navios. Estamos a falar da região mais perigosa do mundo em termos de ataques de piratas.

Enquanto os países africanos não investirem nas suas marinhas de guerra, apenas os apoios das marinhas de França, Espanha, Portugal e outros vão atenuar a situação?

É muito bonito falar nestes apoios, mas não tem solução mais adequada se não for a de os países africanos investirem em suas marinhas para conter as acções dos piratas marítimos. Não tem lógica nenhuma continuarmos a pensar que outros virão nos ajudar. O problema é mais profundo. Existe a questão da pirataria nas pescas, o despejo de resíduos tóxicos sobre os nossos mares. forma como o mundo árabe influencia certas acções. Moçambique já começa a ter focos que preocupam. O pior é um país estar furioso e alimentar grupinhos de terrorismo para actuar em nome próprio. Onde há divergências há sempre forças negativas. A melhor forma é o diálogo. Veja que a divergência entre Angola e a RDC, quanto a delimitação da zona conjunta de exploração petrolífera, está a ser resolvida com diálogo e é assim que se chegar a consenso.

Já imaginou se o país vizinho entendesse fazer recurso a armas para resolver este problema? Onde é que estariámos hoje?

São exemplo bons que até as potências podem replicar, por mais difícil que seja diálogo. Não fomos nós que delimitamos as fronteiras, então resolvamos os assuntos de forma pacífica.

É um caso que já esteve no auge a ponto de Kinshasa queixar-se a ONU, na gestão de Joseph Kabila, mas com Félix Tshisekedy prevalece o diálogo. Aliás, houve um encontro há dias em Benguela com o Presidente Lourenço...

...Porque na realidade somos países vizinhos, as fronteiras têm de ser delimitadas, têm de ser discutidas, e a isso podemos chamar de acertar as agulhas quando as partes envolvidas acreditam piamente, cada uma, que tem razão sobre o problema. Quando numa zona há petróleo e uma linha que delimita partes, parte-se do princípio que o petróleo é dos dois. Agora, a forma de negociar a exploração em função de marcos geográficos podem ser discutidas e chegar-se a uma conclusão. Acho que a definição dos benefícios económicos para o desenvolvimento social de um e de outro é o que mais interessa, sem entrar em choque com vizinhos. Concordaria que países do Médio Oriente em conflitos estão distante.