Luanda /
15 Mai 2020 / 13:12 H.
Patrício Batsikama

Os cientistas políticos modernos dizem que o animo/thumos seriam masculinos e não femininos. Logo, a mulher é uma eterna submissão. Discordo. O que dizer de “animo/thumos” nas acções de Ñjînga Mbândi, Deolinda e Luzia Inglês?

Ñjîng’a Mbândi foi uma letrada e intelectual, na sua juventude. Tomou iniciativas – inúmeras vezes – no campo político, judiciário e militares quando ainda o seu pai estava vivo. Com a ascensão do irmão, ela criticou a pouca capacidade de liderança, irresponsabilidades políticas e erros estratégicos nas batalhas.

Ela veio a Luanda para negociar, não simplesmente por ser uma princesa. Pelo contrário, a sua indicação tem o aval do “Conselho dos makota”, que a instruíra a negociar a partilha dos interesses comerciais. Ela irá discutir não apenas o que lhe foi orientado, mas e sobretudo, a soberania do Ndongo, os direitos comerciais (impostos, taxas, e leis comerciais/financeiras locais).

Mais tarde, depois de ser coroada rainha, ela irá conquistar Matâmba (um Estado que lhe pertenceria, caso seguirmos o parentesco na administração naquela época). Pegou em armas e liderou milhares de soldados aguerridos. Apesar de ter armas rudimentares, os portugueses não a venceram, nem conseguiram em momento algum capturá-la. No fim, mostrou-se mais inteligente (thumos) ainda em selar irmandade com Vaticano, como forma de levar os portugueses em nunca mais guerrear contra ela e, mesmo depois da sua morte, contra o Estado Ndôngo.

Nascido no dia 10 de Fevereiro de 1939, Deolinda Rodrigues faz parte das “heroínas” que o MPLA ecoou com trombetas. Na verdade, a sua contribuição ultrapassam os limites partidários pois foi uma destemida combatente pela liberdade.

“Tenho de viver para mudar tal situação”, escreve Deolinda Rodrigues “Langidila”. Basta de humilhação simbólica e “livre destas merdas de favores”. Ela conhecia a teoria de “dádiva” de Marcel Mauss, pois cursou a Sociologia com boas notas (uma média de 18/20). Para Aristóteles, o thumos é a “capacidade de mandar, o amor a liberdade e a resistência à submissão”.

No seu Diário, Langidila escreve: “... na casa da OMA... uma das companheiras tem receio de mim e evita-me por eu ser mandona, ter a mania de dar ordens...” (Rodrigues, 2016: 82). Intelectual da primeira, nem poupou o seu líder (Agostinho Neto), nem o seu partido que, em 1963, parecia – para ela – ter “muitos chefes”. Para que já tinha lido Martin Luther King, Jr. a sua crítica situava em: (a) incógnita ideológica na liderança; (b) práxis política desarticulada e, às vezes, em conflito entre a guerrilha e o Programa do MPLA. Recentemente reconhecido pelo Estado angolano, ela mostrou “animo/thumos”.

Luzia Inglês “Inga” nasceu no dia 11 de Janeiro de 1948. Viu a sua adolescência interrompida com a morte trágica do pai. Conhecida com nome de Nina, conheceu uma odisseia entre 1961-1964 que fragilizou a sua saúde. Ainda assim, formou-se como operadora radialista na URSS, em 1969, voltou para Luta em Angola, tendo chefiado a Logística e Finanças nos Serviços da Rádio e Telecomunicações na Frente Leste, no campo “Vitória é certa” (Kasamba), em 1973.

A sua participação na luta de libertação destacou-se nas 2ª e 3ª regiões político-militares do MPLA. Luzia Pereira de Sousa Inglês Van-Dúnem já reconhecida pelo Estado angolano com as condecorações com “Medalha Guerrilheiro do MPLA” da 1.ª classe (em 1991) e, em 2005, o Presidente da República outorgou-lhe a “Ordem do Combatente da Liberdade”, 1º Grau, por causa da sua participação à luta de Libertação. A Ordem do Comandante-em-Chefe n.º 32/14 de 12 promoveu-a a General das Forças Armadas na reserva. Ora, General é “animo/thumos”!

Concluindo: levantei esses aspectos para lançar um desafio aos politólogos e historiadores em rever as teorias sobre “animo/thumos” segundo as quais a feminilidade não faz pode ser Poder. Desde os nossos antepassados, a mulher sempre ocupou lugar de finitude, de deus e do Poder.