Exemplos e simbolismo

Luanda /
15 Jun 2020 / 13:02 H.
Ricardo David Lopes

O porta-voz do Ministério do Interior pediu nesta semana desculpas públicas pelo comportamento de agentes da Polícia Nacional ao longo deste período de pandemia, com episódios vários de recurso excessivo ao uso da força contra cidadãos. Waldemar José deu assim o rosto pela corporação, na sequência de novos relatos de violência por parte de agentes, incluindo contra menores, com a morte como resultado.

Tem razão o porta-voz quando diz que os agentes da Polícia Nacional têm como missão proteger os cidadãos e que existem “para garantir a legalidade, manter a tranquilidade e a ordem pública, assim como todos os princípios que norteiam o Estado democrático e de direito”.

E tem também razão quando pede que não se confunda a árvore com a floresta, e não se tome por ‘maus’ 120 mil efectivos pelo facto de uns quantos não merecerem envergar a farda, usando e abusando de uma autoridade que apenas lhes foi delegada.

Mas as desculpas, como é costume dizer-se, evitam-se, e a notícia de que 10 agentes estão presos e irão ser julgados por terem causado a morte a cidadãos desde o início do estado de emergência não vai atenuar o desgosto nem a perda da família do jovem de 15 anos morto há dias por um agente em Luanda, ou da zungueira alvo de um alegado disparo acidental na Huíla.

A violência policial exige o reconhecimento do erro e a admissão da culpa pela hierarquia – e, neste aspecto, o Ministério do Interior fez o que devia. Mas o que importa é que a mão da Justiça seja particularmente pesada para com os culpados, porque não poderia ser de outra forma, e que o Estado assuma as consequências dos actos praticados por agentes seus. Indemnizar as famílias destas e de outras vítimas é o mínimo que se espera. Não é o dinheiro que importa, mas o simbolismo tem um significado. E o Estado tem que ser uma pessoa de bem.

A notícia de que o Candando se prepara para fechar metade das lojas e lançar no desemprego 1.000 pessoas caiu que nem uma ‘bomba’ nos media nesta semana, uma péssima notícia desde logo para quem vai perder o seu trabalho e as suas famílias.

A empresária Isabel dos Santos, accionista da empresa que detém a cadeia de oito lojas e que emprega cerca de 2.000 pessoas, confirmou a notícia em primeira mão ao Valor Económico, e explicou que a ‘culpa’ é do arresto das suas contas em Luanda e Lisboa, na sequência do processo que o Estado lhe moveu por, alegadamente, a gestora e o marido deverem mais de 1.000 milhões USD aos cofres públicos.

Presume-se, portanto, que, não fosse o arresto, o Candando não fecharia lojas nem despediria pessoas, passaria imune à crise que assola o País – e que possivelmente ainda está no começo. É difícil de acreditar que tal seja verdade, mas é agradável imaginar que sim.

A crise que Angola enfrenta é profunda, e o País tem muito poucos instrumentos – leia-se, dinheiro – para lhe fazer frente. O pouco que tem, deve usar com racional e em projectos que valha a pena salvar. O Candando, provavelmente, é um deles, pelo emprego que criou, pelo apoio que dá à produção nacional e pela inovação que trouxe ao mercado de retalho alimentar, obrigando a concorrência a melhorar-se. Vamos esperar que a ‘guerrilha’ mediática com o Poder angolano, alimentada em boa parte pela filha mais velha do ex-Presidente da República, não crie má vontade e prejudique um eventual apoio do Estado ao projecto, que não merece definhar.

PS – a crise no Candando viria a ser reiterada por um surreal comunicado da administração da retalhista reagindo à “circulação de notícias nos meios de comunicação” dando conta do fecho de lojas e despedimentos. O documento, eivado de erros de pontuação, não refere números, mas insiste na teoria do arresto e explica que a empresa precisa de ajuda – e que já falou com o Ministério do Comércio. É mais um tiro no pé numa estratégia de comunicação que há muito está fora de controlo.

A Nova Zelândia venceu o coronavírus, na sequência de uma estratégia apertada de um governo liderado por uma primeira-ministra que, em Abril, anunciou um corte temporário de 20%, por seis meses, no seu próprio salário e dos ministros. Contas feitas, estão em causa 1,6 milhões USD canalizados para o combate à pandemia, um valor baixo se pensarmos em termos macro, mas valioso em termos simbólicos e de exemplo.

Por cá, não houve ainda notícia deste tipo de medidas ainda que se conheçam outras de contenção orçamental afectando os próprios membros do Governo.

É certo que o salário da primeira-ministra da Nova Zelândia supera os 30 mil USD e que o dos ministros ultrapassa os 20 mil USD, números que fariam sorrir de alegria qualquer titular de um cargo governativo em Angola (e na maior parte do mundo...). Por cá, ganha-se menos no Governo, mas mesmo assim imensamente mais do que quase toda a população. Não seria bem recebida pelos cidadãos angolanos uma medida alinhada com a ordenada por Jacinda Ardern? Fica à consideração de quem de direito.