“Um jovem paralítico, que se arrasta pelo chão, tem dificuldade em estudar e arranjar emprego”

Luanda /
23 Fev 2021 / 12:52 H.
Paulo de Carvalho

O meu nome é Adão Ambrósio, tenho 17 anos e vivo no bairro da Boavista, aqui em Luanda.

O meu pai era camponês, nascido em Ndalatando; e a minha mãe, vendedeira, natural do bairro da Carreira de Tiro, em Malanje. O meu pai faleceu quando eu tinha 2 anos e a minha mãe faleceu dez anos depois.

Nasci em Ndalatando, onde vivi até aos 12 anos. Com a morte da minha mãe, eu e os meus irmãos viemos para Luanda, para casa de uma tia (irmã da mãe).

Sou o mais velho, de um total de 5 irmãos. Quando viemos para Luanda, as minhas irmãs tinham 11 e 9 anos, enquanto os meus irmãos tinham 7 e 6 anos. Felizmente, são todos eles saudáveis.

Nenhum dos meus irmãos está a estudar, porque não têm bilhete de identidade. Eu tenho sorte, porque já tive bilhete de identidade, mas caducou.

Fiquei paralítico aos 3 anos

Em Ndalatando, era uma criança saudável, até que aos 3 anos apanhei poliomielite. Não me recordo dos detalhes, por ser muito pequeno na altura. Mas foi quando fiquei com paralisia nas duas pernas, de modo que passei a andar arrastando-me pelo chão, com o auxílio dos braços e mãos.

Quando apanhei a paralisia infantil, já era órfão de pai há um ano. Vivia então com a minha mãe.

Ainda me lembro da minha infância, em Ndalatando. Lembro-me sobretudo das brincadeiras no areal, com os meus amigos.

Comecei a estudar com 8 anos, na escola do Tio Silva, em Ndalatando. Estudei só até à 2ª classe, porque a minha mãe não tinha condições financeiras para eu prosseguir os estudos.

Já em Luanda, prossegui os estudos até à 4ª classe, no bairro da Boavista. Não consegui ir além da 4ª classe, porque para estudar é preciso ter dinheiro. E eu tenho que me ocupar dos meus irmãos mais novos.

Peço esmola para sobreviver

Não trabalho, devido à minha condição física. Para sobreviver, peço esmola à saída de um dos supermercados da baixa de Luanda.

É com o dinheiro da esmola que me alimento e que também garanto a alimentação dos meus irmãos. Quando adoeço, os meus irmãos passam mal – ficamos a depender da minha tia.

Para me deslocar para o supermercado, todos os dias, tenho amigos que me transportam nas costas. Depois, tenho que os apoiar com algum dinheiro.

Um jovem paralítico, que se arrasta pelo chão, como eu, é chamado caranguejo e tem dificuldade em estudar e arranjar emprego. Se não tivermos quem nos ajude, passamos mal para andar grandes distâncias.

A minha tia vende mabanga, no Porto de Luanda. O meu tio (o esposo) viajou e não sabemos do paradeiro dele. Têm dois filhos, que vivem também lá em casa.

As condições da casa não são boas, porque todos (os 7 irmãos e primos) temos que dormir num quarto. Mas temos a sorte de ter o acolhimento da nossa tia, que é uma mãe para nós.

Já usei drogas. Já fumei liamba, mas agora fumo só de vez em quando. Também cheiro gasolina. E gosto de beber cerveja, para me aquecer a cabeça. É isto que me ajuda a encarar a vida que sou obrigado a levar.

Um dia comum

O dia de ontem foi um dia normal para mim. Acordei às 6 horas e preparei-me. Saí de casa pouco antes das 7 horas, com dois amigos. Acordei com saúde, portanto, foi possível sair para trabalhar.

Foi um bom dia, porque os meus amigos chegaram cedo, para me transportarem nas costas. Às vezes é só um, outras vezes são dois ou três, para se revezarem.

Quando nenhum dos amigos pode, por alguma razão, tenho de me arrastar até ao supermercado da Baixa. Mas ontem fui com o João e o Toninho.

Às 8 horas, deixaram-me na porta do supermercado. E comecei a pedir esmola às pessoas que iam fazer compras. Normalmente, as pessoas dão dinheiro, mas há quem prefira dar alimentos.

Se tenho sorte, matabicho às 10 horas. Ontem matabichei. Comi uns bolinhos e bebi gasosa, que me deram. Assim aguento melhor o dia.

Quando consigo 2 mil kwanzas, já considero um bom dia de trabalho. Ontem até foi um dia muito bom: consegui quase 3 mil kwanzas.

Fui para casa antes das 14 horas, com um dos meus amigos. Já tinha deixado dinheiro para comprarem arroz e feijão. São as minhas irmãs que cozinham. O nosso almoço foi arroz com feijão.

O dinheiro que consegui ontem, levei para casa, para cozinharmos. Fizemos um bom jantar: comemos funge de frango, de bombó, quando eram 20 horas. Não faço as compras no supermarcado, porque fica caro. Tendo dinheiro, fazemos as compras num mercado perto de casa. Só se os clientes do supermercado me dão comida, usamos a comida do supermercado.

Habitualmente, fazemos apenas uma refeição ao fim do dia, dependendo daquilo que eu recebo dos clientes do supermercado. Mas quando saio, de manhã, deixo já o dinheiro para o pão com chá, para o matabicho dos meus irmãos.

Como ontem foi um bom dia, fizemos duas refeições – almoço e jantar.

Depois do jantar, fiquei a conversar e a fumar com os meus amigos. É a nossa forma de distracção. Fui para a cama quando eram 22 horas.

Observação: O caso é real, mas o nome e alguns dos dados de identificação são fictícios.