Em busca da cultura de paz

21 Abr 2021 / 14:34 H.
Patrício Batsikama

Estamos no mês de Abril em que, normalmente, celebramos a paz no nosso belo País, Angola. Alguns julgam haver uma algazarra política sobre «a paz duradoura»; temos niilistas que ironizam a «paz com fome». Há pessimistas que vociferam a «não-paz» tanto quanto os cépticos que argumentam algo como «pseudo-paz».

A paz não pode ser a ausência de conflito (no espaço social), nem sequer pressupõe tranquilidade (no espaço íntimo). Talvez seja o alvo por alcançar, pois ela é benfazeja em vários aspectos. Se, no plano social, a paz se traduz por «ausência da violência» comete-se sempre o erro de coonestar a «quietude espiritual» que é do cômputo subjectivo e simboliza-la com a tonalidade neutra (cor branca). Duvido que a paz seja neutra.

Parece-me que a paz seja uma necessidade primitiva do homo demens cuja materialização pela razão (homo sapiens, sapiens) objectiva-se pelo equilíbrio que dialoga as diferenças com base em valores convergentes. Isto, visto do ponto de vista de homo demens, a paz, parece-me, fundamenta-se em três pressupostos: (i) serenidade mental; (ii) juízo imparcial; (iii) equilíbrio comportamental. Quer dizer, equanimidade.

Do ponto de vista de homo sapiens sapiens há, pelo menos, três aspectos que se complementam sem no entanto se confundir: (i) relação insofismável que desaterra as assimetrias para garantir a felicidade colectiva; (ii) regulação de egoísmos e ansiedades sociais na base de princípios para instituir a ordem: justiça e bem-estar; (iii) consciência da sobranceria na constituição simbólica do equilíbrio das forças integrantes.

Quero acreditar que o conceito da paz gira à volta da justiça (direitos iguais, equidade), bem-estar (totalidade, felicidade simbólica) e ordem (obrigações face aos valores colectivos). Logo, pergunto-me, de onde vem a ideia de sossego, tranquilidade que geralmente associamos à paz? Ou será que somos herdeiros dos filósofos das Luzes que exploraram o Cristianismo secularizado?

Servindo-se das línguas bantu como modelo, tenho o interesse de realçar dois termos: (i) ombembwa; (ii) luvuvamu. São geralmente traduzidos por paz, mas quer um quer outro alicerçam-se no «entendimento». Pressupõe-se três suposições: (i) conflito que levam as partes em se entender; (ii) assimetrias ou desequilíbrio das forças que levam as partes em se compreender os motivos sem perder a ordem; (iii) contenda ou concorrência entre partes com capitais simbólicos diferentes sem infligia. Esse é o conceito da paz na cosmogonia bantu, uma constante observação do entendimento entre as partes.

Quanto ao sossego implica inércia, e concomitantemente o «estado de quietude». A tranquilidade pressupõe «ausência de agitação» e, simultaneamente, o «sangue-frio face aos alvoroços». Talvez a morte seja o real sossego, mas a tranquilidade requer sensatez de espírito para enfrentar as desordens, tormentas e bulícios.

Com esses dois conceitos (sossego e tranquilidade), podemos claramente perceber que a paz seja um desejo necessário primitivo do «homem afectivo». Todos nós somos homo demens, porque temos calor de amor, visto que nascemos do conflito primitivo (sexos opostos) que se chama amor. Ao mesmo tempo, somos homens racionais e isso nos leva a solucionar os problemas que nos afligem através de reflexões, meditações metódicas.

Como podemos notar, a tranquilidade é antes um domínio individual. Isto é, cada indivíduo deve, antes, possuir capitais simbólicos que lhe garantam a sua serenidade: ter formação, conhecimento, habilidade profissional, estabilidade emocional, etc. Mas isso não é tudo. Racionalmente, deverá perceber que a sua inserção social depende da aplicação deste capital simbólico com coragem, abnegação e perseverança com espírito de vencer as dificuldades.

Como podemos perceber, na falta de capital simbólico, é difícil que o indivíduo consiga encontrar a sua tranquilidade uma vez que há aspectos a impõem: (i) possuir capitais individuais; (ii) integrar a contenda com coragem e perseverança. Quem quer paz, deve possuir e concorrer. Daí a minha tese é: «quem possuir sem concorrer não terá paz; que concorrer sem possuir, não terá paz». A paz não é dos fracos, mas sim dos valorosos.

Com essa exigência vamos falar da cultura de paz

«Possuir o capital simbólico». Há três dimensões: (i) estatal; (ii) societal; (iii) individual. O Estado precisa de olhar na qualidade do seu cidadão como reflexo da sua própria competência. O cidadão inculto, desproporcionalmente improdutivo, consumidor compulsivo e arrogante na sua ignorância reflecte um Estado subdesenvolvido. Dificilmente esse tipo de Estado poderá sustentar a paz. Um indivíduo sem capital simbólico, cuja profissão assenta na bravata ou fanfarrice depauperar a sociedade e é uma parasita perigosa.

A cultura de paz é, em tese, uma ferramenta institucional para estabelecer a consciência da paz, enquanto uma plataforma construída pela diferença para garantir a democracia social como base do Estado-nação (na sua acepção de kultur-nation). A memória colectiva torna-se o bem cuja preservação é obrigação valorativa de todos.

A cultura da paz alicerça-se num programa de Estado em disponibilizar oportunidades e, simultaneamente, na consciência individual em armar-se de maneira suficiente na contenda social em busca da sua felicidade (Thomas Jefferson). Ele certifica a sanidade da democracia social enquanto dinâmica do próprio desenvolvimento social geralmente associado a possessão de capitais simbólicos notáveis.

Já passaram dezanove (19) anos que Angola tenha abraçado a paz militar, com o fim da guerra. Não significa que mentalmente o angolano tenha a paz. Isso ainda passa por várias etapas: (i) possuir capitais; (ii) competir nas diferenças; (iii) construir espaço comum; (iv) democracia social. Em rigor, Angola ainda está a alicerçar a primeira etapa, embora tenha intermitentemente saltado etapas. É realmente um perigo «saltar as etapas».

A pergunta agora é: em que etapa estamos? Espero que cada um responda com a sua própria consciência.