Um enorme bocejo

O novo líder da UNITA perdeu uma grande oportunidade de mostrar para Angola e para os angolanos o que tem de soluções para muitos dos problemas que enfermam o quotidiano, na busca de bem-estar social.

Luanda /
17 Jan 2020 / 09:18 H.
António Pedro

Quando falava na abertura do novo ano político diante de uma enorme moldura humana que lembram os comícios de então, que reuniam militantes, amigos e simpatizantes de partidos com elevada força de mobilização de massas, deu um tiro no próprio pé. Por que razão Adalberto Costa Júnior só criticou a governação, defendeu Isabel dos Santos reanimando as “insinuações”, muito propaladas durante o último congresso da UNITA, segundo as quais a empresária estaria a financiar sua companha para a presidência do partido dos maninhos? Os veteranos da UNITA lembram do primeiro discurso de Jonas Savimbi quando assumiu o partido. Os mesmos veteranos da UNITA e a nova geração do partido lembram do primeiro discurso de Isaías Samakuva quando assumiu a liderança.

Nada similar ao que aconteceu com Adalberto Costa Júnior. Parece não acreditar que tem capital político para levar aos maninhos ao poder. Faltou, inclusive, força e energia ao pronunciar o slogan do partido “YENDELELE” diante de uma multidão aparentemente motivada a apoiar o seu partido.

Não havia vibração no “YENDELELE” do líder, como acontecia com Jonas e Samakuva em actos de massa. Notou-se uma enorme diferença entre o antigo presidente do Grupo Parlamentar da UNITA, na Assembleia Nacional, e o novo presidente do partido.

Não é normal, nem é sequer inteligente, um político que no Parlamento defendeu com unha e garra uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) a Sonangol, ao Fundo Soberano, ao então BESA, às contas públicas - fundamentalmente à dívida pública por causa de serviços não prestados ao Estado, mas registados como se tivessem sido prestados - apareça agora num acto de massas a defender quem realmente beneficiou-se destes esquemas.

dicial, Adalberto duvida do próprio sistema que o legitima, legalmente, diante das instituições de soberania, como presidente da UNITA. Ao apontar que a justiça está a ser selectiva, o líder do Galo Negro devia aproveitar apontar caminhos, mostrar soluções, de como o Ministério Público pode arrolar todos implicados numa única “pesca de arrasto” com o défice de quadros que tem, de modo a levar ao êxito o combate contra a corrupção.

Parece que a UNITA é ainda um casaco pesado às costas de Adalberto Costa Júnior, que, queiramos ou não, não falou apenas para militantes do seu partido, mas, sim, para angolanos ávidos de encontrar em seu discurso soluções para a vida do País. Parece que o novo líder da oposição que muito prometeu pela forma como chegou à liderança não está preparado, não está com a tarimba política, para governar Angola.

Enrolou-se no seu discurso com conversas de café, conversas estas que todos nós angolanos falamos quando ao fim do dia nos desligamos da jornada laboral e nos sentamos junto a uma mesa de bar e, tomando um copo mais outro copo, saem os desabafos do quotidiano. O que o líder da UNITA falou em seu discurso é mais do mesmo.

É, exactamente, o que os roboteiros conversam nas suas sentadas, em paragens de candongueiro, enquanto aguardam por um cliente que precisa de seus serviços de transporte de mercadorias em carros fabricados com madeira; o que Adalberto falou em sua retórica é, exactamente, o que dizem os enfermeiros em hospitais após horas de estresse sobre trabalho intenso com parcos ou sem meios para acudir doentes; o que o chefe dos maninhos disse não é diferente das conversas e lamentações de passageiros transportados em corridas urbanas de autocarros das transportadoras nacionais pública e privadas.

O País não pode viver de experimentalismos, nem ter líderes políticos que fazem da justiça uma arma de arremesso contra a política. A mulher mais bonita do mundo só pode dar o que ela tem. Se Adalberto não tem soluções para os problemas dos angolanos e continuar preso no discurso soez, como se estivesse a fazer barulho em tambor vazio, perdem os militantes da UNITA, perdem os angolanos que encaram no político uma alternativa de melhor governação.

Há muito vimos a insistir que a política é uma arte e é preciso ter preparo suficiente, tanto político quanto técnico, para liderar uma oposição que quer ser poder. Se o Executivo de João Lourenço tem dificuldades de governar com parcos recursos disponíveis, a oposição pode também apresentar soluções alternativas com os parcos recursos disponíveis. Luanda tem sérios problemas de mobilidade urbana. Os militantes da UNITA que acorreram ao actode massas terão sentido a dificuldade para deslocação ao centro da cidade. Adalberto não apresentou uma única solução de como melhorar este péssimo serviço. Provavelmente, muitos dos militantes que deslocaram-se à Mutamba têm parentes internados em hospitais da rede pública, onde todos os dias há relatos de mau funcionamento, mas a oposição não tem programa concreto.

Acredita-se que muitos dos presentes que foram para ouvir o discurso do líder dos kwachas têm filhos, sobrinhos, primos, fora do sistema normal de ensino, aliás este ano mais crianças, menos que no ano passado, ficam fora do sistema de ensino. Não se conhece políticas públicas ditas pelo líder da oposição.

Não se pode continuar a distrair os angolanos com a insistência em CPI´s (sem apologia que não deve ser feita, nada disso!), é preciso soluções dentro de programas alternativos de governação. Aos políticos recomenda-se que fiquem atentos a moldura humana que os assiste nos actos de massas. É mau sinal, quando da parte dos militantes que assistem ao discurso, há um enorme cortejo de bocejos...