Porta “escancarada” para mortes em massa por COVID-19

Passou a vigor no País desde 15 de Agosto a chamada “quarentena domiciliar” para cidadãos angolanos ou estrangeiros residentes que regressem ao País, bem como para casos positivos de COVID-19 mas assintomáticos.

27 Ago 2020 / 12:35 H.
Agostinho Rodrigues

Medida anteriormente defendida por alguma classe médica do País, em detrimento da quarentena institucional, como forma de conter a propagação do novo coronavírus, alegadamente de ser “mais humana”, pouco despesista em termos de logística para o Estado, para não colapsar o sistema de saúde pública de per si doentio.

À partida, a “olho nu” - a medida parece ajustada na óptica de alguma classe médica e para o Executivo face à avultada despesa com a pandemia, mormente com a quarentena institucional, com as condições de alojamento, de alimentação, entre outras, quiçá, permanentemente colocadas em “xeque” fazendo fé nos áudios e vídeos nas redes sociais, apesar do esforço do Executivo em assegurar melhores condições para os cidadãos nos centros de quarentena e hotéis para o efeito.

É evidente, desde logo, que a “quarentena domiciliar” não vai vincar – não deverá ter o sucesso esperado, pois não se adequa a realidade angolana. É pois uma utopia defender uma medida que está condenada ao fracasso devido a cultura e espírito de deixa andar, de ignorância e anarquia.

Sabe-se, no entanto, que a maioria da população angolana não dispõe de condições habitacionais dignas deste nome (o doente estar isolado num quarto, com casa de banho independente ou anexo com ventilação natural, através da abertura das portas e janelas), alguns dos requisitos para observação da “quarentena domiciliar”, para além da existência de um endereço exacto da residência (bairro e rua) e um telemóvel ou internet como elementos fundamentais para facilitar a comunicação entre o doente e as autoridades sanitárias.

Em concreto, o que há de distinto neste novo processo comparativamente ao início da pandemia no País? Estamos recordados que a tão propalada quarentena domiciliar foi um fiasco, quiçá, um dos “vectores” que disseminou à COVID-19 na capital do País.

O conhecido e histórico “caso 26”, para citar apenas este, entre outros, são exemplos inequívocos de que não vale a pena insistir no erro, no impraticável apesar das anunciadas medidas de punição, multas de 250 mil Kz para os prevaricadores a “quarentena domiciliar”. Se em alguns casos nem mesmo a quarentena institucional foi observada com rigor, houve ajuntamentos, a quarentena domiciliar ora em vigor não deverá ser um sucesso diante da débil estrutura fiscalizadora do Estado, da não existência de número ideal de polícias para assegurar a ordem e tranquilidade públicas. O número ideal de policiais recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU) é de um para 250 habitantes.

Veja-se o exemplo de alguns jovens que em quarentena institucional, no hotel Victoria Garden, infectaram-se por ajuntamento, por um “dedo de conversa”.

Não basta importar medidas por importar. O que terá sido ou é referência na Europa, na Asia, Oceânia, pode não ser praticável em Angola por factores culturais, condições habitacionais, que variam de país para país.

As famílias africanas e angolanas em particular são numerosas, numa casa com três compartimentos (quartos) podem residir entre seis membros ou mais, com um único quarto de banho. E, este, embora não disponha de dados estatísticos deverá ser a realidade da maioria das famílias angolanas. Até prova em contrário, embora não seja especialista em medicina, estão “escancaradas” às portas para disseminação e mortes maciças por COVID-19 no País.

Qual febre-amarela cujos mortos estão por contabilizar e a culpa morreu solteira, desde 2016 até aos nossos dias?

Sem dúvidas, o País deverá pagar caro com este tipo de medidas que não se ajusta a realidade angolana, devido aos factores já acima mencionados.

Não deverá ser novidade para ninguém se famílias inteiras forem dizimadas pela COVID-19, pois não existem condições objectivas, de biossegurança nas famílias para ingente tarefa de que o Estado atribui agora a responsabilidade de cada um e de cada família. Um mínimo erro poderá ser fatal, pois até mesmo os especialistas em saúde os médicos pelo mundo estão a ser infectados pelo novo coronavírus quanto mais famílias que deverão cuidar do seu doente sem a razoável instrução de uso de máscara facial ou de métodos de biossegurança.

Basta sair a rua para se aferir a este facto, cada um usa a máscara do seu jeito, correctamente, debaixo do queixo ou mesmo sem ela. Mais do que “baixar a guarda” face a quarentena institucional, o Executivo deve definir prioridades, evitar despesas supérfluas como a autorização de 44,7 milhões USD para empreitada de construção do edifício sede da Comissão Nacional Eleitoral (CNE) e do Centro de Escrutínio Nacional, a alegada aquisição de perto mais de 200 casas degradadas no Calumbo para servir de futuro centro de pandemias, um negócio polémico de 25 milhões USD, cujos proprietários são desconhecidos, os exagerados 148 milhões de Kz alocados para produção do hino dos 45 anos de independência nacional, para citar alguns exemplos.

Em contexto de crise- de contenção de custos, associados à COVID-19, as despesas em causa são pertinentes, mas talvez não prioritárias por enquanto.

Em jeito de resumo, antes de se tomar qualquer medida é preciso fazer uma análise profunda sobre a eficácia e eficiência da mesma para o País, para não se incorrerem em resultados desastrosos, pois não é por acaso que o Presidente da República exortou aquando do Estado de Emergência face à COVID-19 que “o País aprenda com os erros dos outros”.