Os “Movimentos Socias” e o novo paradigma

Luanda /
07 Set 2020 / 15:43 H.
Edgar Leandro

Os movimentos sociais são manifestações de carácter popular que tiveram início, com alguma grandiosidade, no século XIX e cuja acção foi orientada com o objectivo de obterem transformações sociais, políticas e económicas.

Hoje, os movimentos sociais nascem na internet para depois se instrumentalizarem em manifestações físicas. Os movimentos sociais não podem ser entendidos fora do contexto em que se inserem e apresentam como traços distintivos a sua capacidade para gerar discursos alternativos e um posicionamento face às posições dominantes num determinado lapso de tempo.

No grupo de cultura, lá na viva cidade de Luanda, no WhatsApp, a filha do Putin envia três fotos de jovens adolescentes sentados defronte a marginal de Luanda, tiradas em baixa resolução, no que parecia ser uma câmara analógica. As fotos tinham a seguinte legenda: “Estes jovens roubam telefones no meu bairro. Eles são do Prenda. O Pico, filho do Rigoberto, disse que os viu a correr na rua dele em direcção ao beco do Bruno Vaca.

O Sr. Agnelo responde: “Eu já ouvi falar que lá é onde se organizam”. O Sr. FP, que não vive em Luanda, confirma: “É verdade, eu já vi uns miúdos estranhos a fumarem maconha lá”.

E a partir daí, a notícia espalha-se em outros grupos de família, de trabalho, do condomínio, da igreja ou de amigos. E vai-se repassando a notícia, como se de uma verdade se tratasse, por mais que ninguém tenha visto os rapazes assaltarem ninguém, mesmo que eles tenham entrado no bar do Vaca só para beber uma água.

De imediato, quando forem avistados na rua, ou o povo foge ou reúne-se para dar-lhes “uma lição”. Em outra perspectiva, os rapazes já estão a ser procurados pela Polícia, denunciados ou mesmo condenados.

Os grupos de WhatsApp tornaram-se numa ferramenta de mobilização de pessoas comuns. Quando essas pessoas consideram que algum direito está a ser violado, saem do virtual e vão protestar pessoalmente.

A impressão que fica é que tudo tornou-se uma clivagem entre o poder e os cidadãos. Isso é parcialmente verdade, mas também é verdade que os movimentos políticos tradicionais não sabem lidar com a questão das redes sociais na sua plenitude.

Os “agitadores políticos” cada vez mais perdem espaço, porque hoje esse tipo de serviço é prestado pela rede de grupos de WhatsApp formada naturalmente nos últimos anos. Esses grupos fazem o papel da denúncia, mas também definem as informações prioritárias com base na mobilização gerada por cada denúncia.

Entender os princípios do senso comum do cidadão de classe média é o essencial para entender a nova dinâmica dos movimentos sociais organizados em rede. E hoje em dia é impossível “viralizar” sem falar com essa classe média de senso comum, que se define pelas informações que chegam pelos grupos de WhatsApp.

Para criar novos movimentos, orgânicos, que realmente façam diferença, é preciso incentivar a elevação da melhor parte dessas pessoas de senso comum, mobilizando esforços em temas que são sensíveis a elas, partilhar informações verdadeiras e agir com responsabilidade. Só com informação de qualidade, com acções responsáveis e com sensibilidade para entender as necessidades do cidadão de classe média será possível reverter a percepção corrente de que toda e qualquer acção política é má, transformando o círculo vicioso da descredibilidade das instituições em um círculo virtuoso de credibilidade, de esperança e da perspectiva de um futuro melhor para todos nós enquanto sociedade.

Devemos continuar a estudar o conceito, as maneiras pelas quais os movimentos se desenvolvem, as formas de abordagem, as características comuns que lutam pela consciencialização da população trabalhadora em geral, pela integração das minorias, dos oprimidos, dos excluídos, projectando a construção de uma nova realidade social, numa intervenção que tenha também uma dimensão educativa.