Uma crise na ordem global?

No dilema de segurança, quando o meu vizinho aumenta a sua segurança, eu passo a desconfiar dele ou que existe alguma ameaça entre nós, o recomendável é aumentar também o meu poder de modos a ter mais segurança, vive-se numa desconfiança porquê não se conhece as reais intenções do vizinho.

Angola /
01 Abr 2022 / 12:51 H.
Tiago Armando

Actual ordem global definida com base nos princípios e instituições ocidentais após a Segunda Guerra mundial parece cada vez mais em decadência, uma Europa que mostra se cada vez mais incapaz de defender os seus interesses e de dar uma resposta capaz de manter a ordem.

Com o fim da guerra fria e a desintegração do bloco soviético (URSS), os Estados Unidos da América triunfaram com o seu capitalismo e a democracia liberar, acreditando então na possibilidade de exportar os seus valores a uma escala global (ver O fim da história é o último homem de Francis Fukuyama), naquela altura agenda era ajudar os países pobres ou em via de desenvolvimento, questões climáticas e humanitárias.

Durante a década de 90 a estratégia norte americana foi sempre evitar o ressurgimento de um potencial rival na ordem global. Infelizmente os ataques às torres gémeas (11/9/2001) alterou completamente agenda global, substituindo o combate à pobreza, ajuda aos países em vias de desenvolvimento por uma agenda de segurança global.

Os E. U. A declararam guerra global ao terrorismo, enquanto dedicavam-se a fazer guerras no Iraque, Afeganistão, países como China e Rússia estavam consolidando os seus factores de poder (económico e militar), a fim de exercerem influência na ordem internacional.

Portanto, aquilo que os americanos procuravam evitar infelizmente aconteceu, ou seja, o ressurgimento de Estados capazes de criar equilíbrios e desequilíbrios na ordem global, é caso de dizer que hoje os EUA não estão só nesta senda e não pode contar muito com a Europa.

O que acabamos de descrever é visível em alguns conflitos onde há ou houve intervenção russa ou apoio da China (Síria e Venezuela de Maduro). Mas, o conflito Russo-Ucraniano e a influência da China no mar sul constituem bons objectos de análise do que está acontecer, em meu entender resulta do chamado " dilema de segurança" um dos ingredientes da teoria realista das relações internacionais, onde os Estados procuram maximizar as suas cotas de poder em relação aos outros de modos a garantir a sua sobrevivência.

No dilema de segurança, quando o meu vizinho aumenta a sua segurança, eu passo a desconfiar dele ou que existe alguma ameaça entre nós, o recomendável é aumentar também o meu poder de modos a ter mais segurança, vive-se numa desconfiança porquê não se conhece as reais intenções do vizinho.

O conflito começou em 2014 e Rússia anexou a Crimea de lá para cá, esteve hibernado mas infelizmente foi reactivado.

Primeiro, porquê UE, tem uma estratégia de reforçar a cooperação com os países do leste europeu, o que para Putin isso representa uma ameaça (a par da Bielorrússia, Hungria) quase que todos seus vizinhos já são membros da OTAN e a Ucrânia é o seu vizinho estratégico mais importante que ele não quer perder do ponto de vista de capacidade de exercer influência.

Segundo, a China com seu projecto da rota da seda, que visa conectar, o Médio Oriente, Europa, África e Ásia. E estratégia russa a nível do Oceano Árctico com a exploração de recursos minerais e a militarização do mar do norte, representa uma ameaça para E.U e os EUA e a muito que se tem pensado como reduzir este poder de modos a garantir segurança dos Estados europeus e evitar que ambos têm o controlo do coração do mundo heartland.

Ainda que se imponham sanções económicas a Rússia, acredito que sobreviverá e como tem sobrevivido o Irão, Coreia do Norte e uma intervenção militar de grande escala pode ter consequências muito. E para piorar os E.U.A cometeram um grande erro do ponto de vista estratégico, ao permitir que seus adversários se unam e formem uma aliança. Infelizmente isso aconteceu basta vermos o número de acordos de cooperação assinados entre China e Rússia (Protocolo Conjunto sobre relações internacionais com e desenvolvimento global sustentável, assinado entre os dois países no dia 4 de Fevereiro de 2022). Portanto, hoje é visível alteração na ordem global, que vai se caracterizando cada vez mais multipolar do que unipolar.