Quem serão os próximos em 2020

Isaías Samakuva dizia que “o Presidente João Lourenço parece ter entendido o clamor do povo por mudança. Se o faz apenas para salvar o MPLA ou para permitir o resgate da Pátria angolana para os angolanos, só o tempo o dirá”.

Angola /
06 Jan 2020 / 21:28 H.
António Pedro

O então presidente da UNITA fez uma reflexão filosófica em Outubro de 2018, em réplica ao discurso do Estado da Nação, sobre o rumo que o País poderia ou não galgar, do referido momento em diante, face aos contornos que envolvem casos visíveis e concretos de corrupção, nepotismo e compadrio.

Os grandes autores envolvidos em casos concretos são membros, militantes, simpatizantes e amigos do MPLA. Uma espécie de fogo que se manteve acesso por décadas cuja fumaça estava visível, mas somente há dois anos percebeu-se a dimensão do impacto negativo, de riscos sobre a política e a economia.

Isaías Samakuva dizia que “o Presidente João Lourenço parece ter entendido o clamor do povo por mudança. Se o faz apenas para salvar o MPLA ou para permitir o resgate da Pátria angolana para os angolanos, só o tempo o dirá”.

O Procurador Geral da República disse durante a cerimónia de cumprimentos de fim de ano da referida instituição que o Estado reclama mais de quatro mil milhões de dólares norte-americanos e 729 mil milhões de kwanzas retirados ilicitamente dos cofres do Estado, divididos em 45 processos já em posse dos tribunais.

Os dois últimos dias de 2019 que abalaram a empresária Isabel dos Santos, Sindika Dokolo e Mário Leite Silva, com bloqueio de contas bancárias no País e arresto de participações accionistas nas empresas Finstrar, Cimangola II, Condis, Sodiba, Continente Angola, Unitel, Zap Media, BFA, BIC, remetem para uma abordagem política de fundo face às palavras de Samakuva há um ano.

O sistema judiciário angolano tem na manga uma árdua tarefa de desvendar casos de corrupção que cada vez que destapa anomalias estão envolvidas figuras ligadas ao partido no poder. Entre salvar o MPLA e o povo angolano, a linha é muito ténue, perante poderosos interesses instalados há décadas.

O partido dos camaradas criou e alimentou uma elite que é a culpada dos males de hoje. O açambarcamento da coisa pública foi dos piores crimes contra o povo angolano onde não há inocentes, porque quem não roubou sabia quem roubava e, simplesmente, calou-se.

Claro que a Justiça muito acusada nos últimos dois anos de fazer um frete ao poder político, deve continuar a primar pela aplicação justa da lei sem olhar para rostos de quem prevaricou.

Os sinais da política doméstica, nos dois últimos anos, demonstram que o MPLA estará menos preparado para materializar os passos dados pelo seu líder quanto ao combate a corrupção.

Quem será o próximo com bens arrestados face aos milhares de milhões que o Estado reclama nos tribunais? Depois do abalo sobre a mulher mais rica de África (?), cuja dívida reclamada pelo Estado equivale a quase metade da sua fortuna, quem será o próximo da lista que provavelmente tentará provar de A a Z que construiu império empresarial sem recursos públicos?

Quem no partido está alinhado com o presidente emérito e sente na incursão da Justiça um mal que afectará o partido dos camaradas nas próximas partidas eleitorais? Já se tornou conversa frequente em círculos do próprio partido no poder a ideia segundo a qual José Eduardo dos Santos poderá lutar contra o seu próprio partido em futuras disputas eleitorais (2022).

O analista político Ismael Mateus disse numa grande entrevista ao Vanguarda, Outubro de 2018, que tem sérias dúvidas que o processo de combate à corrupção que arrola certas figuras de destaque do MPLA venha a aventar uma possível fracção no próprio partido. “Para ser franco, não há nenhum membro do MPLA neste momento com perfil para protagonizar uma fracção bem-sucedida.

Os que tinham capital político para isso, se calhar, estão com alguns problemas ligados também à suspeição. As novas gerações são muito fracas, ninguém tem peso. Portanto não acredito que haja essa saída nos camaradas.

Não vejo ninguém com capital político para isso, mas pode existir uma surpresa”. Parafraseando Isaías Samakuva, a captura do Estado por um sistema de poderosos interesses políticos e económicos, montado pelo então presidente José Eduardo dos Santos é que constitui a raiz de tudo o que está mal na estrutura do funcionamento do Estado, actualmente lesado em mais de quatro mil milhões de dólares norte-americanos e 729 mil milhões de kwanzas.

A prova de que os arrestos vão ganhar corpo, ao longo do ano, é o facto de a PGR ter apurado desde início do ano passado que várias empresas privadas beneficiaram de financiamento de fundos públicos, algumas em processo de privatização irregular e outras financiadas e suportadas com garantia soberana do Estado, sem ter havido ainda o reembolso voluntário desses fundos públicos.

A Justiça pode colocar um ponto final à sangria de recursos públicos com a sua actuação imparcial, para que o poder Executivo faça o mais difícil: com os recursos a recuperar face aos futuros arrestos, fazer tudo o que não foi feito até agora devido à falta de recursos financeiros.

*Director do Jornal Vanguarda