“Apanhei HIV do meu marido, depois de 3 anos de separação”

24 Ago 2020 / 10:14 H.
Paulo de Carvalho

Chamo-me Mizé Solange e tenho 42 anos de idade. Nasci na Mussera (município do Nzeto, na província do Zaire) e os meus pais são do Nzeto e de Kimavongo. Tenho dois filhos, nomeadamente um rapaz de 17 anos e uma menina de 13 anos. O meu esposo tem 47 anos.

Sou uma mulher habituada a trabalhar. Enquanto namorava estava tudo bem, mas quando casei tive de deixar de trabalhar, uma vez que o local de trabalho ficava noutra localidade.

Só depois do casamento, conheci algumas particularidades do meu marido, designadamente o facto de não gostar de receber pessoas em casa, incluindo familiares meus. Além disso, tem de ser ele a comandar a vida a dois, sem me dar espaço sequer para opinar.

Felizmente, retomei o trabalho anos após o casamento, porque precisávamos de aumentar os rendimentos da família. E, com a vinda dos filhos, aumentaram as nossas necessidades. Fiquei a trabalhar na área administrativa de uma unidade sanitária.

Como surgiu o HIV

Depois de anos de vida em conjunto, decidimos separar-nos, o que veio a ocorrer em 2013. Entretanto, o meu ex-marido fica doente e é internado na unidade onde eu trabalhava. Não era nada de anormal, porque ele é asmático, hipertenso e diabético.

Estando ele internado no “meu” hospital, comecei a tomar conta dele. E quando saiu, comecei novamente a frequentar a casa dele. Até que acabei por lá ficar, de modo que voltámos a viver em conjunto, após três anos de separação.

Ainda no ano de 2016, o meu marido voltou a ser internado no hospital, depois de uma crise aguda. Foi nessa altura que fiquei a saber que ele tinha HIV e estava doente de sida. A informação não me foi facultada por ele, uma vez que até aí nunca me tinha dito que tinha sida.

Obviamente que me senti mal ao receber a notícia. Pior ainda, por não ter sido o meu marido a comunicar-ma. Mas continuámos juntos, sem abordar o assunto.

A minha primeira crise ocorreu em 2017, tendo sido levada para o hospital. Sentia cansaço, exaustão e falta de apetite. Era capaz de ficar 2 ou 3 dias sem comer. Se antes pesava pouco mais de 80 quilogramas, passei a pesar somente 41 quilos. Um médico comunicou-me que tinha sida.

Depois de duas semanas de internamento nos cuidados intensivos, voltei para casa. Foi nessa altura que tivemos a primeira conversa sobre o assunto. De início, o meu marido reagiu mal, dizendo que tinha sido eu a levar o vírus para casa, contaminando-o. Mas o facto é que ele adoeceu primeiro e, até, numa altura em que não vivíamos juntos.

A minha vida mudou

Com a doença de que padeço, tive que alterar substancialmente a rotina diária. Passei a dormir mais e a ter mais cautela com a saúde.

Para piorar a situação, a empresa onde trabalhava foi forçada a reduzir o pessoal, de modo que fui despedida em 2018. Na altura, estava internada e foram os meus colegas que me comunicaram que fazia parte da lista dos trabalhadores a serem dispensados.

Uma vez que estava a dever 5 mil dólares à unidade sanitária onde trabalhava (devido aos internamentos, meu e do marido), o que a empresa fez foi anular essa dívida. Esse valor serviu assim de indemnização pelo despedimento.

Estando doente, com sida, o desemprego veio prejudicar ainda mais a minha vida. Tenho procurado emprego, sem conseguir. Este ano, a situação está muito pior que nos anos anteriores, com o nível de desemprego a aumentar.

Cheguei a pensar em emigrar, mas não consegui reunir os meios que o permitissem. Passou a ser o esposo a sustentar-nos, até que também ele ficou desemprego, no ano passado. A vida ficou mais difícil, com a diminuição do rendimento na família.

Por sorte, os medicamentos não são pagos. Mas tenho grande dificuldade em conseguir dinheiro para o táxi, visto que tenho que me deslocar ao Hospital do Palanca. E como o meu marido se recusa a ir ao hospital, tenho de ser eu a ir buscar os medicamentos para os dois.

Felizmente, quase não temos sido estigmatizados, pois não circulamos além do indispensável. Mas já sucederam casos de discriminação, sobre os quais prefiro não falar.

Olhe, queria muito mandar a minha filha estudar fora. Rezo diariamente para aparecer uma alma caridosa que lhe conceda uma bolsa de estudos.

Um dia de vida de uma doente de sida

Num dia de vida comum, daqueles dias sem grande sofrimento devido à minha doença, procuro manter-me na cama até tarde, porque “quanto mais dormes, menos comes”.

Ontem acordei às 8 horas. Preparei-me, fiz a lida da casa e saí. Tinha programado sair mais uma vez à procura de emprego. Olhe que me inscrevi no último concurso da saúde, tive no teste uma classificação acima de 11 valores, mas não fui admitida.

Antes de sair, não matabichei. Já deixei de tomar o pequeno-almoço há alguns anos. Fora de casa, comi uma coisa leve ao almoço – uma sandes de manteiga. Em casa, a refeição varia, em função daquilo que conseguimos nesse dia. A minha irmã é quem mais nos ajuda, com comida.

Voltei para casa depois das 15 horas, cansada e sem ter conseguido qualquer resposta aos vários pedidos de emprego feitos anteriormente. Descansei e aproveitei para falar com a minha filha mais nova sobre as aulas que não recomeçam.

O nosso jantar é habitualmente chá com pão. A nossa grande preocupação é a filha mais nova, porque o mais velho já se consegue virar, fazendo alguns biscates.

Praticamente depois de adoecer, deixei de sair à noite. Agora, com a situação de desemprego que nos atingiu, não só não há disposição para sair à noite, como também deixou de haver recursos financeiros para isso. E o coronavírus reforça essa ausência de predisposição para sair.

Levamos uma vida de sofrimento, que pode ser entendida apenas por quem está em situação semelhante.

Observação: O caso é real, mas o nome e os dados de identificação são fictícios.

Caso alguém pretenda auxiliar o casal ou a filha de 13 anos, pode escrever para o endereço electrónico deste Jornal V

*Sociólogo