“Não me preparei para ser vice-presidente”, afirma Arlete Chimbinda

Arlete Chimbinda, vice-presidente da UNITA aborda, entre outros assuntos, a vida política nacional, a sua vivência no maior partido da oposição e as suas convicções.

Luanda /
07 Jan 2020 / 10:38 H.

filha de um nacionalista que esteve preso no Tarrafal. Como explica o facto de em Angola não se falar dos nacionalistas que lutaram do lado da UNITA?

Vivemos num país que se diz de Direitos e Democrático mas, na prática, ainda temos um longo caminho por percorrer. Porque num país que advoga a democracia, acho que as pessoas são recordadas por aquilo que fizeram em prol do país, e quando se fala da luta de libertação nacional devíamos ultrapassar as partidárias. Porque, afinal, eles bateram-se pela libertação da Pátria. Primeiro, os da UPA, os do MPLA e os da UNITA, todos tinham um objetivo comum: libertar Angola do julgo colonial. O nosso País, particularmente o Governo, devia ter a sensibilidade de reconhecer os valores, ou o valor dessas pessoas que lutaram e deram as suas vidas para que Angola se tornasse independente. Infelizmente isso não se passa em Angola, são apenas valorizados os heróis do MPLA porque é o partido que está no poder e os outros, que tanto lutaram e se entregaram a esta causa de libertação nacional, são puramente esquecidos.

Falando do Tarrafal, qual é a informação que a UNITA tem em relação às suas figuras que lá estiveram?

Sabemos de Jonatão Chingunji, por exemplo. É curioso porque até os próprios expresos políticos não faziam distinção, eles próprios não se discriminavam. Eu tenho uma boa relação com os irmãos Pinto de Andrade, portanto, está aí o deputado Justino Pinto de Andrade e o irmão, que também andou pelo Tarrafal e conheci exatamente porque era colega de prisão do meu pai e que sempre nos trataram muitíssimo bem. Porque entre eles havia amizade e solidariedade, portanto, aí eram combatentes pela liberdade e independência de Angola. Infelizmente, depois da independência, quem assumiu as rédeas do País é o MPLA, que não quer saber dos outros nacionalistas.

Se perguntar por uma lista que a UNITA tem das suas figuras que estiveram no Tarrafal?

O próprio partido tem. O reconhecimento dessas figuras passa por uma tramitação superior, não é? O próprio partido tem e recorda-os, mas a nível nacional...

Recentemente tivemos num colóquio sobre a Vida de Mendes de Carvalho e vimos nomes como de Jonatão Chingunji gravado no seu túmulo entre os que lutaram pela libertação nacional. Significa dizer que já há alguns círculos que reconhecem essas figuras Não sei se isso significa algum passo, talvez tenha sido alguma coisa para satisfazer o neto de Jonatão Chingunji (Dinho Chingunji) que, a dada altura, se tornou dissidente da UNITA e se aproximou do MPLA. Se não, por que não reconhecer os outros também? O próprio mais velho Mendes de Carvalho, lembra-me, escreveu um livro em que fala dos colegas no Tarrafal incluindo o meu pai, não falas dos do MPLA, ou do outro partido, fala de companheiros e combatentes pela independência de Angola. Isso é que é muito importante. O importante deveria ser quem são os pais da independência de Angola. Tenho fé que haverá um dia em que uma geração de Angola vai se lembrar de todos que lutaram para que Angola se tornasse independente, independentemente da cor partidária.

Quantos anos tem de militância nessa altura?

A minha vida (infância no Moxico) confunde-se com a minha militância na UNITA. Comecei a militar muito pequena porque quando meu pai pertencia a esta célula, ode facto era chefe, lembro-me que tinham reuniões sigilosas. Então, era preciso contar com a discrição e eu era das crianças com quem meu pai poderia contar para levar recados aos outros tios. Eu ficava de atalaia enquanto eles abordavam outros assuntos, se aproximasse alguém estranho, poderia avisá-los e mudariam de conversa.

Se disséssemos que quando se tornou vice-presidente da UNITA foi vista como uma ilustre desconhecida estaria a exagerar? Eu acho que sim. As pessoas atentas conhecem-me, uns por ser dirigente da UNITA e outros pelo Parlamento. Em Luanda, por exemplo, a maior parte das pessoas sabe quem é Arlete Chimbita. Portanto, ilustre desconhecida, não concordo.

Ou as pessoas estão sempre mais atentas aos porta-vozes e presidentes?

Pois, mas é isso. Aos que estão mais atentos aos presidentes e ao porta voz, porque eu, quero lhe garantir, e não é vaidade nenhuma, mas em Luanda sou muito conhecida, até gostaria de ser menos, mas sou muito conhecida por duas rasões muito simples: vim ao Parlamento em 1997, e naquela altura, as sessões eram transmitidas em directo.

Aí era muito mais fácil...

Portanto, as pessoas que acompanhavam as questões políticas naquela altura sabem quem eu sou. Se calhar, não me conhecem as pessoas que só acompanham a TPA, porque esta, até há pouco tempo, vocês sabem das restrições que haviam. Mas os que acompanham a Rádio Despertar, a Rádio Escola, por onde passei variadíssimas vezes, já me ouviram. Os que leem jornais, que não é jornal de Angola, também já tiveram a oportunidade de me ver. Portanto em Landa, eu até só mais conhecida do que gostaria.

Nem sequer é discreta?

Olha, discreta, sim, por isso é que disse que sou mais conhecida do que gostaria. Não sou dos que gostam de aparecer, sou discreta, mas infelizmente sou muito conhecida. Depois da minha nomeação a vice-presidência do partido, recebi felicitações de “mil e uma” pessoas que eu não conheço de lado nenhum. Infelizmente as atividades políticas não permitem muita discrição, por mais que a pessoa se preserve, os que vêm a televisão e os programas no Parlamento. Não precisas de ir a televisão porque passam as imagens.

O quê que significa ser vice-presidente da UNITA, e a primeira da história do partido?

Como diz e bem, antes de mais, é uma grande responsabilidade, primeiro, pela função em si, ser vice-presidente de um partido é uma função pesada- Depois, por ser mulher, porque as mulheres esperam que através de mim se faça qualquer coisa para se valorizarem, empoderarem-se cada vez mais. Vou envidar esforços para honrar, por um lado, as responsabilidades que o partido me der, e, por outro lado, também para honrar as esperanças que as mulheres depositam em mim.

As mulheres podem dar um salto consigo?

Pode ser que, com algum empenho, se possa empoderar cada vez mais as mulheres. Como sabe, as mulheres ainda são vistas como “segundo plano”, na maior parte dos casos, mas querem sair da sobra e mostrar o quanto valem, mostrar que têm capacidade - e este talvez seja pontapé de saída, uma oportunidade que temos para um olhar mais voltado para capacidade das mulheres e não pelo gênero em sim.

Parece que na UNITA as mulheres não querem ser presidente do partido. Não se trata de querer, não é que as mulheres não queiram, porque também não é uma coisa que se faça de ânimo leve. Durante o congresso, um colega seu perguntou-me quando é que as mulheres se iriam candidatar. Na altura, longe de pensar que o então candidato tinha intenções de me dar essa responsabilidade, eu disse que “quando chegar a altura as mulheres hão de aparecer. Até mesmo os homens não se candidatam por se candidatar, candidatam-se quando acham que chegou o memento certo. Há de chegar o momento, tudo na devida altura.

É algum medo?

Não se trata de medo. Se lhe perguntássemos se quer ser presidente da UNITA, o que diria? Neste momento responderia que ainda não, mas chegou a altura que me deram esta responsabilidade e assumi.

Porquê?

Porque eu não me preparei para ser vicepresidente, eu tinha responsabilidades ao nível da LIMA, tinha outras responsabilidades a nível do partido também, responsabilidades a nível do grupo parlamentar, portanto, a nível da Assembleia Nacional, e eu achava que já tinha responsabilidades suficientes. Portanto, não tinha essa ambição de me candidatar.

Já agora vêm aí as eleições 2022, será a número dois da lista da UNITA? Para as eleições gerais candidato é o presidente do partido. Não será candidata a vice-presidente do País?

Não sei. Geralmente, o candidato a Presidente da República é o presidente do partido. Agora, o partido pode decidir o número dois, e não é que seja necessariamente quem é vice-presidente. Se o partido decidir que seja eu, tudo bem, não fugimos às responsabilidades.

Mas não seria tempo suficiente para aparecer mulher como candidata a presidente do partido, uma vez que já se passaram cinco congresso no pós-guerra (2003, 2007, 2011 e 2015 e 2019), ou o histórico do papel da mulher ainda continua a pesar na decisão?

De certa forma pode se considerar que sim. Mas isso é um processo, como se costuma dizer em Angola, e o empoderamento em Angola também é um processo. Mas esse problema não é só da UNITA, o MPLA, que completou agora mais de 60 anos de existência, também nunca teve uma mulher a apresentar-se como candidata a presidência do partido, só para ver.

Mas no MPLA não tem havido disputa... No MPLA não tem havido disputas, mas as pessoas indicadas sempre foram homens, nunca indicaram uma mulher. Desta vez surgiu a primeira vicepresidente mulher e também foi a primeira na história do MPLA. Portanto, isso é um processo que começa a avançar e eu acho que vai mesmo avançar.

A JURA está mais avançada em relação a LIMA no que a candidaturas de mulheres diz respeito. Qual deve é a razão?

Mas este é mesmo o papel da juventude, está sempre mais avançada em relação aos mais velhos, e istro é em todos os domínios. Os mais velhos passaram por uma evolução diferente. No meu tempo não era fácil ser estudante universitária, mas hoje as jovens não têm esse problema. Segundo, as pessoas da minha idade passaram pela guerra, uma historia um pouco mais pesada, as jovens hoje só ouviram falar da guerra mas não sofreram as agruras, portanto, têm a possibilidade de avança muito mais de pressa. Por isso é que não duvido que daqui a pucos anos surja uma mulher com capacidade e vontade de se candidatar ao mais alto posto do partido.

Depois da primeira vice-presidente, temos o atual presidente do partido que “não se encaixa” naquilo que tem sido tradição na UNITA em termos de quem deve ser o líder. Estamos a falar de alguém que renunciou à nacionalidade portuguesa há pouco tempo e que foi visto como “fora de caixa” do ponto de vista da pigmentação.

Podemos dizer que estamos diante de uma revolução na UNITA?

Sim e não. Sim, diria que estamos diante de uma revolução, se estivermos em consideração que quem assumiu a presidência da UNITA é mais jovem em relação aos antigos. Deste ponto de vista, é uma revolução que se impunha face à nova dinâmica. O resto acho que não diria tanto uma revolução, este pode ser um ponto de vista de quem vê a UNITA de longe e de quem não a conhece.

A questão da cor da pele nunca foi problema?

Nunca foi um problema na UNITA. As pessoas queriam pôr-nos este selo que não é real. Os que conhecem a história da UNITA sabem que o doutor Savimbi criou a UNITA com o seu companheiro que não era negro. A UNITA foi fundada pelo doutor Savimbi, o co-fundador da UNITA é Toni da Costa Fernandes, que é mestiço. Esta questão de brancos e mestiço pertencerem a UNITA vem desde a fundação. E Toni da Costa Fernandes, até a altura que decidiu sair da UNITA, teve responsabilidade de alto nível.

Mas a questão da cor da pele ainda chegou a ser levantada por figuras bem identificadas da própria UNITA, durante o congresso. Quem levantava esta questão, certamente sabia porque tinha estas intenções, que não eram muito boas. Mas a questão da pigmentação da pele nunca foi um problema, e se fosse algum problema, Adalbero não teria o apoio que teve dos históricos do partido como vocês acompanharam. Os membros históricos da UINTA, queles que conhecessem a UNITA desde a sua fundação, estavam todos do lado do Adalberto.

E a questão da nacionalidade portuguesa?

Por altura das assinaturas dos Acordos de Alvor, quem escreveu o que é conhecido como a definição do angolano foi doutor Jonas Savimbi, e se vocês forem a Constituição, vão ver o que esta lá escrito. Angolano é todo aquele que se identifica com Angola, que ama Angola e luta por Angola, esta é a condição fundamental. O que conta para estes postos de direção política é a nacionalidade de origem. Durante o percurso da guerra, a dado momento, foi preciso adquirir a nacionalidade portuguesa para preservar a vida, e Adalbero não foi o único que adquiriu nacionalidade portuguesa. Se formos fazer uma revista a muitos dirigentes, vamos encontrar alguns que ainda têm a nacionalidade portuguesa. Portanto, foi uma questão circunstancial que na devida altura foi renunciada.

Não acha que a UNITA também deveria discutir a própria democracia que tem estado a apregoar?

Faço esta questão porque a campanha eleitoral, durante o congresso, ficou também marcada por uma série de

casacões que deixaram dúvida em relação à maturidade de muitos. Uma coisa é a posição dos apoiantes, porque o senhor jornalista sabe que democracia é muito maior na base; a democracia na base é quase sem limites. Portanto, eu não teria tanto em consideração àquilo que os apoiantes fizeram ou disseram. A mim interessa muito a posição dos próprios candidatos em si.

Isso não reflete também uma cultura democrática que ainda precisa de alguns avanços? Com certeza que a cultura democrática precisa evoluir, isto é um facto. A cultura democrática precisa mesmo de dar alguns passos para frente e nós pelo menos já começámos. Já vamos no quinto congresso em que há uma disputa entre vários candidatos, os outros ainda não começaram, e quando começarem, vocês hão de ver que também vão ter essa dificuldade que tivemos. Os candidatos portaram-se com a lisura que se exige de um dirigente, eu fui mandatária do candidato que é o atual presidente. Fizemos a nossa campanha, vendemos o nosso programa e o que pretendemos para o partido e pra Angola. Agora, se houve pessoas que se empenharam em prejudicar a imagem de alguém, uns são membros da UNITA, mas outros, que são a maioria, não o são. Sabe que há um ilustre dirigente do Jornal de Angola que se ocupou também depositam em mim.

As mulheres podem dar um salto consigo?

Pode ser que, com algum empenho, se possa empoderar cada vez mais as mulheres. Como sabe, as mulheres ainda são vistas como “segundo plano”, na maior parte dos casos, mas querem sair da sobra e mostrar o quanto valem, mostrar que têm capacidade - e este talvez seja pontapé de saída, uma oportunidade que temos para um olhar mais voltado para capacidade das mulheres e não pelo gênero em sim.

Parece que na UNITA as mulheres não querem ser presidente do partido. Não se trata de querer, não é que as mulheres não queiram, porque também não é uma coisa que se faça de ânimo leve. Durante o congresso, um colega seu perguntou-me quando é que as mulheres se iriam candidatar. Na altura, longe de pensar que o então candidato tinha intenções de me dar essa responsabilidade, eu disse que “quando chegar a altura as mulheres hão de aparecer. Até mesmo os homens não se candidatam por se candidatar, candidatam-se quando acham que chegou o memento certo. Há de chegar o momento, tudo na devida altura.

É algum medo?

Não se trata de medo. Se lhe perguntássemos se quer ser presidente da UNITA, o que diria? Neste momento responderia que ainda não, mas chegou a altura que me deram esta responsabilidade e assumi.

Porquê?

Porque eu não me preparei para ser vicepresidente, eu tinha responsabilidades ao nível da LIMA, tinha outras responsabilidades a nível do partido também, responsabilidades a nível do grupo parlamentar, portanto, a nível da Assembleia Nacional, e eu achava que já tinha responsabilidades suficientes. Portanto, não tinha essa ambição de me candidatar.

Já agora vêm aí as eleições 2022, será a número dois da lista da UNITA? Para as eleições gerais candidato é o presidente do partido.

Não será candidata a vice-presidente do País?

Não sei. Geralmente, o candidato a Presidente da República é o presidente do partido. Agora, o partido pode decidir o número dois, e não é que seja necessariamente quem é vice-presidente. Se o partido decidir que seja eu, tudo bem, não fugimos às responsabilidades.

Mas não seria tempo suficiente para aparecer mulher como candidata a presidente do partido, uma vez que já se passaram cinco congresso no pós-guerra (2003, 2007, 2011 e 2015 e 2019), ou o histórico do papel da mulher ainda continua a pesar na decisão?

De certa forma pode se considerar que sim. Mas isso é um processo, como se costuma dizer em Angola, e o empoderamento em Angola também é um processo. Mas esse problema não é só da UNITA, o MPLA, que completou agora mais de 60 anos de existência, também nunca teve uma mulher a apresentar-se como candidata a presidência do partido, só para ver.

Mas no MPLA não tem havido disputa... No MPLA não tem havido disputas, mas as pessoas indicadas sempre foram homens, nunca indicaram uma mulher. Desta vez surgiu a primeira vicepresidente mulher e também foi a primeira na história do MPLA. Portanto, isso é um processo que começa a avançar e eu acho que vai mesmo avançar.

A JURA está mais avançada em relação a LIMA no que a candidaturas de mulheres diz respeito. Qual deve é a razão?

Mas este é mesmo o papel da juventude, está sempre mais avançada em relação aos mais velhos, e istro é em todos os domínios. Os mais velhos passaram por uma evolução diferente. No meu tempo não era fácil ser estudante universitária, mas hoje as jovens não têm esse problema. Segundo, as pessoas da minha idade passaram pela guerra, uma historia um pouco mais pesada, as jovens hoje só ouviram falar da guerra mas não sofreram as agruras, portanto, têm a possibilidade de avança muito mais de pressa. Por isso é que não duvido que daqui a pucos anos surja uma mulher com capacidade e vontade de se candidatar ao mais alto posto do partido.

Depois da primeira vice-presidente, temos o atual presidente do partido que “não se encaixa” naquilo que tem sido tradição na UNITA em termos de quem deve ser o líder. Estamos a falar de alguém que renunciou à nacionalidade portuguesa há pouco tempo e que foi visto como “fora de caixa” do ponto de vista da pigmentação.

Podemos dizer que estamos diante de uma revolução na UNITA?

Sim e não. Sim, diria que estamos diante de uma revolução, se estivermos em consideração que quem assumiu a presidência da UNITA é mais jovem em relação aos antigos. Deste ponto de vista, é uma revolução que se impunha face à nova dinâmica. O resto acho que não diria tanto uma revolução, este pode ser um ponto de vista de quem vê a UNITA de longe e de quem não a conhece.