Tony Nguxi e Kawewe

28 Jul 2020 / 12:04 H.
Patrício Batsikama

A o saber que conheço Lûndu nyi Senga [Kawewe], Tony Nguxi duvidou em três aspectos: (i) Kawewe é um lugar místico e intransponível para seres humanos [talvez vê-lo com helicóptero sobrevoando]; (ii) Batsîkama tem teses muito polémicas e muitas delas são duvidosas; (iii) seria perder protagonismo num projecto que ele era pioneiro.

A verdade é que conheci o local logo antes das eleições legislativas em 2008, nas minhas aventuras científicas: é um lago encoberto por floresta difícil de penetrar (com riscos de vida). Cheguei a discutir fervorosamente com meus estudantes [no IMETRO e Universidade Agostinho Neto] sobre os mistérios que encapsulam a nossa História. Todos só começaram a acreditar depois de uma aventura no Huambo, numa incursão que a ilustre professora São Neto dirigiu, depois de perceber que a ciência não explica tudo.

Em Mbânz’a Kôngo “desafiei” os “mais velhos” do Lûmbu sobre as origens do reino do Kôngo. Disse a eles não que haveria nenhum osso da Ngûdi Mpôlo onde eles pensavam. Escrevi carta ao governador, a Assembleia Nacional e ao próprio Presidente da República em 2014. Quase preocupada, a mana Makiese [actualmente responsável da Cultura na província do Zaire] perguntou-me se era necessário desprestigiar o “local”. Resposta: nem pensar. Não podes permitir que seja desprestigiado.

Mas a verdade é que lá não há restos mortais da mãe do rei Dom Afonso I. A minha versão, que publicarei brevemente no meu livro sobre “Ñsîmb’a Vita, mãe dos Profetas: Simon Kimbangu e Simão Goncalves Toco”, é essa: entre 1705-1706, Ñsîmb’a Vita [aquela que chamamos Kimp’a Vita] estabeleceu sua sede na parte esquerda da Catedral em ruína [Kulumbimbi]. Foi lá que se operou o primeiro culto do kimpâsi em Mbânz’a Kôngo, cuja liturgista chamava-se Mfu Maria [Fumaria, escrevem Lorenzo da Lucca e Bernardo da Gallo].

O seu nome de baptismo foi Dona Apolónia Mafuta, hoje conhecida como Ndona Mpolo. Neste local foram queimados os “feitiços”, incluindo cruxifixo visto que Ñsîmb’a Vita aboliu esse “amuleto” na Igreja Católica loca [kôngo].

Essa história é para mostrar quanto o mistério encapsula a nossa História. O projecto de Tony Nguxi preocupou-me pela qualidade de aceitação da nossa intelectualidade. Muitos pensarão que se trata de anedota. Haverá ainda aqueles que não encontrarão utilidade de apoiar tal projecto. Porque Kawewe nos interessa?

Nas minhas pesquisas percebi-me do porque que as linhagens Lûnda [oriundas de Tsibînda Iruung] estão na base das linhagens reias, quer nos Umbûndu [Molowîni, por exemplo], nos terríveis Ngola [mãe da mwêne Ñjîng’a Mbândi era uma lûnda/mbângala], nos guerreiros/comerciantes Zômbo/Damba [ver o meu livro sobre Makela ma Zômbo] e, sobretudo na sede do Reino do Kôngo [tema que domino exageradamente bem]. Curiosamente, Kawewe – que é o “lago onde os dignitários repartiram as linhagens da amizade entre o Povo” [Lûndu nyi Sênga significa isso] – é este local das origens de todas linhagens reiais dos angolanos no geral.

Discuti com Tony Nguxi há duas semanas sobre o rumo do seu projecto. Admito que ganhou uma dimensão teórica de exiguidade, desde que seja assumido pelo Estado. Ele envolveu os destacados pesquisadores na matéria. Associou ao Turismo e, sobretudo, propõe uma revitalização económica a partir do verdadeiro petróleo: “o homem”. Ele acha que é possível “formar o Homem com angolanidade”. Coragem!

Numa só palavra, acho que o projecto de Kawewe de Tony Nguxi é uma expressão de patriotismo moderno, que junta a ciência da cultura as ciências do desenvolvimento. Trata-se de uma aposta que projecta angolanidade que, na verdade, faz sentido. Ele retomou a voz dos nacionalistas que proclamavam “Vamos descobrir Angola”.