Os movimentos sociais e a política

É necessário que os cidadãos angolanos actuem com transparência, ética e coragem, com o mesmo espírito democrático e patriótico que se pauta na Constituição da República de Angola. As ideias e soluções devem ser expostas abertamente e de forma ordeira.

Angola /
11 Out 2019 / 01:07 H.
Edgar Leandro Avelino

Quando nos sentimos impotentes, ficamos infelizes. A sensação de não ter poder ou influência sobre as pessoas e ocorrências obriga-nos a começar a praticar o jogo de duplicidade invisível que mais se assemelha à dinâmica de poder que existia no mundo ardiloso da antiga corte aristocrática. Palavras leva-as o vento e porque nunca nos devemos esquecer de quem somos filhos e devemos honrar - a nossa Angola.

Os movimentos sociais são manifestações de carácter popular que tiveram início com alguma notoriedade no século XIX com a acção orientada na obtenção de transformações sociais, políticas e económicas.

De acordo com Scherer-Warren, a sociedade civil é uma representação a vários níveis de como os interesses e os valores da cidadania se organizam em cada sociedade, com o objectivo de levar a efeito políticas sociais e públicas, utilizando-se por vezes acções de protesto, manifestações simbólicas e outro tipo de actividades de contestação.

É necessário que os cidadãos angolanos actuem com transparência, ética e coragem, com o mesmo espírito democrático e patriótico que se pauta na Constituição da República de Angola.

As ideias e soluções devem ser expostas abertamente e de forma ordeira.

Os cortesãos que compunham a anterior corte, ficavam numa posição muito delicada: tinham de servir aos seus senhores, mas, se a bajulação fosse muito óbvia, os outros cortesãos notariam e agiriam contra eles. As tentativas de agradar ao senhor, portanto, tinham de ser sutis.

Desaprovavam-se as atitudes violentas ou declaradas de poder; os cortesãos trabalhavam em silêncio e sigilosamente contra aquele entre eles que praticassem episódios revolucionários.

Com o tempo, o cortesão bem-sucedido aprendia a agir sempre de forma indirecta; apunhalava-se o adversário pelas costas, era com luva de pelica na mão e, no rosto, o mais gentil dos sorrisos. Em vez de coagir ou trair explicitamente, o cortesão perfeito conseguia o que queria seduzindo, usando o charme, a fraude e as estratégias subtis, sempre planeando várias acções com antecedência. A vida na corte era um jogo interminável que exigia vigilância constante e pensamento táctico. Era uma guerra civilizada.

Hoje enfrentamos um paradoxo peculiarmente semelhante ao do cortesão: tudo deve parecer civilizado, decente, democrático e justo. Mas se obedecemos com muita rigidez a essas regras, se as tomamos de uma forma por demais literal, somos ameaçados pelos que estão ao nosso redor e que não são assim tão tolos. Como escreveu Nicolau Maquiavel, “O homem que tenta ser bom o tempo todo está condenado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons”. A corte imaginava-se o ápice da refinação, mas sob a superfície cintilante fervilhava um caldeirão de emoções escusas — ganância, inveja, luxúria, ódio. O nosso mundo, hoje, igualmente imagina-se o ápice da justiça, mas as mesmas feias emoções continuam a ferver dentro de nós, como sempre.

Os movimentos sociais surgem em consequência de aspectos que são fundamentais para uma sociedade, a injustiça, identidade e eficácia, e não podem ser entendidos fora do contexto em que se apresentam como traços distintivos a sua capacidade para gerar um posicionamento face às posições dominantes actuais.

Obviamente, que a insegurança, a angústia, os sacrifícios que ocorrem para o acesso ao emprego, sem uma luz que alente o desespero dos vários objectivos não definidos, origina o abismo entre a realidade do poder e a realidade das massas, pois torna-se difícil pedir as pessoas que sejam racionais e, as angústias ao crescerem tornam as massas revolucionárias.

Parafraseando (Barracho), na génese das crenças encontra Gustave Le Bom o fenómeno essencial que está na origem das revoluções e de outros acontecimentos que transformam o destino dos povos, entre os pensamentos engendrados por impulsos geradores dos nossos comportamentos que, numa revolução, são dominados pelas crenças.

Além das crenças, o descontentamento – desencanto é também uma causa a considerar, pois acumulado ao longo do tempo, estimula o surgimento da revolução.

As interpretações que possam surgir da opinião, a que se refere neste artigo, foram contempladas para que se perceba que uma manifestação legítima e disciplinada ocorre de acordo a lei oficial e a variável que determina a possibilidade de uma manifestação ocorrer, resulta de uma acção colectiva por parte dos angolanos que desejam promover a boa mudança.

Lembro assim, que os fenômenos ligados ao comportamento das massas começaram a ser estudados e compreendidos no século XIX com o respeito objectivo à construção da cidadania e da democracia.

*Investigador Associado Observatório Político Portugal