Interpretar os “Acordos de Alvor” Hoje... (parte III)

12 Out 2020 / 11:39 H.
Patrício Batsikama

Tomar a Nação”: o Poder é o objectivo de qualquer formação política que dispõe de ferramentas materiais, imateriais e uma herança própria para concretizá-lo. A luta de Libertação semeou divergências profundas em três aspectos: visão da sociedade; programa político assente nas culturas e forças identitárias do povo; construção das riquezas e participação da sociedade civil (desadornada consoante as ideologias políticas) no exercício político. As divergências programáticas pouco esperançavam uma Angola estável pelo clima de tensões ideológicas assim como a guerra fria.

As duas disposições (salvar a Nação; tomar a Nação) poderiam ser concretizadas através das eleições (artigos nos 40º, 41º, 42º, 43º e 44º). Infelizmente, não existiam condições materiais reais num Governo de Transição não-funcional, nem sequer se verificava uma preparação psicológica na parte do Povo que, uns e outros, olhavam-se como estranhos e acusando-se mutuamente levando acções hostis uns contra os outros.

As mobilizações partidárias não estimulavam o discurso da Nação inclusiva, contrariamente ao acordado.

Nem sequer havia uma “ideia de Nação” estruturada.

Com Portugal pós-25 de Abril não havia, em Angola, algum cabimento de recursos financeiros, humanos nem tão pouco o registo dos eleitores foi feito para garantir a lisura dos resultados. A previsão e elaboração da Constituição foram frustradas pelos conflitos pós-Alvor.

O clima de alvoroços proporcionaria um ambiente de guerra, o que não garantiria – caso houvesse realmente eleições – a aceitação dos resultados eleitorais. Antes de Nakuru, Jonas Savimbi ainda afirmava ao “Financial Mail” que as eleições seriam possíveis.

As suas ideias estavam ainda a ser forjadas.

Sobre uma eventual guerra civil, o líder da UNITA negou categoricamente qualquer possibilidade. Paradoxalmente, o jornal The Star noticiava as 18h00 do mesmo dia que o Dr. Vakulukutu Alves, com tropas sul-africanas e as FALA protagonizavam na fronteira da Santa Clara, durante 15 minutos, um tiroteio.

A CIA estava a par desses acontecimentos. Havia uma ideia geral de implantar a supremacia militar como forma de se impor autoridade, como forma de “fazer face” à FNLA.

Essa incidência é interpretada como forma de reforçar a presença da UNITA na região: força enquanto instrumento do poder. A normalidade foi retomada, de acordo com Matin Schneider, num encontro entre MPLA, FNLA e UNITA em Okavangu no dia 24 de Maio de 1975.

Em relação as eleições, voltamos ao general Silva Cardoso que se mostrou preocupado, visto que 80% dos angolanos era analfabeto. Ele realçou em Maio d 1975 que: “no encontro que se prevê com Savimbi, Neto e Roberto ir-se-á propor que as eleições tenham lugar dois anos depois da independência e que o actual Governo de transição continuará no poder mesmo depois de 11 de Novembro” (Financial Mail do dia 30/05/1975).

Infelizmente, a cimeira de Nakuru não observou esse aspecto, nem terminou sequer como previsto. Dito de outra maneira, os acordos de Nakuru não conseguiram remover a prolixidade das divisões estruturantes, pela pressa circunstancial e não preveniram os conflitos pós-11 de Novembro com maior sabedoria e pragmatismo contrariamente ao pretendido. Porquê? Jonas Savimbi informa-nos que as negociações de Nakuru (Quénia) foram encurtadas visto que Holden Roberto tinha urgência em Kinsasa, por resolver.

Por isso foi apressado o encerramento com os Acordos assinados sem esgotar as discussões. O romancismo político da independência no inadiável dia 11 de Novembro terá encegueirado de maneira significativa os signatários, além de ter ocultado à política angolana os problemas de fundo que estiveram na base das perturbações da sociedade angolana.