“Ninguém gostaria de ser infectado pelo coronavírus!”

Luanda /
02 Jun 2020 / 10:03 H.
Paulo de Carvalho

Chamo-me Manzueto Ndalamba, tenho 35 anos de idade e apanhei COVID-19, a doença do mais novo coronavírus. Tenho esposa e dois filhos. Sou uma pessoa medianamente saudável, de modo que raramente adoeço.

Viajei em serviço para um país europeu e cheguei a Luanda em Março deste ano, com um ligeiro mal-estar. A coisa piorou depois de chegar a casa: sentia dor de cabeça e comecei a ter febre. Tendo em conta os sintomas, pensei tratar-se de paludismo.

Mas não me sentia tão mal assim, ao ponto de não poder trabalhar. Contudo, respeitei a orientação de quarentena. Entretanto, não fiz qualquer medicação, tendo optado por tomar chás, para controlo da febre e do mal-estar. Tomei chá de caxinde, chá de limão e chá de gengibre, com mel.

Melhorei em muito pouco tempo, mas ainda assim decidi telefonar com o pedido de fazer o teste ao novo coronavírus. Sentia-me bem e estava absolutamente tranquilo, tanto que quando recebi o resultado positivo no dia seguinte, encarei o facto com naturalidade. Nada de pânico.

É certo que ninguém está preparado para o resultado positivo no teste de um vírus causador de uma epidemia. Mas, apesar disso, mantive-me tranquilo, com a certeza de que não seria desta que partiria. Os familiares apoiaram-me, demonstrando também tranquilidade e firmeza. Vieram buscar-me a casa, com uma ambulância, e levaram-me para uma clínica de Luanda. Levei comigo o computador portátil, telemóvel, livros e artigos de higiene. Fiquei internado um mês, porque este é o prazo mínimo determinado pelas autoridades sanitárias.

De um modo geral, fui bastante bem tratado. Não senti qualquer tipo de discriminação. Muito pelo contrário. Como se calcula, fiquei sem receber visitas enquanto estive internado.

Após uma semana de internamento, foi feito o primeiro teste na clínica. Depois de obtido o primeiro resultado negativo, tive de aguardar por um segundo teste negativo, passados quatro dias. E depois, fui obrigado a manter-me na clínica até final do período mínimo de internamento para estes casos, que é de 30 dias.

Recebi o resultado negativo com satisfação, mas antes disso sabia que era apenas uma questão de tempo – mais tarde ou mais cedo, o resultado negativo haveria de chegar. Depois disso, foi a ânsia por rever os meus familiares e amigos, bem como o desejo de regresso à comida caseira.

Um dia de internamento com COVID-19

O meu dia normal era o dia de um paciente comum internado numa unidade hospitalar. Não estando em estado grave, recebia duas vezes por dia a visita de médico ou enfermeiro. Iam ver como estava a passar e entregavam a medicação.

Como pertenci ao grupo dos primeiros dez internados, no início havia problemas para os médicos entrarem na sala, porque não havia uniformes em número suficiente naquela unidade hospitalar. Mas a situação depois regularizou-se.

Para além da visita do pessoal médico e para-médico, recebia também diariamente a alimentação, bem como a pessoa encarregue por trocar a roupa de cama.

Foi-me sugerido receber um psicólogo, para conversarmos. Mas, como isso dependia de cada um, dispensei o psicólogo. A questão é que estive sempre bem, com absoluta tranquilidade e sem qualquer recaída psicológica, de modo que os médicos aceitaram a minha opção.

No quarto, não havia rádio nem televisor. Passava os dias a ler e tinha acesso à internet, no computador e no telemóvel. Sempre que me apetecesse, trabalhava. E falava todos os dias com a família e amigos, o que me conferia estabilidade emocional. A única coisa que sentia era ansiedade, pois queria libertar-me daquela rotina e daquele pesadelo que, por mais que temporário, não deixava de o ser.

No que respeita à alimentação, era comida típica de hospital. O pequeno-almoço era servido de manhã, por volta das 8h: chá ou leite, iogurte, pão, queijo e fiambre. Almoçava pouco depois do meio-dia e jantava cedo, entre as 18h e as 19h. Almoço e jantar consistiam num prato de sopa, um prato de carne ou peixe e uma fruta como sobremesa. Era usada loiça descartável, ou seja, após a refeição, a loiça suja era jogada por mim no caixote de lixo.

Algumas sugestões

Há duas sugestões que gostaria de apresentar às autoridades sanitárias.

A primeira tem a ver com um apelo que as autoridades fazem, com “pedido de denúncia” de casos de pessoas que não estejam a respeitar a determinação de quarentena. O que sugiro é que se peça apenas para serem notificadas as autoridades, pois quando se apela à denúncia dá a impressão que estamos em presença de alguém suspeito de alguma coisa. E, assim, as autoridades sanitárias contribuem para estimular e perpetuar a estigmatização.

A segunda sugestão está relacionada com os rótulos que as autoridades atribuem aos pacientes. Por exemplo, para quê mencionar o “caso 26”? Não bastaria dizer que “um dos infectados” contaminou outras pessoas, sem referir o seu número? Dá até a impressão que estamos a lidar com presidiários pois, como se sabe, estes são identificados pelo respectivo número.

Tal como um conhecido jornalista já veio a público dizer que gostaria de “conhecer o caso 26”, muitos cidadãos devem ter a mesma curiosidade. E este foi só o primeiro dos mencionados. Agora, a moda é o “caso 50”.

Penso ser dispensável referir quem contaminou quem, pois assim colocamos em risco a segurança da pessoa e dos seus familiares. Vejamos o meu caso: se eu não tivesse pedido para fazer o teste, teria certamente contaminado outras pessoas e estaria hoje sujeito a este mesmo rótulo...

Observação: O caso é real, mas o nome e os dados de identificação são fictícios.