“Estivador é uma profissão de muito sacrifício e dispêndio de energia”

Luanda /
07 Set 2020 / 15:50 H.
Paulo de Carvalho

Sou o Pedro Nkisi, tenho 23 anos de idade e sou natural do subúrbio de Caxito. O meu pai é pescador, natural de Nambuangongo. Já a minha mãe nasceu no Kumi, uma aldeia nos arredores de Caxito. A mãe trabalha na lavra, mesmo em Caxito.

Tenho esposa e dois filhos, sendo uma filha biológica e um enteado.

Mantenho contactos esporádicos com os meus pais. Não vejo o pai há 2 anos. A última vez que o vi, foi quando fui a Caxito tratar da cédula e do bilhete de identidade. O meu pai deixou de vir a Luanda em 2006, porque foi aqui assaltado duas vezes. Roubaram-lhe dinheiro e outros pertences, tendo até da segunda vez sido esfaqueado no braço.

A partir dos 7 anos, estudei num jango, em Caxito. Fui para a escola apenas com 11 anos, já aqui em Luanda. Até à 5ª classe estudei no bairro da Lixeira (no Sambizanga), onde vivia com os meus tios (irmão da minha mãe e esposa). Depois, estudei até à 7ª classe, no bairro da Comarca. Parei de estudar quando tinha 16 ou 17 anos, porque fiquei algum tempo sem trabalhar.

Este ano, voltei a matricular-me. Decidi repetir a 7ª classe, porque já não me lembro da matéria. Infelizmente, começámos e parámos logo a seguir, devido às restrições impostas pelo novo coronavírus.

Comecei a namorar aos 13 anos

Tinha 13 anos quando comecei a namorar. Gostava muito da Bela, a minha primeira namorada. Ela era um pouco mais velha, tinha 14 anos.

Comecei a fazer sexo com ela, um ano depois do início do namoro. Infelizmente, os pais dela mudaram de casa e foram para um bairro distante. No início ainda nos víamos uma ou duas vezes por semana, mas depois a distância afastou-nos. Foi uma pena.

A seguir, fiquei três anos sem namorar. Depois, tive mais duas namoradas, até conhecer a minha mulher, com quem tenho hoje um filho. Foi a única namorada que engravidei. Portanto, não tenho qualquer outro filho (tirando o meu enteado, que é meu filho também).

Vivemos juntos desde 2018, mas a família aconselhou a não termos pressa com o pedido. Damo-nos muito bem. Ela trabalhava num restaurante, mas no princípio do ano foi despedida e está em casa.

No início deste ano, encontrei-me com uma jovem, minha amiga da adolescência. A partir desse dia, temo-nos encontrado e posso dizer que é minha namorada. A minha mulher sabe que tenho esta outra relação, que não sei ainda quanto tempo vai durar.

Sou cristão, mas engraçado é que nenhuma das minhas namoradas era cristã. Pertenço à Igreja do Bom Deus, para onde fui levado pela minha avó materna, quando vim para Luanda. Integro o grupo coral da igreja, desde os 13 anos.

Também já me dediquei à dança. Éramos 5 amigos, que nos juntávamos para dançar, desde 2015. Íamos exibir-nos em shows de dança pop e em palcos na rua. Parámos em 2019, porque alguns do grupo desistiram. Tínhamos muitas fãs.

Comecei a trabalhar cedo

Comecei a trabalhar muito cedo, porque tinha que pagar os estudos. Lembro-me que quando tinha 14 anos, trabalhava numa pedreira. O nosso trabalho consistia em transportar pedras.

Depois, trabalhei com os amigos da minha prima, como ajudante de pedreiro. Pagavam por obra, entre 7 e 15 mil kwanzas, consoante o valor total da obra. Não era muito dinheiro, mas dava uma parte em casa e a outra parte usava para pagar a escola. O meu tio sempre me ajudou, mas a parte da escola era mesmo comigo. Sempre fui um aluno aplicado. Apesar de trabalhar, procurava sempre estudar um pouco quase todos os dias, sobretudo nos fins de semana. Como sei que o meu futuro vai depender daquilo que eu estudar, procurei sempre reservar dinheiro para pagar a escola.

Depois de ter ficado algum tempo sem emprego (e sem estudar), comecei a trabalhar num armazém da Cuca como estivador, em 2014. Só a partir daqui comecei a receber um salário mensal.

O armazém comercializava bens alimentares e bebidas, para além de artigos de limpeza. O dono do armazém é eritreu, uma pessoa muito boa, com quem mantive boa relação laboral. Trabalhei com ele durante 4 anos. Foram os melhores anos da minha vida profissional, porque o ambiente de trabalho era magnífico.

Lamentavelmente, o dono do armazém teve de regressar ao seu país, de modo que deixou o armazém a cargo do irmão. Apesar de continuar a ser eu quem depositava o dinheiro arrecadado (houve um dia em que cheguei a depositar acima de 6 milhões de kwanzas), este irmão do meu patrão achava que eu roubava. Não faltava dinheiro, mas chegou a chamar-me gatuno, alegando que eu recebia familiares e entregava-lhes produtos sem pagamento.

Mas ele fechou o armazém e foi viver para o Canadá. Não pagou indemnização, mas encaminhou-nos para o armazém de um conterrâneo dele, isto em 2019. Trabalho neste outro armazém há 12 meses.

Continuo como estivador, com a tarefa de transporte diário de carga. O trabalho de estivador é uma profissão de muito sacrifício, que exige grande dispêndio de energia. Por isso, precisava de me alimentar melhor.

Sou capaz de transportar 5 ou 6 toneladas de carga num só dia. Depende sempre do número de camiões e carrinhas que chegam. Mas se 3 pessoas descarregarmos 200 sacos de arroz (por exemplo), já são 3,3 toneladas por pessoa. Se for eu a transportar os 200 sacos sozinho, como já aconteceu uma vez, transporto 10 toneladas. A sorte é que a descarga de camiões não ocorre todos os dias.

O meu trabalho consiste em transportar, arrumar e contar. Se por acaso faltar algum produto, tenho que pagar. Os artigos que mais comercializamos são arroz, açúcar, massa alimentar, óleo alimentar, cerveja, gasosa e detergentes. O que é bom é que, para além do salário, tenho clientes que ajudo e me dão boas gorjetas. Normalmente dão 200 ou 500 kwanzas, mas há quem chegue aos mil ou mesmo 2 mil kwanzas de gorjeta.

Um dia na vida de um estivador

Acordo às 5h30, preparo-me e saio de casa antes das 6 horas. Tenho de chegar ao serviço antes das 6h30, porque isso me dá direito a receber 200 kwanzas para matabicho. Além deste valor, que é pago apenas a quem chega cedo, cada um de nós recebe 500 kwanzas por dia para transporte.

A manhã de trabalho é bastante movimentada, com o atendimento de clientes. Podem ser pessoas singulares ou empresas. Alguns vão comprar apenas uma caixa ou um saco de algum produto, outros levam carrinhas e é preciso transportar vários sacos ou várias caixas. Normalmente, não almoço. Mas ontem tinha uns trocados, que me foram dados por um cliente, de modo que comprei um bolinho para o almoço.

O trabalho continua no período da tarde. Ontem larguei perto das 17 horas. Como não há aulas, fui para casa. Mal cheguei, tomei um banho e fui descansar, porque o meu trabalho é mesmo cansativo. Acordei por volta das 19h. Ajudei a mulher a preparar o jantar. Ontem comemos um bom jantar: peixe com arroz. Engraçado que eu não como funge, porque comia e fazia-me mal. Não sei se é do óleo de palma, não faço ideia.

Às vezes, depois do jantar, fico no beco a conversar com os vizinhos. Mas ontem não, ontem fiquei a conversar com a minha mulher e a brincar um pouco com a minha filha. O rapaz está em casa do pai há 6 meses, depois havemos de o ir buscar.

Como a televisão está estragada, não temos esta diversão. Fomos para a cama pouco antes das 22 horas. Preciso de descansar bastante, devido ao trabalho extenuante que tenho.

Observação: O caso é real, mas o nome e os dados de identificação são fictícios.