“O meu sofrimento é a violência que sofro do meu marido”

Luanda /
21 Abr 2021 / 14:40 H.
Paulo de Carvalho

O meu nome é Rossana Nzinga, tenho 28 anos de idade e vivo na Boavista, com o meu marido e os nossos três filhos: duas meninas e um rapaz, com idades que variam entre 3 e 9 anos.

Nasci aqui mesmo em Luanda, no bairro da Petrangol. O meu pai era mecânico, com uma pequena oficina. Já a minha mãe é vendedora; é uma pessoa que me ajuda muito.

Estudos, religião e matrimónio

Comecei a estudar como qualquer outra criança, aos 6 anos. Estudei até à 10ª classe – primeiro na Petrangol, depois no PUNIV. Lembro-me que reprovei na 6ª classe. Estudei até aos 17 anos, até já não ter recursos para continuar.

Sou uma pessoa crente em Deus. Frequento a Igreja Pentecostal Damasco, na Boavista. Comecei a frequentar a igreja com 16 anos, levada por uma tia.

Vou à igreja com bastante regularidade; normalmente, quatro vezes por semana. Pertenço ao grupo de jovens. Para além das actividades ligadas aos cultos, conto no coro, faço teatro e integro os grupos de visitas a doentes.

Comecei a namorar com 15 anos e já tive 3 namorados. Conheci o meu marido quando tinha 17 anos e fomos viver juntos um ano depois. Engravidei e ele fez o pedido.

Sempre fui uma pessoa saudável. Mas isso não quer dizer que nunca estive doente, como é óbvio. Só que nunca passou de paludismo, gripe, anginas ou infecção urinária.

Comecei a trabalhar com 17 anos

O meu primeiro emprego surgiu na altura em que tive de deixar de estudar, para poder sobreviver. O apoio da minha mãe escasseava, de modo que fui trabalhar como babá, com 17 anos.

Depois, trabalhei em duas lanchonetes e como empregada de mesa num restaurante. O salário variou entre 15 e 30 mil kwanzas. Recebia 15 mil kwanzas por mês, como babá. Nas duas lanchonetes, o salário era de 20 mil kwanzas. Já como empregada de mesa, recebia 30 mil kwanzas.

Deixei de trabalhar com 24 anos, devido aos problemas constantes no lar. Arranjei então negócio, que consistia na venda de magoga (pão com frango). No ano passado perdi o dinheiro do negócio, devido à pandemia. O rendimento foi diminuindo, até não ter mais dinheiro para comprar o frango.

Está-me a perguntar se eu dependo do meu marido? Bem, dependo dele entre aspas. Porque ele a trabalhar, não vejo nada do que ele ganha. A única coisa que ele faz é comprar a comida; e eu cozinho só já.

Como a filha mais velha estuda, é o meu marido que paga as despesas da escola. Mas ela estuda numa escola do Estado, então como não pagamos propina, ele compra só o material.

Para mim, o meu marido não ajuda com nada. Nem para o cabelo, muito menos roupa. Fico mesmo assim. A minha mãe ou os meus tios é que me dão. Ele não dá nada. A mãe dele também não.

Violência doméstica

O meu sofrimento é a violência que sofro do meu marido. Ele gosta de mandar e gosta de bater. Sempre foi agressivo, logo desde o início. A bem dizer, isso de bater já vem desde quando namorávamos.

Sempre conversámos sobre isso e eu estava convencida que ele podia mudar, quando estivéssemos a viver juntos. Mas não mudou. Muito pelo contrário, as coisas tenderam a piorar.

Levo uma vida de sofrimento, com violência doméstica. Numa semana, podem me bater 2 ou 3 vezes. Às vezes posso ficar uns dois meses sem apanhar, mas depois ele arranja sempre um motivo para me bater.

Os motivos das agressões são os mais variados. Desde o ciúme, até me bater porque fui visitar um familiar meu. Também me bate, por exemplo, quando sabe que eu ralhei ou bati num dos filhos.

Cheguei a chamar a polícia, umas cinco vezes. Mas ele fugia sempre, tanto que nunca lhe levaram. Ele só volta, quando eu estou mais calma. Mas é claro que a polícia permitia isso – nunca lhe fizeram nada...

O pior aconteceu quando me partiu um braço e o maxilar. Foi na altura em que tive a primeira filha, há nove anos. Eu disse no hospital que caí, mas o médico disse que não, que “te deram um murro da cara e um bico do braço”. Tive que assumir. Aí ele se desculpou, porque havia polícias lá no hospital. Mas fiquei 6 meses com gesso e com ferro na boca.

Desde que ele fez isso, que a minha família não concorda mais com a relação. Acham que eu não devia mais ficar ele. Todos estes 9 anos, foi minha insistência.

Quando fiquei boa, fui na minha mãe. Ele me seguiu e pediu muita desculpa. Aceitei, porque gosto dele. Mas já estou arrependida, porque o sofrimento continuou sempre. Ele não se controla.

Quando vivíamos na casa da mãe dele, então, eram agressões quase diárias. Se a mãe não lhe chamava à atenção? Chamava sim, até fingia que estava do meu lado. Mas cada mãe acode sempre o seu filho, lhe protege.

A minha família sempre falou com a família dele, mas nada muda. Ele promete mudar, mas fica tudo na mesma. Olhe que até o dinheiro do meu negócio, ele já tirou. O que é meu ele pode usar, mas o dinheiro dele eu não vejo.

Fico sempre em casa a chorar. Não choro os meus problemas com os outros, choro sozinha. Muitas vezes, já pensei sair de casa. Nunca falei com ele sobre isso, mas estou a pensar seriamente sair de casa. Por sorte, a minha família é o meu refúgio; nunca me abandonaram.

Observação: O caso é real, mas o nome e alguns dos dados de identificação são fictícios.. V

*Sociólogo

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