Lutina Santos e “Competição política”

24 Ago 2020 / 10:36 H.
Patrício Batsikama

A ideia do Poder está ligada a três aspectos. O primeiro é o conceito do Poder em si, quer na visão legalista-política, quer na ideia social da sua acção enquanto programa. O segundo é a teatrologia que legitima o Poder e as relações que ela implica. O terceiro é a dimensão práxica em relação aos padrões programático do Poder. Acho que o autor escolheu comentar o primeiro aspecto, mas com algumas pinceladas do segundo (último capítulo, especificamente) e terceiro conceitos.

Com a sua obra, o autor auxilia o debate em geral sobre os conceitos relacionados ao Poder, Estado e os espaços políticos. Esse debate interessa sobremaneira os nossos estudantes, que frequentam pela primeira vez a Universidade, nos cursos de ciências políticas, filosofia e sociologia, principalmente. Também, faço fé que esse opúsculo venha introduzir o leitor leigo a uma discussão propedêutica de forma a ter uma ideia relativamente prática da competição política. O texto (o livro) deixa claro que “compete-se politicamente para alcançar o Poder”. Isso é bom.

O que mais interessa aqui é o discurso. Permite-me definir o meu conceito de discurso: conjunto de linguagens e metalinguagens que suporta, de forma estrutural e metódica, uma ideia clara e suficientemente organizada, inteligente e aberta á discussão. Não é fácil encontrar o “discurso” nos autores nos dias de hoje. Os clássicos o têm, de princípio. Pesquisadores de renome nem sempre o têm, pois, a pesquisa pressupõe “pesquisar, procurar”. Inúmeros autores que os estudantes consomem nas arenas académicas têm “retórica”, mas não necessariamente o discurso.

É impressionante que Lutina Santos tenha discurso, pelo menos a sua estrutura. Procurei saber como um jovem poderia constituir o “seu” discurso tão cedo. Acho que por ele ser poliglota, facilita muito, por um lado. Por outro, é um autodidata em constante aprendizagem. Para constituir o “seu” discurso é preciso que se tenha uma “lógica” como padrão de percepção capaz de articular diferentes ideias. E ser poliglota ajuda. Mas para constituir o seu discurso, é preciso muita auto-aprendizagem, bastante leitura e, sobretudo, dialogar com demais.

O texto “A Competição Política – Guerra pelo Poder” é destilado pelo discurso dialógico, embora inúmeras vezes assume códigos-padrão em determinados conceitos, tais como “Poder”, “Partido Político”, “Estado”, “Governo”, entre outro. Eu tenho pensado sobre “Despoder”, outros pensadores preferem diferenciar “Organizações políticas” de “Partidos políticos”. Também existem várias discussões sobre Estado que, ora aparece como Não-Estado, ora surge como Anti-Estado ou, às vezes, como Estado sem soberania (Estado falhado).

O conceito-padrão de Governo está hoje em fase de reforma devido as novas discussões sobre as falhas das políticas públicas ligadas com as ideias de República, Nação ou ainda da democracia, que acho devem já estar caducas na Academia.

Mas Lutina Santos faz bem de insistir sobre os códigos-padrão como forma de estimular nos estudantes de assimilar os conceitos-padrões para, no futuro, não ter dificuldades em desconstruir os mesmos conceitos que aprenderam. Acho que ele escreveu este texto para os estudantes, com uma linguagem eupéptica (que facilita a compreensão de quem lê). É isso que mais importa, e importa menos cometer erros: não devemos ter medo de errar na Academia. Até é saudável para o progresso.

Parabenizamos o autor. Agradecemos a preferência de ser nós, simples curioso, em tecer algumas considerações nesta nobre obra da autoria da ilustre Lutina Santos, que é licenciada em ciências políticas e Mestre em Relações Interculturais.

* Historiador