Um exército de ocupação

O poder político precisa encarar a questão de ocupação de território em nome do comércio como assunto de segurança alimentar e de soberania.

Angola /
02 Dez 2019 / 18:09 H.
António Pedro

Angola enfrenta um cenário real de ocupação de território em nome do comércio precário praticado, fundamentalmente, por imigrantes ilegais de países africanos. Em qualquer região do País é visível a instalação de uma loja de retalho alimentar, vulgo cantina, por cidadãos de países irmãos do nosso continente.

Há muito que ganhou força a opinião segundo a qual o angolano é preguiçoso e não tem paciência para praticar tal tipo de comércio, o que faz dos estrangeiros do Oeste de África, principalmente, os salvadores para a distribuição alimentar por intermédio de cantinas.

Não estamos contra a abertura de Angola para o mundo, mas a imigração ilegal contribui imenso para a consolidação de um quadro que provem de há décadas e já se torna preocupante. São estrangeiros que não aceitam adaptação à cultura angolana, ao contrário do que ocorre em seus países.

É, sim, uma questão de cultura! Mas, acima de tudo, é uma questão que não salvaguarda a nossa soberania em múltiplos aspectos que descreveremos a seguir. Face à invasão e/ou ocupação de território em nome do comércio, olhemos então para certos detalhes. O Estado precisa proteger o empresariado privado que já deu mostras no retalho alimentar para que haja uma forte expansão por todo o território.

Não estamos a falar do mega retalho alimentar que ao longo de quase uma década alimentou-se de divisas das reservas internacionais líquidas para, também, enriquecer as suas traders no estrangeiro. Sim, porque com o dinheiro que remeteram ao exterior para importação de alimentos, no espaço de uma década, poderiam expandir muito mais o negócio do retalho alimentar pelo País, apostando forte em agricultores locais.

Haverá sempre um player que dirá que tentou apostar em fazenda de agricultores locais e obteve resultados positivos. Mas não é comparável com as divisas exportadas para a aquisição de alimentos e outros bens e serviços.

Com forte apoio da banca comercial, na última década, que preteriu o crédito à produção nacional pelo financiamento às importações, com todos os argumentos técnicos financeiros “convincentes”, o que alimentou e fortificou o chamado lobby da importação.

O poder político precisa encarar a questão de ocupação de território em nome do comércio como assunto de segurança alimentar e de soberania. É difícil ou quase impossível concorrer de igual para igual com os comerciantes estrangeiros que detêm e/ou gerem as cantinas.

Está provado que adquirem produtos a preços abaixo do padrão que os mercados oferecem. Entre grossistas que fornecem produtos, alguns estão relacionados aos mesmos e não vendem a nacionais.

Diante de uma produção nacional inexistente, prevalece o risco do dumping diante dos angolanos que apostam há anos no retalho alimentar pagando caro com a importação de produtos essenciais para a sobrevivência das famílias angolanas.

Olhemos para as políticas de certos, face aos grandes retalhistas do ramo alimentar e especializado. Desde a Wal-mart (EUA), Mercadonna (Espanha), Tesco (Inglaterra), Pingo Doce (Portugal), Shoprite (África do Sul), Carrefour (França), Schwarz (Alemanha), Lojas Americanas (Brasil), etc., têm apoio do Estado nos respectivos países para expansão do negócio do retalho aos lugares mais recônditos.

Às vezes, as margens de lucro são mínimas em zonas onde investem, mas o Estado continua a incentivar a expansão por se tratar de uma questão de soberania.

Não é possível acreditar que a nossa dependência pára nos alimentarmos. Todos os dias estamos reféns de estrangeiros que importam os produtos necessários e fazem concorrência desleal aos nacionais do ramo.

O comércio precário deve ser incentivado para nacionais através de políticas públicas bem direccionadas. Não é para beneficiar governantes, ministros, governadores, gestores públicos, por intermédio de esquemas viciados como ocorria no passado.

Não! Priorizar quem sabe fazer ou quem quer empreender, sem fazer de políticos empresários ao mesmo tempo. A ocupação de território em nome do comércio precário tem mais implicações negativas que positivas. Recuando ao factor cultural. Por que razão os homens oriundos da Oeste de África estão orientados a contrair matrimónio com mais uma de angolana, duas, três ou quatro?

Nunca se observa mulheres destas paragens imigrarem para Angola a contraírem matrimónio com angolanos! A diplomacia angolana precisa fazer entender aos respectivos países que se está atento a estes fenómenos.

Até porque os filhos nascidos de relacionamentos com angolanas são enviados para suas terras em tenra idade para aprenderem a cultura do progenitor que é mais valorizada do que a angolana.

Estes filhos regressam a Angola após completarem 18 ou mais anos de idade. Já adquiriram a cultura daqueles países e nada lhe fará desviarem-se. Tais jovens ingressarão certo dia nos braços juvenis de partidos políticos como MPLA, UNITA, CASA-CE, FNA, PRS, APN, Bloco Democrático e potenciais partidos como PRA-JA Servir Angola e o CERA. Um dia serão deputados.

E um certo dia notaremos que mais de metade do Parlamento é composto de deputados (angolanos, claro) de outras culturas e hábitos. Ai será o caos! A soberania entra em default político.

Há países africanos em que a expansão e ocupação de território levou mais de duas décadas em nome do comércio precário. Que o Executivo encara esta situação com bastante preocupação para que angolanos dominem o comércio precário, mas com forte produção nacional.

É preciso ordem nas fronteiras, em quem faz comércio e como faz. Ordem e disciplina na mobilidade das pessoas em todo território. Até à aldeia mais remota está lá um mamadu ilegal e com uma agenda escondida. Movido por dinheiro? Ou está a fazer ocupação do território com uma agenda a longo prazo?

Quem fornece e quem organiza está agenda dissimulada em actividade económica, mas que se trata de ocupação do território e introdução de uma cultura de dominação.

A nossa diplomacia precisa negociar com os países irmãos africanos e colocar ordem neste assunto para não acabarmos todos a beira de um ataque de nervos.

Nos países que são geridos com seriedade a actividade de distribuição alimentar é um assunto demasiado sério para ser entregue a estrangeiros com as suas agendas.

*Director do Jornal Vanguarda