Heranças sociais e rupturas políticas (II)

A ”angolanidade aposteriorística” será o encontro de todas as angolanidades na sua múltipla temporalidade, tal como se verifica na actualidade. A sua estrutura constrói-se – no primeiro momento – na concorrência dos “Eu”:

13 Set 2019 / 11:08 H.
Patrício Batsikama

1) ‘Eu’: economicamente assumido pelo “Eu/apriorístico”; territorialmente o “Eu/rizomático”, “Eu/angolanitude” e “Eu/apriorístico” estão em contínuo duelo.918 Esse duelo parece dinamizar e integrar as diferentes angolanidades;

2) ‘Outro’: economicamente, temos “Eu/rizomático” e “Eu/angolanitude”; na perspectiva do território, parece parcialmente ser “Eu/apriorístico”/lusodescendente e afro-angolano.

3)‘Não-Eu’: passa a ser “Eu/rizomático” rural, “Eu/angolanitude” rural e “Eu/apriorístico” rural e periférico.

Como podemos notar, o cruzamento de cada agente nessas diferentes angolanidades não parece estabelecer seu espaço comum onde, confortavelmente, as suas estruturações possam servir em teorias existentes (Nadel, 1962; Giddens, 1984; 1994; Malinowski, 1944):

(1) Pseudo-intercâmbio dos ‘Eu’: a politização desse discurso faz com que a estruturação nos seja inviável; apesar do elemento “finanças” estar a promover o “Eu” apriorístico, a sua hegemonia é ainda instável perante o “Eu” rizomático e “Eu” da angolanitude920, por outras razões;

(2)Incompatibilidade de ‘Outro’: as funções dos “a priori ontológicos” confundem-se entre “Outro” e “Não Eu”, por um lado. Por outro, as realidades definidoras das dinâmicas relacionais são incompatíveis, e o seu percurso histórico é intermitentemente conflitual.

(3) Distanciamento das partes em ‘Não-Eu’: a dialéctica entre os “a priori ontológicos” contribui mais para afastamento um de outro, pelas suas naturezas estruturais conflituosas; o diálogo é uma pausa musical921, quase nulo nos momentos/espaços que envolvem centros de “habitus definidor” de “Não-Eu” comum. Queremos com isso dizer que as tendências locais da cultura/angolanidade ainda vigoram em detrimento do espectro global: o angolano ainda é local (ver os dados estatísticas anteriores), e é apenas por causa da desigualdade perante todos suportes simbólicos que os identificam como nação angolana que se quer criar (Milano, 2005).

Contudo, a ideia que essa estruturação leva é que, o ‘centro’ providencia a hegemonia económica, cultural e social. As relações entre os agentes proporcionam outros habitus (Bourdieu) que, fundamentalmente, determinam um novo jogo que vai se compondo nas bases históricas e da ocupação dos espaços (Nadel, 1962). Tudo indica que essa disposição partiria de um jogo das práticas pós-coloniais (Coquery-Vidrocitch, 1985), e ainda não fundamentalmente a partir de uma estrutura prescritiva/prévia (Auge; Colleyn, 2010:104). As outras angolanidades já apresentam uma certa estrutura que explicaria, pelo menos teoricamente, o comportamento psicossocial dos seus constituintes. Já com angolanidade aposterioristica, interessa-nos compreender os “a priori ontológicos” (“Eu”, “Não-Eu” e “Outro”) nas suas oposições representativas e práticas (Geertz, 1988, 34)924. Eles promovem ou/e são promovidos por jogos tidos como lutas políticas (Reis, 2003:134; Bourdieu, 1989: 17; Bourdieu, 1991: 117) na base de vários agentes culturais que dinamizam seus traços identitários (Khan, 1996: 37).