AntiGoverno e intelectuais (Fim)

O anti-Governo pressupõe que o instituído seja um dos desvios da razão. Ao determinar como “verdadeira” e “falsa” as operações avaliadas sob preceitos de Lei, os intelectuais denunciam o Governo que torne refém o Espírito e limita a complexidade das liberdades. Em tese, a pureza da verdade não é alcançável (tangível) pela capacidade humana. Logo, o acordado que é o instituído como correcto pressupõe que a falsidade não seja realmente impura, para manutenção da Ordem.

25 Nov 2019 / 15:21 H.
Patrício Batsikama

Contrariamente a este paradigma e por procurar saciar as insuficiências da razão material, os indivíduos

erguem um padrão de qualidades para verdade e, como era de esperar, outro padrão dos defeitos. “Ser coerente consigo” passa a ser uma práxis de verdade, ao passo que “ser incoerente consigo” passa a ser falsidade.

O Governo institui leis e normas na subconsciência disto. Até certoponto, isso funciona na compreensão material e simbólica da sociedade.

Importar essa realidade lógica para todos sectores da existência é pura ideologia da razão. É uma operação,per se, irreal mas necessária para curiosidade humana. É justamente aqui que os intelectuais intervenham, cuja acção corresponde a um tipo de antiGoverno. Um exemplo interessante é de Jean-Pierre Lefebvre (2014) quando faz revisão da Razão como fundamento de Estado em Hegel, para perceber a crítica de Henri Lefebvre sobre a cidade inigualitária e capitalismo hegemónica. O autor faz uma revisão da distinção social de Bourdieu (2010), cujas implicações económicas da produção/consumo das pessoas perpetuam os desníveis alarmantes. Daí, a crise da economia hiperliberal de 2008 em Angola favoreceu uma minoria para enriquecer-se cada vez mais ao detrimento dos outros. As oligarquias formam-se e não necessariamente nos espaços do prestígio. Surge, então, um novo headquarter do Poder cuja urbanização mental é regulamentada pelos interesses da razão popular (verosimilidade), com risco de vulgarização do prestígio facilmente copiável. Isso aconteceu em 2011, com a ondas de manifestação nunca vistas antes em Angola. No meio deste puzzle de intelectuais, uns assumem-se virtuosos,outros vão aos extremos assim como há os moderados.

Os intelectuais são movidos pela crítica que, sem qualquer preconceito, constrói-se na base de metodologia e boas perguntas sem compromisso (espaço dos pensadores livres). Isto é, à partida, libertam-se de dogmas da razão enquanto ideologia política, doutrina religiosa, conformismo económico ou ainda ideário social. Nessas condições, formam antiGoverno (contra dogma instituído).

O seu inconformismo com o estabelecido enquanto correcto, pela crítica metódica, análise concreta e busca permanente de conhecer/saber faz com que recuperem as liberdades individuais com seu próprio pensar, sem perder honestidade em construir o seu argumento nem deixar de lado a humildade de “nada saber” realmente.

Isso permite-lhe desafiar o instituído pela coragem de desconstruir o “antigo” e dar novas roupagens para entendê-lo por outros juízos. Dito de outra maneira, o intelectual desafia a ordem cuja revisão metodológica conduz-nos à perceber outras possibilidades da existência além-razão. Desenvolve o espírito crítico, no melhoramento do instituído, sem espírito de rancor: reconstrói a ordem constantemente.