Para uma visão renovada das relações entre África e França (fim)

A conferência de reconstituição do Fundo Mundial realizada na cidade de Lyon nos passados 9 e 10 de Outubro, na presença do Presidente da República Francesa, foi um sucesso: a meta de 14 mil milhões de dólares foi alcançada. Isso é uma vitória para a França que deu o exemplo ao aumentar para 20% a sua contribuição e ao envidar esforços significativos para mobilizar os outros doadores.

12 Mar 2020 / 20:26 H.
Sylvain Itté

O discurso de Ouagadougou impõe finalmente uma mudança de abordagem e de método, não simplesmente sobre a questão dos bens culturais, mas também sobre o papel crescente que deveriam poder desempenhar as diásporas africanas nesta relação.

Compromissos importantes foram enunciados, designadamente em quatro grandes domínios, especialmente relevantes para o futuro da juventude africana: a educação e a cooperação universitária, a inovação e a parceria económica, o clima e a cidade sustentável, e a cultura. Desde então, dezenas de projectos foram implementados na maioria dos países africanos, francófonos e não francófonos.

A título ilustrativo, em Angola quatro escolas públicas bilingues angolanas da rede denominada « Eiffel » de Caxito, Malanje, Ondjiva e N’Dalatando, obtiveram em 2018 e 2019 o selo « LabelFrancÉducation » que certifica a qualidade do ensino bilingue franco-português ministrado nessas escolas. Trata-se das primeiras escolas credenciadas na África austral e no mundo lusófono africano.

Esta rede de excelência que forma anualmente várias centenas de alunos angolanos do ensino médio, oriundos de todas as esferas sociais, é o resultado de uma parceria público-privada entre a Embaixada de França em Angola, o Ministério da Educação angolano, a Total E&P Angola, a Missão Laica Francesa (MLF) e o Liceu Francês de Luanda. Ademais, a França está a desenvolver um importante plano de formação superior de jovens angolanos que estão actualmente 800 a formarem-se no nosso país. Enfim, importa salientar que o Liceu Francês de Luanda acolhe 54% de alunos angolanos, ou seja, cerca de 600 jovens.

O desafio do desenvolvimento sustentável das cidades africanas, sobretudo face ao desafio das alterações climáticas, constitui outro eixo importante do discurso de Ouagadougou. Através de projectos facilitando a instalação de infraestruturas sustentáveis para reduzir a pegada climática e ajudar África a cumprir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, recorrendo a tecnologias inovadoras, a França acompanha os países do continente nessa transição.

A questão da cidade sustentável será portanto no centro da cimeira África-França prevista para o princípio de Junho de 2020 e que deveria acolher um número importante dos 54 Chefes de Estado africanos, dos quais nós esperamos ver o Presidente Lourenço, convidados pelo Presidente Macron.

No domínio da saúde, a França é o segundo contribuinte para o período 2002-2016 com 4,5 mil milhões de dólares concedidos ao Fundo Global de combate as pandemias que são a SIDA, o paludismo e a tuberculose. A conferência de reconstituição do Fundo Mundial realizada na cidade de Lyon nos passados 9 e 10 de Outubro, na presença do Presidente da República Francesa, foi um sucesso: a meta de 14 mil milhões de dólares foi alcançada.

Isso é uma vitória para a França que deu o exemplo ao aumentar para 20% a sua contribuição e ao envidar esforços significativos para mobilizar os outros doadores. Portanto, graças a este compromisso e a investigação efectuada nomeadamente pelo Instituto Pasteur, centenas de milhares de vidas foram resgatadas no continente africano.

No plano cultural, a Época das culturas africanas em França, « África 2020 », deve permitir a França e aos jovens Franceses descobrirem as obras das gerações africanas mais jovens no universo da moda, da música, do cinema, e do design. Em Angola, a França está engajada ao serviço do multiculturalismo através da Alliance Française de Luanda que garanta uma programação cultural ímpar, valorizando especialmente os artistas angolanos e francófonos de África.

A França está igualmente a implementar, em parceria com a empresa TOTAL E&P, um programa com um custo de várias centenas de milhares de euros em apoio ao Centro histórico de Mbanza Kongo, classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, e cuja candidatura havia sido largamente apoiada, na altura, pela França.

Portanto, para além dos clichés arcaicos e muitas vezes mal informados, quando não são deliberadamente mal-intencionados, quanto as relações entre a França e África, espero ter ajudado os leitores angolanos a melhor compreender a sua realidade actual, tanto em África como em Angola, mais justa, mais positiva e construtiva, e mais compatível com as suas acções.

*Embaixador da França em Angola