Juventude Bantu e pós-modernidade

Angola /
16 Out 2020 / 12:01 H.
Patrício Batsikama

Nos Bantu, todo ser humano tem três ciclos de vida, que são: (1) 1º ciclo: (a) de 0-12 anos de idade: educação da mãe sobre os valores; (b) de 12-21 anos de idade: educação introspectiva e autocrítica; (c) de 21-33 anos de idade: educação profissional e exploração económica.

Depois vem o 2º ciclo: (a) de 33-40 anos de idade: mestria profissional e produção social; (b) de 40-52 anos de idade: educação as crianças e participação social; (c) de 52-63 anos de idade: participação aos assuntos públicos. Finalmente vem o 3º ciclo: (a) de 63-70 anos de idade: etapa de conselheiros sociais, económicos e políticos; (b) Acima de 70 anos de idade: reformado (kamenimeno: aquele que já não tem dentes para usufruir carne (ou jinguba). Curiosamente, a Política – Poder público – era um assunto das pessoas com essa idade. Mas, nada impede que os do 2º ciclo participassem. A juventude bebe dos kamenimeno.

Não é um caso isolado dos Bantu. O sábio Amadou Hampate Bâ dividiu os três ciclos de vida entre os peuls [Mali, Costa de Marfim, Senegal, Nigéria, Gana, etc] da seguinte maneira: (1) 1º ciclo: os primeiros 21 anos de aprendizagem absoluta; (2) 2º ciclo até 42 anos de contribuir à sua nação; (3) 3º ciclo até 63 anos de idade de actividade pública. Com 63 anos de idade encontra-se “fora do cerco”.

Quer nos Bantu quer nos Peuls, o Poder é uma relação de dominação dos valores nos homens com objectivo de gerir a ordem social. Logo, há uma relação entre duas categorias: (i) valores; (ii) homens. A ordem é punitiva, correcional e compensativa ao mesmo tempo e funciona com todos os integrantes sociais repartidos em três dimensões de acção: (a) executora; (b) fiscalizadora; (c) comunitária.

As categorias trazem – cada um – um triplo conceito. Valores são, simultaneamente: (a) o grau de importância da acção; (b) a hierarquia da razão face a necessidade; (c) a moral que articula a consciência. Quanto ao Homem, ele é: (a) Espírito que pode desaparecer a qualquer momento e dar fim a vida/corpo; (b) Corpo, parte visível das aparências; (c) Vontade que define o verdadeiro indivíduo.

A transição geracional efectivava-se na base dos valores/homem. Isto é, controlar a vontade do jovem através de uma responsabilização cívica (Espírito: crença racional), uma ocupação útil de produção (Corpo: emprego) e um desenvolvimento de personalidade (vontade: as suas liberdades). Tal como alguém realçou a “República das mulheres” para satirizar a gerontocracia, a “República dos Jovens” é uma quimera da democracia. Explora conceito da vontade/liberdade, mas lembra ao Espírito a sua inocência face a existência.

A pós-modernidade quebrou a ordem ao ponto de desvirtuar os valores. As identidades individuais (Erving Goffman) desconfiguraram a identidade cultural (Stuart Hall). A Internet é um exemplo claro. Qualquer um pode acede as informação e desinformação, reverte as coisas e desaprende ao ponto de nada saber sobre si.

A pós-modernidade destruiu a hierarquia, vulgarizou a consciência e desnudou a vontade da juventude. Isto é, tornou frágil as liberdades assentes nos suportes identitários. A pós-modernidade estimulou a vontade juvenil em negar a si para construir um “Eu absoluto” (personalidade) desobediente das suas próprias raízes.

Ora, eivada de consumismo o “Eu absoluto” torna-se frágil de maneira que a não-produção estimula a subordinação face às forças regeneradoras. Por normas, os jovens dispõem as suas forças, sob orientação da velhice, para produzir.

A não-produção da juventude deve preocupar a Velhice. Daí, em todos momentos opera-se – através dos anéis da socialização – a transição geracional onde as mais destacadas vontades juvenis obedientes à Ordem (valores) aprendem com os “mais velhos”, aprendem os segredos da coesão e assimilam as instruções da integridade simbólica.

Beber da nossa cultura pode nos ajudar em articular-se, face as exigências da pós-modernidade, em preservar-nos e evitar toda recolonização possível. Para isso, impera reestabelecer a plataforma de diálogos geracionais, cuja aprendizagem priorizam os valores e a felicidade do homem.