“Foi com 14 anos que comecei a roubar”

O máximo que aconteceu foi nos darem corrida. Só uma vez tivemos que deixar a botija; de resto, sempre saímos a lucrar.

Angola /
18 Abr 2022 / 09:11 H.
Paulo de Carvalho

Sou o Tomé Nguxi, mais conhecido por Lulu. Tenho 23 anos. Nasci numa aldeia do Piri, chamada Kalumanga (na província do Bengo).

O meu pai é de Quibaxe (Dembos) e a minha mãe, da comuna de Pungo a Ndongo, em Malanje. O pai e a mãe eram camponeses, mas o pai morreu quando eu tinha 4 anos. Hoje, a mãe vende bebida caseira. Somos 7 irmãos e eu sou o quinto.

Vim para Luanda ainda criança, com a minha mãe, em busca de melhores condições de vida. Viemos todos e ficámos alojados no bairro dos Ossos, na Petrangol, onde vivia uma tia. Foi aí que eu cresci e é aí que vivo, mesmo em casa da minha mãe.

Vivemos numa casa de blocos, com 2 quartos e uma sala. O chão está cimentado e o tecto era de chapa de zinco, mas mandei colocar lusalite. A mãe cozinha no quintal e a casa de banho serve 2 agregados familiares.

Estudos, religião e namoro

Já aqui em Luanda, comecei a estudar com 9 anos e estudei até à 6ª classe. Decidi parar de estudar com 17 anos.

A minha mãe frequenta uma igreja protestante, que prefiro não revelar o nome. Todos em casa somos obrigados a ir à igreja, mas eu deixei de ir quando tinha 16 anos. Deixei de ir por opção própria, apesar de a mãe se sentir mal com isso. Mas não consigo mesmo frequentar uma igreja, a ver pessoas se comportarem mal todos os dias, mas quando estão na igreja parecem santinhos.

Comecei a namorar quando comecei a ver dinheiro, quando tinha 14 anos. Já tive várias namoradas. Hoje tenho 3 namoradas, mas tenho a principal, que é aquela que eu amo mesmo. Nos entendemos muito bem, desde manhã até de noite.

Comecei a roubar botijas de gás aos 14 anos

Foi com 14 anos que comecei a roubar, mesmo na Petrangol – mas longe de casa, onde não me conhecem. Comecei num grupo de 3 amigos, a roubar botijas de gás. Trabalhávamos sempre sintonizados: um controlava a área e os outros dois partiam para o assalto.

Se me pergunta porquê que decidi começar a roubar, digo que foi devido à situação difícil que atravessávamos em casa. Nem sempre tínhamos comida em casa e também tinha dificuldade em pagar os estudos. A mãe sempre batalhou dia e noite, mas passávamos mal. Depois, a mãe arranjou um marido que bebia e nos batia sempre. E era a mãe que sustentava os vícios dele, ao ponto de não sobrar dinheiro para comermos ou para pagar a escola.

Os meus amigos tinham 14 e 15 anos. Decidimos começar o nosso trabalho com botijas de gás, porque um dos meus amigos tinha um canal para as despachar. Mas depois lá fomos roubando outras coisas que apareciam nos quintais.

Ainda estudei mais dois anos completos, até concluir a 6ª classe. Reprovei na sexta, mas no ano seguinte aprovei. Os três deixámos de estudar no mesmo ano.

O dinheiro que conseguíamos, era uma parte para a comida, outra parte para pagar a escola. Sempre ajudei os meus irmãos mais novos também. E, quando comecei a namorar, também tinha outras despesas.

O máximo que aconteceu foi nos darem corrida. Só uma vez tivemos que deixar a botija; de resto, sempre saímos a lucrar.

Agora roubamos telemóveis

Foi quando deixámos de estudar que decidimos passar a roubar telemóveis. Os locais escolhidos são paragens de táxi. Enquadrámos mais um amigo, de modo que formamos dois grupos de dois. Às vezes trabalhamos juntos os quatro, outras vezes separamo-nos para roubarmos também dentro dos táxis. Vamos alternando: ora dentro do táxi, ora numa paragem movimentada.

A nossa especialidade são mesmo telemóveis. Mas é claro que, se há dinheiro junto, também fica connosco; não devolvemos. Temos um canal onde entregamos os telemóveis, mas isso não posso revelar. Nos Congolenses? (Risos) Pode ser que seja um dos locais, mas é um bom canal, que possui possui ramificações. Temos alguns bosses que comandam esse canal, de modo que o esquema está seguro.

Num dia, só eu posso roubar 5 a 10 telemóveis. É o normal, num dia de trabalho. Mas há dias em que temos sorte e conseguimos mais.

Temos amigos motoristas e lotadores, mas nem sempre actuamos com eles. Claro que, quando actuamos em combina com o motorista, depois dividimos o lucro. Mas nem sempre isso ocorre.

Já tivemos vários incidentes. Por exemplo, uma vez tirei o telemóvel de uma moça que devia ter uns 23 ou 24 anos, muito bonita por sinal. Mas eu não queria ser o namorado ou o marido dela, tão rabugenta e resoluta que ela é. Dentro do táxi, deu conta que estava sem o telemóvel. Olhou para mim e disse: “Moço, me devolve o telemóvel. Me custou bué. O kota que me deu esse telemóvel é meu damo mesmo, mas não vai me dar outro.” E pôs a mão nos meus bolsos, até encontrar o telemóvel dela. Sempre de forma agressiva. Encontrou mais dois, mas devolveu. Eu fiquei só a olhar para ela, sem acreditar no que estava a ver. Lhe deixei ir em paz. O meu amigo passou dias a rir de mim, por causa desse incidente.

Mas o pior aconteceu, quando demos conta que roubámos um oficial da polícia. Junto ao telemóvel estava o passe dele. Xé, não deu conta. Está bem que nós somos mesmo profissionais, mas roubar um polícia não é coisa que fazemos todos os dias.

A covid prejudicou o nosso trabalho, mas temos conseguido nos adaptar. E andar com máscara só ajuda, pois dificulta a nossa identificação.

Claro que andamos armados. Já tive que ameaçar com arma, umas três ou quatro vezes, mas nunca disparei contra ninguém. Se um dia tiver que disparar, claro que o farei, mas não para matar. Sou ladrão, não sou assassino.

Posso dizer que tenho bons rendimentos. Para ser franco, nunca contabilizei. Sei que dá para pagar as minhas despesas, dar dinheiro à mãe e ajudar os meus irmãos. Também dá para gastar com a minha namorada e as outras duas damas. Não sou muito de andar em festas, mas de vez em quando lá vamos nos divertir. Raramente consumo álcool, só mesmo quando vou a uma festa; mas bebo muito pouco.

Em casa, nunca ninguém perguntou de onde vem o dinheiro que entrego. Mas eu acho que a mãe desconfia. Não posso fazer nada, foi a profissão que escolhi. É uma profissão de risco, mas é melhor assim do que continuarmos a passar mal. Pelo menos, os meus dois irmãos mais novos estão a estudar bem, na faculdade. Sou eu que pago os estudos deles. Um vai ser engenheiro e a irmã, economista.

Observação: O caso é real, mas o nome e alguns dos dados de identificação são fictícios.

* Sociólogo

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