“Com hipertiroidismo, a pessoa fica agitada, cheia de energia e cansada”

Luanda /
29 Jan 2021 / 10:51 H.
Paulo de Carvalho

O meu nome é Wandy de Sousa, tenho 34 anos e sofro de hipertiroidismo. Nasci em Luanda e tenho 7 irmãos. O meu pai era engenheiro electrónico e a minha mãe, agente da polícia (ambos já falecidos).

Neste momento, vivo no bairro da Camama, com a minha irmã mais velha e o meu filho de 11 anos.

Já tive marido. Vivemos juntos 6 anos, mas optámos pela separação há 3 anos. Neste momento, não tenho marido, nem namorado.

A minha religião é católica. Considero-me praticante, tanto que vou à igreja, pelo menos aos domingos.

Estudos e trabalho

Comecei a estudar com 6 anos, aqui em Luanda, na Ilha do Cabo. O primeiro transtorno ocorreu estava eu na 4ª classe, quando a minha mãe morreu. Foi assim que conheci o sabor da reprovação.

Concluí o ensino médio com 18 anos. Foi exactamente nessa altura que o meu pai faleceu. Apesar disso, consegui ingressar na Universidade Lusíada, onde estudei quase 2 anos, até ao 2º ano do curso de gestão de recursos humanos.

Fui forçada a interromper os estudos aos 21 anos, por não ter como os pagar. Comecei então a trabalhar, como estafeta, numa empresa estatal. Aos 25 anos, entrei para o quadro administrativo, como secretária. Três anos depois, passei a meu pedido, para técnica de recursos humanos.

Já como técnica de recursos humanos, decidi retomar os estudos aos 29 anos. Optei por ingressar na Universidade Gregório Semedo. Estou agora no 4º ano, de modo que devo concluir a licenciatura este ano lectivo.

O dia 31 de Dezembro de 2019

Os problemas de saúde começaram no final do ano passado, exactamente no dia 31 de Dezembro.

Acordei com uma dor de cabeça bastante intensa, aparentemente inexplicável. O pior foi quando dei conta de ter os olhos salientes (“olhos soltos”, tal como mais tarde me disseram chamar-se). Sentia também algum tremor e fraqueza.

Fiz uma série de exames, depois de passar por um oftalmologista, um neurologista e um endocrinologista. A ressonância magnética e o TAC deram conta de haver problemas na glândula tiroide, que não estava a levar a devida informação para o cérebro.

Os exames de sangue confirmaram o hipertiroidismo, resultante da produção de hormonas em excesso. Como causas prováveis, foram apontadas a depressão e o stress.

O hipertiroidismo é uma doença que resulta da libertação de hormonas em excesso pela tiroide (ou tireoide), uma glândula que está alojada na parte anterior do pescoço, que actua na função de órgãos como o cérebro, coração, fígado e rins. Com hipertiroidismo, a pessoa fica agitada, cheia de energia e cansada, porque o corpo funciona rápido demais.

Fiz mais tarde uma ecografia à tiroide, da qual resultou a constatação de esta glândula não ter nódulos. Por essa razão, não é por enquanto necessária qualquer cirurgia.

Comecei o tratamento ao hipertiroidismo. Os médicos dizem que o tratamento demora normalmente entre 1 e 2 anos. No final, o problema fica controlado.

Três meses após o início do tratamento, a dor de cabeça, o cansaço e os suores reduziram. Também reduziu a intensidade dos “olhos soltos”, mantendo-se entretanto o tremor e a fraqueza.

Cheguei a ter visão dupla, o que constituiu um sério problema no serviço, pois trabalho com o computador. Agora, acordo sempre com visão dupla. Por isso, tenho de repousar na cama, acordada, durante 15 a 30 minutos, antes de me levantar.

Ao sair, se apanho Sol, lá vem a visão dupla. Para evitar isso, ando com óculos escuros.

O tratamento prossegue até hoje. A medicação é cara e está acima das minhas posses. Por mês, gasto pelo menos 51 mil kwanzas em medicamentos (há meses em que gasto mais). E se tiver de fazer algum exame, o dispêndio ultrapassa os 80 mil kwanzas, podendo mesmo chegar aos 100 mil.

Restrições

Os médicos comunicaram-me uma série de restrições.

Do ponto de vista alimentar, não posso comer couve, repolho, óleo de soja ou alimentos que contenham farinha de trigo (pão e bolos, dentre outros).

Também estou proibida de engravidar. Ainda que tentasse, um dos medicamentos causaria aborto. O mais aborrecido é que o mesmo medicamento pode causar infertilidade.

Depressão e baixa auto-estima

O maior problema foram a depressão e a baixa auto-estima, em resultado da doença. Tive de consultar um psicólogo, que me ajudou bastante.

Cheguei a sentir temor de sair de casa, porque sempre que me encontrava com algum conhecido, perguntava: “Tens o quê nos olhos?”

De início, tinha mudanças de humor repentinas. Passaram, com a medicação.

Também cheguei a faltar ao serviço, devido à depressão. Felizmente, a psicóloga recomendou 2 meses de repouso.

Para ultrapassar a depressão, tive grande apoio da família e amigos. As minhas irmãs e primas são o máximo: ajudaram-me sempre, seja do ponto de vista moral, seja do ponto de vista material. Também tenho boas amigas, que não me faltaram nesses momentos difíceis da minha vida.

Agora já lido bem com a situação e com os efeitos sociais da doença. Mantêm-se as dores resultantes da doença. Só espero dispor sempre de recursos para a medicação.

Observação: O caso é real, mas o nome e alguns dos dados de identificação são fictícios.