“Os trabalhadores dos armazéns sofrem represálias e discriminação”

Luanda /
12 Out 2020 / 12:05 H.
Paulo de Carvalho

Sou a Lukénia Kambami, tenho 33 anos e nasci em Luanda. Os meus pais são de Malanje: o pai nasceu na Kizanga e a mãe, numa aldeia de Kangandala. O meu pai é pedreiro/ladrilhador e a minha mãe, camponesa. Tenho 8 irmãos.

Tenho marido há 6 anos. Vivo em Viana, com o meu esposo e um casal de filhos. O filho mais velho tem 5 anos e a filha mais nova, 3 anos.

Comecei a estudar com 7 anos, no Cazenga (o bairro onde nasci), numa escola adventista. No ensino médio, estudei ciências humanas num instituto politécnico estatal. Concluí a 12ª classe e fui forçada a deixar de estudar, devido à falta de recursos.

O meu pai pagou os meus estudos, apenas até à 9ª classe. Para fazer o ensino médio, tive de começar a trabalhar, podendo assim custear os estudos. Trabalhava de dia e estudava à noite.

Sou católica, com catequese, baptismo, comunhão e crisma. Mantenho-me praticante assídua, com alguma responsabilidade num dos grupos da igreja.

Namoro e matrimónio

Comecei a namorar com 20 anos. Antes disso, recebia propostas, mas tinha bastante medo e, por isso, preferi ir adiando esse passo. É um passo importante na vida, que deve ser dado com precaução. Antigamente era assim. Hoje, os tempos mudaram...

O meu primeiro namorado era boa pessoa, mas não deu certo. Namorámos dois anos e separámo-nos. Não foi fácil naquela altura, mas a vida tinha de prosseguir.

Só depois conheci o pai dos meus filhos. Estava eu a dirigir-me para o trabalho, quando ele deu conta de mim. Vinha a conduzir a viatura da empresa, de modo que me seguiu até ao meu local de trabalho. Travou conhecimento comigo e pediu o meu contacto telefónico. Obviamente que não lhe dei. Mas ele foi aparecendo e foi insistindo, até que lhe dei o meu número e travámos amizade.

Quando me conheceu, ele já tinha filhos, mas era solteiro. Quando chegou à altura, fez o pedido e fomos viver juntos. Eu estava grávida na altura, já lá vão 6 anos.

O meu marido é motorista. É uma pessoa bastante responsável, que procura não criar problemas. Vive para a sua família.

Vida profissional

O meu primeiro emprego foi no Luanda da Sorte. Durante dois anos, vendi cautelas. Foi um boa experiência, que deixou boas marcas. Precisava desse emprego para poder prosseguir os meus estudos.

O segundo emprego foi numa cantina de Mamadou. Aqui, suportei alguma sobrecarga, mas trabalhava com todo o ânimo, pois o pouco que recebia se destinava a pagar os estudos.

No mesmo ano em que terminei o ensino médio, mudei-me para um armazém de electrodomésticos, propriedade de um cidadão eritreu, localizado no bairro Hoji ya Henda. Tal como na cantina, aqui também trabalhava no caixa.

Como veio para Angola o irmão do meu patrão, que não falava português, fui transferida para o armazém que este controlava e passei também a ensinar-lhe português, para além do trabalho no caixa.

Um ano depois, como o meu patrão abriu um novo armazém nos Congolenses, fui para este novo armazém. Mas mantendo sempre o mesmo patrão. Cheguei a gerente do armazém.

Vieram depois para Angola os outros três irmãos eritreus, perfazendo cinco irmãos. Eu estou a trabalhar no armazém do segundo irmão, porque o primeiro viajou e fixou residência no estrangeiro.

O actual patrão (que é irmão daquele que me tratava bem enquanto funcionária), depois de aprender português e de passar a ser patrão, tornou-se uma pessoa arrogante, sem consideração pelos angolanos e sem respeito pelos trabalhadores. Além disso, paga mal e insulta-nos.

Gostaria de dizer que os trabalhadores dos armazéns e das lojas dos estrangeiros sofrem represálias, abusos e discriminação. Este é um mal geral. Sei disso, porque falo com colegas que trabalham noutros armazéns e a situação de humilhação e discriminação está generalizada.

Vejam o meu caso: sou gerente da loja e ganho apenas 30 mil kwanzas por mês. Recebo também 500 kwanzas por dia, para o transporte. Não tenho direito a alimentação, apesar de trabalhar das 7 às 17 horas.

E vejam os outros salários mensais: o estivador ganha 20 mil kwanzas, a moça do caixa ganha 20 mil kwanzas, eu como gerente ganho 30 mil e o motorista, 35 mil kwanzas.

Mas se faltar algum produto, quem paga são os trabalhadores. Mesmo que o produto tenha sido roubado por algum cliente, são os trabalhadores que pagam. Isso tem-nos acontecido. Como as câmaras não funcionam, o patrão diz que temos de ser nós a vigiar.

Em tempos, a nossa loja sofreu sucessivos assaltos por parte de lavadores de carros daqui da Baixa. Por sorte, demos conta e acabámos com isso. Mas quando se fez o inventário, passados 3 meses, foram identificados os artigos em falta e estão agora a descontar aos trabalhadores. Cada trabalhador deve pagar 90 mil kwanzas. Estamos a pagar, uns 10 mil, outros 20 mil kwanzas por mês. Eu estou a pagar 20 mil por mês, o que quer dizer que só recebo 10 mil kwanzas no final do mês.

Como se isso não bastasse, sou obrigada a ouvir gritos e a aturar faltas de respeito por parte do patrão. Há pessoas que não aguentam, tanto que nos últimos 6 meses já se despediram 6 trabalhadores, só na nossa loja.

Se o trabalhador adoece, é obrigado a trabalhar. O patrão não acredita nem no documento médico. Em tempos, uma colega teve de ser internada com a filha; o patrão despediu-a.

Além disso, o nosso governo não faz a devida fiscalização. Há trabalhadores a ganharem abaixo do salário mínimo. Acho que o salário mínimo no comércio devia aumentar para 50 ou mesmo 70 mil kwanzas.

Os angolanos que trabalham em estabelecimentos de estrangeiros passam mal. Passam fome e são maltratados, nalguns casos espezinhados mesmo. Os estrangeiros estão a nos escravizar muito.

O patrão diz-nos mesmo: “Podem se queixar a quem quiserem, que ninguém vai fazer nada. Nós pagamos ao polícia e ao fiscal!” Vieram para cá fininhos, com toda a humildade. Hoje, estão ricos, envaideceram-se e brincam connosco. Maltratam-nos e ofendem-nos. Governo, olhem por nós, porque estamos a ser escravizados na nossa terra.

Observação: O caso é real, mas o nome e os dados de identificação são fictícios.