AntiGoverno e intelectuais (Parte I)

Os dogmas que instituíram a autoridade da razão, pelo menos na obtenção de resultados concretos, criaram uma subconsciência da acção: agir correcto. A moral do acto. Entende-se por razão”, a “verdade primitiva”.

Angola /
18 Nov 2019 / 15:26 H.
Patrício Batsikama

Aproveitaram-se deste agir correcto de diferentes maneiras. O Governo codifica a razão burocrática da organização do território com soberania, enquanto a “república por instituição” (FOUCAULT, 2006: 100-1001) dispõe dos espaços da reprodução desta razão. Por isso, não se condena alguém, sem antes publicar a Lei.

A escola é um dos espaços privilegiados do Governo para a reprodução do Poder através de sistema simbólico (BOURDIEU, 2010: 4-8, 149-161). Outras redes de informação da Razão da Ordem (Estado) massificam a importância do cumprimento do instituído (BATSÎKAMA, 2018: 59-60).

Aprendemos a reflectir depois de fixarmos os conceitos que constituem a razão ou a moral da nossa consciência, com alguma idiossincrasia que resulta do espaço e tempo da nossa existência.

Respeitamos o Governo na nossa inconsciência antes de qualquer exercício de consciência: o espírito da guerra primitiva (FOUCAULT, 2006: 101-103) nos teleguia na coesão e em busca incansável da segurança. Ora Governo representa o abrigo (PLATÃO, 1972: 35). Porém, este cenário é uma construção a partir de “não-Eu”.

Ela possibilita vários espaços de subconsciência simbólica (virtudes), inúmeros cantinhos do impensado (vontade) e, desta forma, proporciona-nos poucas possibilidades de raciocinar de forma realmente livre senão na base da Razão contra os vícios: segurança colectiva (PLATÃO, 1972: 41, 53).

A própria liberdade é regrada, justamente para não fugir da consciência desta razão. As nossas opções são ora manifestações externas da nossa subconsciência, ora escapatórias da inconsciência em si, mas sempre influenciada pelo contexto e aspectos externos.

Poucas vezes, o impensado permanece um “não-Eu” pávido da Razão por comprometer, desta maneira, as liberdades existenciais. É a guerra de igualdade em Hobbes, na matéria do Estado, que se redimensiona aqui em “Eu” versus “nãoEu”. Daí, a razão perde perímetros nas operações simples da autoconsciência da acção por se tratar de dogma necessário que vai além do centro-homem.

Percebemos então que a razão é uma plataforma de inúmeras possibilidades onde nem sempre as operações são ditadas pelas suas realidades, nem tão pouco pela razão da Ordem. É assim que a “violência emancipadora” libertou África (MBEMBE, 2014: 278), tanto quanto a não-violência em Mandela impeliu a emancipação dos oprimidos sulafricanos.

Bibliografia BATSÎKAMA, P. (2018), Reino do Kôngo, Luanda: Mayamba BOURDIEU, P. (2010), A distinção, Lisboa: Edições 70 FOUCAULT, M. (2006), É preciso defender a sociedade, Lisboa: Livros do Brasil MBEMBE, A. (2014), Crítica da razão negra, Lisboa: Antigona PLATÃO, (1972), A República, Lisboa: Fundação Gulbenkian.