Os políticos e o acessório-político

16 Mar 2020 / 16:35 H.
António Pedro

Os políticos da situação e da oposição continuam a investir tempo demasiado para se digladiarem com temas que sejam acessórios (bolsas de estudo é mais um exemplo recente), deixando à parte o essencial da vida dos angolanos e que clama por apoios e estratégias refinadas de políticas públicas.

Nos últimos dias, o partido da situação e o maior rival político no arco parlamentar digladiaram-se de forma indirecta por via das redes sociais, com militantes de um e de outro assumidos à testa com comentários poucos ortodoxos, face ao programa da UNITA de formação de quadros por intermédio de 254 bolsas de estudo, das quais 90 directas, com pagamentos aprovados, e 164 indirectas, cujos candidatos terão acesso a um emprego para custear os estudos.

O assunto mereceu reacções a favor e a desfavor em fóruns da política activa. Houve inclusive reacções aparentemente de cariz político, quando o secretário de Estado do Ensino Superior anunciou, dias depois, que o governo prevê atribuir 10 mil bolsas de estudos por ano.

Os políticos da situação e da oposição continuam a investir tempo demasiado para se digladiarem com temas que sejam acessórios (bolsas de estudo é mais um exemplo recente), deixando à parte o essencial da vida dos angolanos e que clama por apoios e estratégias refinadas de políticas públicas.

Vejamos alguns exemplos de instituições que atribuem bolsas de estudo, aqui tratado como um tema que pode ser considerado acessório diante de tamanhos problemas sociais que retiram credibilidade política ao País.

A Argentina tem disponíveis 43 bolsas de estudo para candidatos angolanos, para o corrente ano, nas áreas de Administração de Empresas, Design Gráfico, Engenharia Ambiental e de Psicopedagogia, um processo em curso pela embaixada do país sul-americano em Angola.

Não são poucas as instituições privadas em Angola que apostam em programas de bolsa de estudo, no quadro de estratégias em projectos de investimento social privado – embora alguns preferem designar de responsabilidade social.

A título de exemplo, o Banco Angolano de Investimento prevê gastar mais de 900 milhões de Kwanzas até 2026 com 50 bolsas por ano, perfazendo um total de 350 bolsas de estudo em sete anos, para candidatos dos cursos de Contabilidade e Finanças, Gestão Bancária e Seguros, Informática de Gestão Financeira do Instituto Superior de Administração e Finanças.

Outro exemplo sonante tem que ver com o Banco Económico que concede neste ano corrente 150 bolsas de estudo para ensino superior, uma iniciativa que visa ajudar a reduzir a taxa de abandono escolar, assegurar uma educação de qualidade aos estudantes e contribuir para a criação de quadros mais competentes e capacitados, em todo o País.

São muitos os exemplos para demonstrar que os políticos têm assuntos mais estruturantes e estratégicos para resolver a vida dos angolanos do que investir tempo em discussões que não dão fruto. Um assunto muito sério tem que ver com dados do Instituto Nacional de Estatística, que transitaram do ano passado ao presente, que apontam para cerca de nove milhões de angolanos que vivem na pobreza extrema.

Existe o compromisso governamental de até 2022 pelo menos três milhões de pobres saírem da linha extrema, onde sobrevivem diariamente com o equivalente em kwanzas a menos de dois dólares dos EUA.

Isto, sim, é assunto para políticos digladiarem em sede do arco-parlamentar sobre o que está a ser feito, na prática, para se alcançar a meta preconizada desde final de 2017. Quando se tem cidadãos a sobreviverem na linha extrema da pobreza, a corrupção ao nível destes só se agrava. Raramente tende a diminuir.

A fazer crença nos dados do Instituto Nacional de Estatística que um agregado familiar em Angola possui no máximo cinco membros, não é tão difícil calcular como é que as famílias abrangidas no universo de nove milhões de angolanos pobres ao extremo conseguem desenrascar duas das três necessidades básicas de um ser humano: alimentação e vestuário.

Se os políticos da oposição têm estratégia para conceder bolsas de estudo, podem também implementar outras aliadas às políticas públicas em curso, para recuperar angolanos socialmente vulneráveis. Christine Lagarde, antiga directora-geral do FMI, alertou, quando visitou Angola em Dezembro de 2018, que as tranches sequentes à primeira de mil milhão dos 3,7 mil milhões de dólares de empréstimo a Angola só seriam disponibilizadas à medida que houvesse reflexos na melhoria de vida dos angolanos que habitam na pobreza extrema.

Se tudo correr bem, o FMI vai disponibilizar mais 566 milhões de dólares em Junho próximo. O que os políticos precisam mostrar aos eleitores activos e potenciais, é o verdadeiro impacto da aplicação dos recursos que vimos a citar.

Trata-se de discutir o essencial e não o acessório. Quando a questão social entra no centro da governação política, é um desafio já assumido, resta haver resultados palpáveis.

O Executivo precisa comunicar mais, neste quesito. Se a meta é retirar da pobreza extrema três milhões de angolanos até 2022, é importante explicar aos governados quantos abandonam esta linha semestralmente ou, no limite, anualmente. É sabido que a situação económico-social não é a melhor, é de extrema asfixia, quer para o governo quer para as empresas, principalmente para as famílias angolanas, devido a falta de recursos financeiros.

As informações que o FMI tem acesso sobre como as tranches semestrais disponibilizadas ao governo impactam na vida dos angolanos socialmente vulneráveis, poderiam ser de acesso público para que se tenha a real percepção do impacto das políticas em curso de mitigação de um enorme mal social como é a pobreza extrema. Insisto que discutir sobre quem deve ou não conceder bolsas de estudo, é tema acessório.

Os políticos partidários devem discutir o essencial, o bem-estar dos angolanos que estão na pobreza extrema, com soluções práticas e visíveis aos olhos de todos, porque muitos dos afectados são eleitores activos e potenciais -quer em eleições autárquicas, quer em eleições gerais. O acessório, não! Só quando tivermos bem-estar.

* Director do Jornal Vanguarda