Luanda /
11 Jul 2020 / 12:51 H.
Paulo de Carvalho

Chamo-me Miguel dos Santos e tenho 16 anos. Nas redes sociais, sou conhecido por Puto Miguel. Nasci em Agosto de 2003, no Cazenga. O meu pai é de Ndalatando e a minha mãe, de Caxito. Sou o filho mais velho do casal, de um total de seis (três rapazes e três meninas). O meu irmão mais novo tem quatro anos.

O meu pai é militar e a minha mãe vende no Asa Branca.

Estudei até à 5.ª classe, no Cazenga. Deixei de estudar em 2018, porque mudámos de casa – do Asa Branca, para o Nzamba 1.

Vivo na rua, aqui na Baixa de Luanda. Comecei a frequentar a Baixa em 2016. De início, engraxava sapatos na área da Total. Saía de casa às 5 horas da manhã e estava no local de trabalho antes das 7.

Trabalhava até às 13 horas. Por dia, fazia entre 1.500 e 2 mil kwanzas.

O dinheiro que amealhava era usado para comer, para gastar com os amigos e para levar para casa. Também usava para comprar negócio para a minha mãe (peixe). Deixei de engraxar sapatos, porque me roubaram a caixa. Agora, lavo carros nas áreas da Total e do Epic Sana. Lavando carros, ganho mais.

Comecei a usar drogas

Comecei a usar drogas há uns anos. Só fumo liamba. Mas tenho amigos que usam também Diazepan e bebidas alcoólicas. Também a libanga.

Somos um grupo de oito jovens, com idades entre 14 e 17 anos. Conheci-os mesmo aqui na Baixa, antes não éramos amigos. Eles já viviam aqui na rua, antes de mim. Foi um amigo que me trouxe para aqui. Era mais velho, devia ter na altura uns 18 anos. Ele consumia álcool e outras drogas e eu já fumava liamba.

No grupo nos ajudamos. Porque aqui na rua é cada um por si. Então, somos um grupo: se eu receber algum dinheiro, ajudo também os meus amigos. Compramos comida e liamba. Também partilhamos a roupa. Tenho três calças e seis camisolas, que também são usadas pelos meus amigos.

A droga já me fez sair de casa. Antes ia a casa de vez em quando, mas agora há vários meses que já não vou. Não me correram de casa, eu é que decidi sair. Saí porque queria mesmo.

Em casa, nunca roubei nada. Na rua já roubei, mas prefiro não falar sobre isso.

Quando fumo, a cabeça fica mal. Mas fico feliz, fico alegre. Dá apetite de comer à toa, qualquer coisa que apareça. Também apetite de mulher. E quando uso libanga, posso ficar acordado dois dias.

No meu caso, nunca senti vontade de beber álcool. Mas os meus amigos bebem. Eu fico só já a imaginar como é que me sentiria se bebesse álcool. Mas não, só bebo gasosa.

Um dia de vida

Acordamos cedo. Tomo banho e procuro qualquer coisa para comer; pão com o que tiver nesse dia. Bebemos água ou chá, o que tiver. Depois, vou passear com os amigos. Fumamos e passeamos, até a hora de ir trabalhar.

E ficamos a lavar carros, porque temos que fazer algum dinheiro para comer e para a liamba.

À hora do almoço, “sociamos” a comida: massa, arroz ou funge, normalmente com lataria. Depois do almoço, fumamos e vamos passear. Às vezes vamos na Ilha, outras vezes vamos no porto.

De noite, ficamos a conversar. Fumamos, e quem consome álcool, bebe. Há quem prefira usar Diazepan com Coca-Cola.

Comecei a fazer sexo com 13 anos. Na altura tinha namorada. Agora não tenho. Faço sexo quando aparece mulher na via. Costumo pagar. Só não pago quando são miúdas que vivem na rua, são nossas amigas.

O futuro

Gostaria de ter uma vida nova. Gostaria de deixar esta vida na rua e de drogas, gostaria de estudar e ficar em casa com a família.

Já pensei em desintoxicação. Se me aparecer uma proposta de desintoxicação e de um sítio para viver, aceito.

Também posso voltar para casa, mas por enquanto não. Não posso voltar para casa enquanto consumir drogas.

Gostaria de viajar para Portugal, para conhecer Viana do Castelo.

E depois, mais tarde, também quero ter a minha família.

Em Abril do ano passado, a eng.ª Isabel dos Santos prometeu tirar-me da rua e levar-me para Portugal. Para desintoxicação e para viver lá. A engenheira e o cantor Preto Show divulgaram publicamente que me ajudariam. A pessoa que ela enviou, falou comigo, e disse-me para tratar o passaporte. Tratei. Já tenho o passaporte há muito tempo, mas não voltaram a aparecer até hoje...

Observação: Mantivemos aqui o nome e os dados de identificação do nosso entrevistado, com a sua autorização.

* Sociólogo