“Fui para o desemprego e a casa passou a ser gerida pela minha esposa”

Luanda /
28 Jul 2020 / 12:16 H.
Paulo de Carvalho

Chamo-me Ariel Kandimba, tenho 37 anos de idade e nasci em Luanda, mais propriamente no Cazenga. Os meus pais são ambos naturais das cercanias de Luanda: um é de Catete e o outro, da Funda. Vivo no bairro Prenda, num apartamento de quarto e sala, com a esposa e 4 filhos.

A nossa filha mais velha tem hoje 9 anos, a segunda filha tem 6 anos e o mais novo, 1 ano. Temos também uma filha de criação, que recebemos quando tinha 10 anos e tem hoje 18 anos.

Estudei normalmente até ao ensino médio, tendo concluído o curso médio pedagógico, que dá a possibilidade de ser professor primário.

Comecei a trabalhar em 2007. Até hoje trabalhei em 3 empresas, como relações públicas e como motorista. Primeiro, trabalhei durante um ano numa empresa de prestação de serviços de rent-a-car e segurança. No início de 2008, propuseram-me a transição para uma empresa de venda de materiais de construção – aceitei e trabalhei por lá apenas 6 meses. Veio então a proposta para uma empresa maior, com um salário bastante mais avultado.

Ingressei nesta empresa maior, do ramo da fiscalização de obras, na segunda metade do ano 2008. Trabalhei aí durante 11 anos e meio.

Decidi ingressar na universidade

Depois de estar a trabalhar na terceira empresa, tomei a decisão de prosseguir os estudos. A intenção era trabalhar durante o dia e estudar à noite.

Em 2009, decidi fazer o exame de admissão em duas universidades. Foi no exame de admissão da Universidade Metodista, que conheci aquela que viria a ser a minha esposa. Começámos a namorar mesmo em 2009.

Entretanto, optei por ingressar na Universidade Técnica de Angola (UTANGA), onde comecei a estudar Relações Internacionais. Estava de olho na diplomacia, que é uma área que sempre me atraiu.

Entretanto, a namorada ficou grávida e tivemos que começar a viver juntos, em 2010. Isto ocasionou uma reviravolta na minha vida, pois não tinha como trabalhar, estudar e sustentar a esposa. Tive de optar por largar os estudos, tendo deixado uma série de dívidas. Ao ponto de nem sequer ter sabido das notas do 1º ano, porque foram canceladas por falta de pagamento da propina.

No ano seguinte, recebi a primeira filha. Com mais esta responsabilidade, os estudos ficaram adiados por mais tempo. Retomei os estudos somente em 2015, já no Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola (IMETRO). Optei por seguir a área da formação média, por se tratar de uma opção que eu já conhecia: a Pedagogia. E terá sido uma boa decisão, pois permitia uma melhor conciliação entre o trabalho e o estudo.

Tendo um bom salário, procurava cumprir as minhas tarefas no local de trabalho. Largava às 18 horas e as aulas começavam exactamente às 18 horas. De início tinha problemas com os professores, porque me atrasava para as primeiras aulas. Mas depois, os professores já sabiam desse meu problema e os colegas também iam ajudando.

Estando a trabalhar como motorista, dependia dos chefes para largar o serviço e correr para a escola. Havia dias em que a chefia era condescendente e lá chegava às aulas a horas.

Em 2014, tinha feito um crédito bancário de 3 anos, para compra de uma viatura. É esta viatura que tem apoiado a minha família ao longo destes anos. E foi graças a ela, que consegui deslocar-me diariamente à escola.

Para além de esposa e 4 filhos, tenho ainda os meus pais, a quem presto apoio. O meu pai tem problemas na coluna e precisa de uma intervenção cirúrgica num local bastante sensível. Já a minha mãe tem problemas de reumatismo.

Quando o desemprego bate à porta

Foi em Janeiro deste ano, estando eu de férias, que recebi o aviso de despedimento. A empresa decidiu reduzir o pessoal, devido à crise económica, e eu (como motorista) fui um dos atingidos.

Recebi, por telefone, o aviso de despedimento previsto para final de Março.

Foi-me paga a devida indemnização, com a qual optámos pela compra de um terreno no Zango e pelo aluguer de um pequeno espaço no nosso bairro, para venda de cerveja.

Este negócio permite um rendimento baixo, bastante inferior ao do salário auferido na última empresa onde trabalhei. Mas é uma grande ajuda, para complemento das despesas diárias do lar.

Se anteriormente era eu quem me ocupava da alimentação da família, hoje a situação inverteu-se: é a esposa que se ocupa da alimentação e eu apenas contribuo com um pequeno complemento.

Quanto à ideia de construção de casa no Zango, tem de ficar adiada. Sem emprego, não tenho como o fazer.

Apresentei o currículo em vários colégios e fui chamado para entrevistas, em dois deles. Cheguei mesmo a fazer testes. Ficaram de dizer alguma coisa, mas até hoje não tive qualquer notícia.

Acredito que a pandemia do covid seja a responsável por mais este adiamento do meu projecto profissional. Como se sabe, hoje os colégios não estão a admitir pessoal; pelo contrário, estão a desvincular os professores. E eu, sem experiência como professor, estou em situação mais delicada ainda.

Sou um dos muitos desempregados da actual crise económica. A mim, o desemprego bateu à porta inesperadamente, ainda antes da actual crise pandémica. Quando, em Março, foi decretado o estado de emergência, já eu estava no desemprego.

Estou à procura de emprego. Estou disposto a trabalhar como relações públicas, na área administrativa ou na área comercial. Não estou em posição de escolher. Aceito aquilo que me for proposto. Quero é trabalhar, para acabar com este sofrimento e para a minha esposa poder manter os projectos familiares que tínhamos antes. Para mim, a família é o mais importante que tenho na vida. Por eles, vou continuar a batalhar, na procura por um futuro melhor.

Observação: O caso é real, mas o nome e alguns dos dados de identificação são fictícios..