Sou o Gilson Cotim de Carvalho, mais conhecido por Zezito. Tenho 37 anos e nasci em Luanda. Sou o terceiro, de um total de 8 filhos (dos quais, 5 mulheres).

Luanda /
01 Dez 2020 / 14:30 H.
Paulo de Carvalho

O meu pai era técnico de farmácia e a minha mãe vendia fuba. Ambos já faleceram, por doença. O pai faleceu em 1993 (tinha eu 10 anos) e a mãe, em 2005 (sendo eu já adulto, com 22 anos).

Vivo na Camama, com a minha mulher e os nossos três filhos. São três rapazes, com 8, 2 e 1 ano.

Comecei a namorar com 17 anos. Tive apenas duas namoradas, sendo a segunda a esposa com quem vivo desde 2012.

Sou religioso praticante, desde 2012. Por influência de amigos, pertenço às testemunhas de Jeová. A igreja tem-me ajudado muito.

Comecei a trabalhar ainda criança

Fui para a escola com 7 anos, com o apoio e a supervisão do meu pai. Estudei na escola 206, ao lado da Martal (aqui em Luanda). Estudava eu a 4ª classe, quando o meu pai morreu. Foi um desastre completo para a nossa família. Tive de começar a trabalhar e, pouco depois, fui forçado a interromper os estudos.

Tendo em conta a minha idade, comecei a prestar serviço em casa de pessoas. Ajudava na limpeza de casa e lavava os carros.

Como comecei a lavar o carro do Sr. Manecas Leitão, ele decidiu apostar em mim. Foi ele que me conseguiu matricular na Escola Ngola Kanini e, mais tarde, no Mutu ya Kevela. O Sr. Manecas foi mesmo um pai para mim, sempre disposto a ajudar-me e apostando sempre na minha formação.

No ano de 2001, o Sr. Manecas matriculou-me no Instituto de Geodesia e Cartografia de Angola, onde fiz o ensino médio. Mas continuava a trabalhar e a receber sempre o apoio do Sr. Manecas e dos filhos (que eu considero meus irmãos).

Trabalhei 10 anos na Coca-Cola

Quando entrei para o ensino médio, comecei a trabalhar na Coca-Cola. Estávamos então em 2001. Comecei a trabalhar na limpeza e fui crescendo dentro da empresa. Passado algum tempo, deram-me uma motorizada e comecei a trabalhar como arrumador da Coca-Cola em supermercados. Trabalhei no Jumbo, na Shoprite e noutras superfícies comerciais.

Em 2004, depois de 3 anos de trabalho na Coca-Cola, subi a promotor de vendas. Deram-me uma viatura, mas passei a ter menos disponibilidade para mim. Tanto que reprovei um ano, devido ao serviço.

Terminei o ensino médio em 2006, trabalhando sempre na Coca-Cola. Mas, aos fins-de-semana, visitava o Sr. Manecas. Lavava sempre o carro dele, apoiava nas reparações e fazia compras.

Entrei na universidade com 24 anos

Entrei na universidade em 2007. Fui para o ano zero, na Universidade Metodista, para me preparar para o curso de arquitectura e urbanismo. Entretanto, continuava a trabalhar na Coca-Cola e prestava serviço ao Sr. Manecas, sobretudo aos fins-de-semana.

Pagava os estudos com o meu salário. Depois, consegui uma bolsa de estudos, cedida pelo INABE. Fui bolseiro durante 2 anos. Mas como reprovei, perdi a bolsa. No ano 2011, tive de ficar um ano sem estudar. Retomei em 2012, no 3º ano (e fazendo também as disciplinas em atraso do 2º ano).

Deixei a Coca-Cola em 2011, porque estando lá, não conseguiria concluir os estudos. Como dormia pouco, durante o dia tinha dificuldade em conduzir a carrinha da empresa, para fazer o meu trabalho. Deixei um bom emprego como promotor de vendas, para poder prosseguir os estudos.

Fui trabalhar como estafeta e relações públicas, na empresa GPS. Estando a trabalhar e a estudar, fui fazendo disciplina após disciplina, até concluir o curso. Como durante o dia era obrigado a ficar à espera dos clientes, enquanto esperava, aproveitava o tempo para fazer os exercícios da escola. À noite, fazia os trabalhos práticos da universidade.

Deixei de lavar carros em 2013, quando estava na universidade a fazer o 3º ano do curso de arquitectura e urbanismo.

Sou arquitecto desde 2016

Concluí a licenciatura em 2016 e recebi o diploma no ano seguinte.

Por sorte, também em 2016, o dono da empresa onde trabalho decidiu abrir um escritório para projectos e convidou-me para arquitecto estagiário.

Ascendi de categoria e trabalhava já com engenheiros e outros arquitectos.

Tendo em conta a pandemia que nos atinge a todos este ano, os arquitectos estrangeiros viajaram para os seus países. Graças a isso, ascendi este ano para a categoria de arquitecto efectivo.

Ganho hoje 240 mil kwanzas por mês. Quando saí da Coca-Cola, o meu salário era de 180 mil kwanzas. Se me tivesse mantido na Coca-Cola, hoje ganharia bastante mais, mas não teria acabado ainda os estudos. Portanto, sinto-me bem a trabalhar na minha profissão de arquitecto.

Tal como disse, comecei como lavador de carros e hoje sou arquitecto. Para chegar até aqui, tive a ajuda de várias pessoas. A pessoa principal, que é o meu mentor, é o Sr. Manecas Leitão, que veio do Huambo e chegou a ser guarda-redes da selecção nacional de futebol. O Sr. Manecas é um verdadeiro pai para mim. Estou-lhe eternamente grato, pelo auxílio que me tem dado e pelo incentivo para prosseguir sempre os estudos, até à licenciatura.

Observação: O caso é real e, por recomendação do próprio, os dados de identificação e a fotografia são reais.