“Reparo bicicletas e vendo peças de bicicleta”

Com 15 anos, comecei a trabalhar numa recauchutagem, a trocar e remendar pneus de automóvel.

Angola /
14 Fev 2022 / 12:36 H.
Paulo de Carvalho

O meu nome é Mariano Quintas, tenho 17 anos e sou mecânico de bicicletas. Sou o terceiro de 7 irmãos. Nasci no Lobito e vim para Luanda com 4 anos, com o pai e a mãe, porque as condições de vida que tínhamos eram más.

Pai e mãe nasceram ambos no Lobito. O pai é segurança, enquanto a mãe é empregada doméstica.

Vivo no Bento Raimundo, ao Benfica, mais propriamente no bairro Chinguar. Vivo com os meus pais e irmãos, numa casa feita de chapas de zinco. A casa tem 4 quartos, sala comum e cozinha. À volta, tem um muro de blocos.

Não temos água da rede, nem energia eléctrica. A água pedimos no vizinho e a energia, tiramos de outra casa. Graças à energia eléctrica do vizinho, podemos ver televisão.

Estudos e religião

Comecei a estudar com 7 anos, aqui mesmo no bairro Chinguar. Estudo agora a 6ª classe. Teve um tempo que interrompi os estudos, através mesmo do dinheiro.

A nossa família é católica. Só um irmão, o de 18 anos (aquele que partilha o quarto comigo), é testemunha de Jeová. Quanto aos demais, aos domingos vamos todos à missa.

Ainda não namoro. Tenho que esperar, pois pelas condições que eu tenho, ainda não dá para namorar. Uma namorada exige ter algum dinheiro. Exige ter condições na vida, estar melhor do que estou. Também a idade ainda não permite namoros.

Trabalho desde os 15 anos

Com 15 anos, comecei a trabalhar numa recauchutagem, a trocar e remendar pneus de automóvel. Foi mesmo no meu bairro. Trabalhei lá só um ano. Saí, porque o dono era muito nervoso e tínhamos sempre problemas com os clientes. Nessa altura, recebia 500 kwanzas por dia.

Larguei a recauchutagem e fiquei uns dias a ajudar o meu tio, que desempena jantes. Foi o meu tio que me ensinou a mecânica das bicicletas. Depois, algumas coisas fui aprendendo sozinho.

Comecei a arranjar bicicletas, ainda em 2020. Trabalho aqui no mercado do Kifica; tenho uma bancada, pago 200 kwanzas por dia. Reparo bicicletas e vendo peças de bicicleta. Também faço manutenção de bicicletas, sem precisarem de peças.

O que tem maior procura são as peças de bicicleta. Há quem leva as peças que compra e há quem pede para eu montar. As peças mais procuradas são câmaras, carretos, correntes, eixo, esfera, cramalheira e patins.

Os clientes que mais me procuram são homens, adultos. A maioria dos jovens faz-se acompanhar de adultos, mas alguns vêm mesmo sozinhos.

Além do trabalho aqui no mercado, também me desloco para reparações e para entrega de peças. Tinha um telefone para isso, mas estragou e agora estou a juntar dinheiro para comprar outro.

Todos os dias tenho clientes. Tenho alguma concorrência aqui no mercado, pois tem mais algumas bancadas onde vendem peças e onde fazem pequenas reparações. A única pessoa que faz todo o serviço, aqui no mercado, sou eu. Sou o principal mecânico de bicicletas no mercado do Kifica.

Costumo trabalhar até por volta das 16 horas. Nos dias em que tenho aulas, largo mais cedo, às 10h30. Estudo das 12 às 15 horas, mas não é todos os dias, devido à pandemia.

Gosto do trabalho que faço. A mecânica das bicicletas é básica, mas fascina-me. Sinto utilidade naquilo que faço, sobretudo quando chega um cliente quase a chorar por pensar que vai perder a bicicleta, mas eu consigo recuperá-la quase a 100%.

Por dia, posso fazer 50 mil kwanzas, incluindo o valor das peças. Nos dias bons, o meu lucro chega aos 20 ou 30 mil kwanzas. Mas tem dias em que nem consigo 10 mil kwanzas de lucro.

O dinheiro, uso para pagar a escola, comprar roupa e manter o negócio. Também costumo dar dinheiro na mamã e no papá. Não costumo comprar comida, apenas dou dinheiro na mamã e ela é que sabe como o vai usar. Não tenho um valor fixo para entregar; eu é que sei o que dou, em função do meu rendimento e das despesas com o negócio e com a escola.

O meu dia de ontem

Ontem acordei às 7 horas. Tomei banho, vesti-me e saí para a praça. Fica próximo de casa. Apanhei uma moto de 100 kwanzas e cheguei lá em 10 minutos.

Comecei a trabalhar às 8 horas. Como já tinha obras por concluir, fiquei a trabalhar nessas obras. Eram 3 bicicletas.

Matabichei antes das 10 horas. Comi magoga com gasosa. No total, gastei 700 kwanzas.

O almoço foi feijoada, ao preço de 1.200 kwanzas. Almocei quando eram 13 horas.

Durante o dia de ontem, recebi uns 10 clientes, mais ou menos. Não costumo contar os clientes que recebo ao longo do dia. Como não tive aulas, ontem trabalhei até às 16 horas. Depois fui para casa.

Em casa, arrumei o meu quarto, que partilho com o irmão de 18 anos.

Jantámos às 19 horas, peixe com massa. Fui dormir às 21 horas.

Observação: O caso é real e, por recomendação do próprio, os dados de identificação são reais. Publicamos uma imagem do entrevistado de hoje, a reparar uma bicicleta.

* Sociólogo

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