“Sou vendedor desde os 10 anos”

Antes recebia apoio da minha mãe, mas com o piorar da crise, deixei de receber apoio dela.

Luanda /
25 Nov 2021 / 16:27 H.
Paulo de Carvalho

O meu nome é Rafael Kanganjo, tenho 14 anos e nasci aqui no Kuito. Sou vendedor desde os meus 10 anos.

O meu pai nasceu no Andulo e é deficiente de guerra. Anda com duas muletas. Fazia sandálias, mas deixou o negócio por falta de recursos. Segundo sei, está hoje desempregado.

Quanto à minha mãe, é do Chinguar. Vende produtos alimentares, com destaque para o tomate e a fuba de milho.

Vivo no bairro Santo António, na cidade do Kuito, com a minha mãe e quatro irmãos. Vivemos numa casa de adobe, com sala, 2 quartos e cozinha. A casa de banho, de chapa, está fora. A casa tem chão bruto e tecto de zinco. Não temos luz eléctrica nem água. Compramos água todos os dias.

O meu pai vive no Uíge. Acho que tem outra mulher. Segundo informação que tive, tem mais 3 filhos.

Para além dos quatro irmãos que vivem em casa, temos um irmão mais velho, que trabalha para um taxista, em Luanda. Nunca mais lhe vimos, desde que foi para Luanda. Não temos o número dele, portanto, ninguém sabe dele. Também nunca nos mandou nada.

Estudos e religião

Comecei a estudar com 5 anos. Estudei até à 7ª classe, aqui no Kuito. Em 2019, deixei de estudar por falta de condições financeiras. Não tinha mesmo como continuar, pois os mais novos precisam de apoio.

Estudar exige dispor de recursos, que é coisa que não tenho. Antes recebia apoio da minha mãe, mas com o piorar da crise, deixei de receber apoio dela. Foi o meu negócio que passou a sustentar os estudos. Mas, em 2019, caiu tudo. Agora, trabalho só para sobreviver e apoiar os meus irmãos.

No que respeita à religião, somos uma família católica. Vou à missa todos os domingos. Mas vou também noutros três dias da semana (segunda, quarta e quinta-feira), para os ensaios do grupo coral.

Pergunta se tenho namorada. Não, ainda não tenho. Ainda é cedo para pensar em namorar.

Comecei a trabalhar com 10 anos

Tinha 10 anos, quando decidi começar a trabalhar, para poder continuar a estudar. Só a mãe e eu é que vendemos. Sou o mais velho em casa, de modo que tenho que garantir o sustento dos mais novos.

Comecei a vender brincos e cremes, depois outra bijouteria – relógios, fios, anéis e pulseiras. Também furo as orelhas dos clientes.

De início, vendia em casa. Depois, comecei a vender na praça do Chifindo. Em casa, vinham os vizinhos e outros clientes habituais. Mudei para a praça, à procura de novos clientes.

Mas o negócio não é meu – é de alguém, que me contratou para vender. Ele contrata também outros três jovens; nos conhecemos, mas não trabalhamos juntos; cada um trabalha por si. O senhor é nosso vizinho, conhece a mãe.

Os jovens que trabalhamos para ele, nos ajudamos: se aparece um cliente que quer alguma coisa que um não tem, encaminha no outro. Mas nem todos vendemos as mesmas coisas. Tem jovem que vende pastéis e gelados.

O patrão me dá o produto na segunda-feira de manhã e apresento o resultado da venda no espaço de uma semana. Se vendo tudo ou não, no fim-de-semana tenho de fazer contas com ele.

É o patrão que estabelece o preço de venda dos produtos. No valor que ele estipula, eu acrescento sempre 5%, que é o meu lucro. Mas quando consigo alguma coisa mais, é para mim.

No espaço de uma semana, posso fazer 10 mil kwanzas. Esse dinheiro entrego à mãe, para nos sustentar. Os meus irmãos mais novos dependem de mim. Eu, como mais velho, tenho que me ocupar deles.

Nunca tive problemas com o patrão. Felizmente, ele diz que está contente com o meu serviço.

O meu dia de ontem

Ontem foi um dia comum na minha vida. Acordei às 5 horas e preparei-me. Antes de sair de casa, matabicho sempre. Ontem, comi rabanetes fervidos, com sumo de limão.

Saí de casa às 6 horas, com destino ao local de trabalho. Vou de kaleluia (moto de três rodas) e demoro meia hora a chegar à praça do Chifindo.

Trabalhei toda a manhã, sem interrupção. Não vendi muita coisa, mas consegui dinheiro para o almoço. Quando era meio-dia, almocei na barraca. Comi peixe frito, com funge de milho e feijão. Ontem paguei 500 kwanzas pelo almoço, mas há dias em que tenho de me limitar a gastar 300 ou mesmo 200 kwanzas.

Fiquei a trabalhar até às 17 horas. Ontem fui para casa de táxi, porque não havia kaleluia. No táxi, pago 350 kwanzas; já no kaleluia, pago 100 kwanzas.

Cheguei a casa, tomei banho e fiquei a conversar com os irmãos, à espera do jantar. Ontem jantámos peixe seco com pirão e couve.

Depois do jantar, pouco depois das 20 horas, fomos dormir.

Observação: O caso é real, mas (por ser menor) o nome e os dados de identificação do entrevistado são fictícios. Publicamos uma imagem de uma casa do bairro do entrevistado (bairro Sto. António, no Kuito).

* Sociólogo

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