Os dogmas da razão

20 Mar 2020 / 17:29 H.
Patrício Batsikama

Os dogmas que instituíram a autoridade da razão, pelo menos na obtenção de resultados concretos, criaram uma subconsciência da acção: agir correcto. A moral do acto.

Aproveitaram-se deste agir correcto de diferentes maneiras. Os religiosos arquitectaram uma “razão da piedade”. Os políticos criaram uma “razão virtuosa”, sempre na base da Lei. A sociedade busca a sua harmonia na “razão do convívio” como base da sua sustentabilidade da coesão.

A economia prefere a “razão numérica”, etc. A ideia da crítica aplicada na razão vislumbra uma desconstrução da própria razão, ao ponto de duvidar que a razão por si não seja racional. Isto é, trata-se, caso formos rigorosos, da desconstrução de dogmas da razão institucionalizada.

Aprendemos a reflectir depois de fixarmos os conceitos que constituem a razão ou a moral da nossa consciência, com alguma idiossincrasia que resulta do espaço e tempo da nossa existência.

Ora, este cenário é uma construção. Ela possibilita vários espaços de subconsciência, inúmeros cantinhos do impensado e proporciona-nos poucas possibilidades de raciocinar de forma realmente livre. A própria liberdade é regrada, justamente para não fugir a razão ou a consciência.

As nossas opções são ora manifestação externas da nossa subconsciência, ora escapatórias da inconsciência em si, mas influenciada. Poucas vezes, o impensado permanece um “não-Eu” pávido da Razão pois compromete, desta maneira, as liberdades existenciais. Daí, a razão perde perímetros nas operações simples da autoconsciência da acção por se tratar de dogma por excelência que vai além do centro-homem.

Percebemos então que a razão é uma plataforma de inúmeras possibilidades onde nem sempre as operações são ditadas pelas suas realidades. Podemos olhar, por exemplo, a lógica enquanto um dos desvios da razão.

Ao determinar como “verdadeira” e “falsa” as operações avaliadas sob preceitos matemáticos, confundiu-se claramente a dimensão do Espírito na compreensão da matéria. A Lógica funciona consoante o espírito da realidade.

Ora, a matéria nos mostra que a pureza da verdade não é alcançável (tangível). Pressupõe que a falsidade não seja na realidade impura.

Contrariamente a este paradigma e por procurar saciar as insuficiências da razão material, erguemos um padrão de qualidades para verdade e, como era de esperar, outro padrão dos defeitos. “Ser coerente consigo” passa a ser uma práxis de verdade, ao passo que “ser incoerente consigo” passa a ser falsidade.

Até certo ponto, isso funcionou na edificação da compreensão material e simbólica da sociedade. Importar essa realidade lógica para todos sectores da existência é, a priori, uma ideologia da razão. É uma operação, per se, irreal mas necessária. Immanuel Kant o tentou com os seus ensaios sobre a Razão, a Faculdade, etc. (conjunto de fenómenos).

Das reflexões pascalinas, percebe-se que a razão esteja na parte inferior da Inteligência enquanto exercício normal do prestígio humano. Um exemplo interessante é de JeanPierre Lefebvre quando faz revisão da Razão como fundamento de Estado em Hegel, para perceber a crítica de Henri Lefebvre sobre a cidade inigualitária e capitalismo hegemónica.

O autor faz uma revisão da distinção social de Bourdieu, cujas implicações económicas da produção/consumo das pessoas perpetuam os desníveis alarmantes. O Poder assenta-se na razão, como o observou Hegel.

Pressupõe-se a razão seja bela e virtuosa, simultaneamente . A construção de dogmas da razão – consoante a dimensão política, económica, religiosa, etc. – pressupõe a construção do mundo. V