Para uma visão renovada das relações entre África e França (II)

A educação, o acesso à água, à energia e as condições sanitárias de vida serão os eixos prioritários da nossa cooperação em África e mais especificamente em Angola.

Angola /
02 Dez 2019 / 17:49 H.
Sylvain Itté

Em Angola, a França é o 2° investidor estrangeiro e as nossas empresas geram mais de 25000 empregos directos e indirectos. O primeiro empregador privado do país é uma empresa francesa implantada em várias províncias.

Já presentes, nossas empresas contribuem directamente para este crescimento com novos investimentos e com a criação de valor acrescentado; Porque a França está convencida que os grandes desafios com que o mundo será confrontado, quer se trate da alteração climática ou da gestão das migrações, apenas serão solucionados de forma global e com um empenhamento forte de África.

Com um crescimento populacional excepcional que verá África passar de 1,2 mil milhões hoje para 2,5 mil milhões em 2050, no contexto de uma intensa urbanização, os desafios humanos devem ficar no centro da nossa atenção e as respostas políticas, económicas, sociais e democráticas só podem ser trazidas por uma cooperação internacional de uma dimensão completamente diferente daquela que nós conhecemos actualmente.

O Presidente da República Francesa, Emmanuel Macron, definiu as grandes linhas daquilo que deverá ser a acção da França nas próximas décadas, voltada, por um lado, ao desenvolvimento humano, passando principalmente pela formação da juventude africana, e por outro lado, ao desenvolvimento económico que possibilitará, sobretudo, uma melhoria substancial das condições de vida das populações.

Assim, a educação, o acesso à água, à energia e as condições sanitárias de vida serão os eixos prioritários da nossa cooperação em África e mais especificamente em Angola; Porque o futuro da língua Francesa e da Francofonia está amplamente promovido pelos Africanos, uma vez que mais da metade dos 300 milhões de francófonos no mundo são africanos, e que a influência acrescida do nosso idioma constituirá um desafio e uma vantagem, a lidar com eles; Porque os países africanos, tal como nós, são empenhados na defesa do multilateralismo e os seus interesses são convergentes com os nossos para a promoção de uma melhor governança mundial; Considerando que uma parte da História de França foi escrita por Africanos vindos para lutar pela defesa da nossa liberdade nos vários momentos cruciais.

A França possui interesses legítimos em África que ela quer promover com uma abordagem de parceria, baseada na transparência e na reciprocidade.

Isto é o sentido do discurso que o Presidente da República Francesa proferiu a 28 de Novembro de 2017 na Universidade Ki-Zerbo de Ouagadougou, durante o qual detalhou um conjunto de compromissos, indicadores de uma nova relação, de um “novo olhar”, entre a França e o Continente africano.

O Presidente Emmanuel Macron especificou um conjunto de comprometimentos para com a juventude africana, em particular a favor da educação das raparigas, do empreendedorismo e da mobilidade. De um modo geral, a prioridade está dada ao emprego, que depende primeiramente dos investimentos do sector privado, e à inovação. O desafio consiste em possibilitar a juventude africana no sentido de se construir um futuro no seu continente.

A forte progressão da nossa Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) ao serviço de uma política de investimento solidária num futuro comum foi decretada: 0,55% do Rendimento Nacional Bruto (RNB) destinados à APD daqui até 2022. África em geral será o principal beneficiário deste esforço, em particular com dezanove países prioritários, todos incluídos na categoria dos países os menos avançados (PMA, sigla em francês).

Em Angola, a França está a implementar, através da acção da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), programas destinados ao financiamento de projectos no domínio da água e da agricultura familiar com várias centenas de milhões de dólares norte americanos e ela iniciou para muitos anos um vasto programa de apoio à formação profissional e ao ensino agrícola.

O discurso de Ouagadougou impõe finalmente uma mudança de abordagem e de método, não simplesmente sobre a questão dos bens culturais, mas também sobre o papel crescente que deveriam poder desempenhar as diásporas africanas nesta relação.

Compromissos importantes foram enunciados, designadamente em quatro grandes domínios, especialmente relevantes para o futuro da juventude africana: a educação e a cooperação universitária, a inovação e a parceria económica, o clima e a cidade sustentável, e a cultura.

Desde então, dezenas de projectos foram implementados na maioria dos países africanos, francófonos e não francófonos.

*Embaixador da França em Angola