O funcionário deve acrescentar valor a sua instituição

Certa vez, li uma frase que um conhecido, Armando Gomes, escreveu no seu mural, essa dizia o seguinte: “em Angola, as empresas contratam pessoas, que não gostam de pessoas para atenderem pessoas”, forte isso? Sim! Mas é muito real.

Angola /
09 Mar 2022 / 15:45 H.
Youran Mandonga

Enquanto crianças, sempre sonhámos em ser alguém na vida, pois, assim, as pessoas diziam-nos, “precisa ser alguém”. Fomos crescendo e percebemos que ser alguém, para as pessoas, significava estudar e ter um emprego estável, mas o tempo foi passando e percebemos, afinal de contas, que nem tudo sai como queremos ou desejamos. Contudo, mesmo assim continuamos a acreditar que temos de estudar para sermos alguém.

Quando crescemos, percebemos que ser alguém estava ligado a ter um emprego estável, e que em Angola ter um emprego estável está muito ligado a ter garantia e garantia quem dá, aos olhos de muita gente, é o estado (função pública).

Durante esses anos em que vivo nessa terra, país, percebi que muitos jovens sonham em ter um emprego na função pública, porque eles lá têm garantia para toda vida, isto é, não há risco de serem demitidos a qualquer momento, independentemente do estado económico ou financeiro do Executivo, pois uma coisa é certa, para os funcionários públicos, haverá sempre salário.

Contudo, também, comecei a perceber que além da garantia salarial para toda a vida, as pessoas, muitas, vão à função pública, porque quase não se trabalha, basta só olharmos para o número de efectivos que estão em casa. Alguns têm como horário de entrada as 8h, mas chegam às 9h ou 10h, têm como horário de saída 15h ou 16h, mas às 14h, às vezes, às 13h já não atendem, já não há sistema, já ficam ranhosos/as como se estivessem a fazer um favor ao utente/cliente.

Quantos de nós temos amigas/amigos que trabalham na função pública ou empresa privada, mas passam as horas de trabalho nas redes sociais, às vezes nem trabalham em Gabinetes de Comunicação ou nas secções/direcções de gestão de redes sociais, mas estão sempre on e fotos já não são fotos, às vezes, perguntamos: mas esse foi trabalhar ou foi tirar fotos?

E então, nós que estamos fora pensamos que ser funcionário e trabalhar afinal é bom, afinal “cuia”, e muitos já idealizamos: quero trabalhar aí para poder fazer isso, quero ser isso, e no meio de tudo, esquecemo-nos da nossa essência como funcionários, esquecemo-nos o porquê que fomos contratados, e a pergunta que eu levanto é: você trabalha para fazer ou para ser/ter? Importa referir que, não falo, neste artigo, só dos funcionários públicos, falo de trabalhadores no geral.

Muitos de nós já pensamos em trabalhar numa instituição bancária, porque achamos que os bancários vestem bem e têm facilidade de crédito, quantos já pensamos em trabalhar numa DNVT, porque pensamos que lá há muita “mixa”, quantos sonhamos em trabalhar num hospital, porque achamos que teremos acesso rápido aos medicamentos, muitos pensam em ser militar para terem pistolas e andarem fardados, pois a farda dá autoridade. Quantos pensámos em trabalhar na AGT, Sonangol ou numa outra instituição, porque achamos que lá, supostamente, os funcionários ganham bem, nunca pensamos em ir trabalhar numa instituição para resolvermos um problema ou melhorarmos algo, isso na cabeça de muitos não existe.

Certa vez, li uma frase que um conhecido, Armando Gomes, escreveu no seu mural, essa dizia o seguinte: “em Angola, as empresas contratam pessoas, que não gostam de pessoas para atenderem pessoas”, forte isso? Sim! Mas é muito real. Quantos de nós já fomos mal atendidos, quer numa instituição pública ou privada? Muitos! Às vezes até mal tratados e ofendidos, por conta de serviço ou produto, isso, porque as muitas pessoas que trabalham nessas instituições não conhecem nem sabem o porquê foram contratadas.

Há até pessoas que nem conhecem os produtos ou serviços que prestam/vendem nas empresas em que trabalham, porque para elas o essencial e mais importante tem sido o fim do mês, o salário, as pessoas não querem trabalhar, mas querem trabalho e estão nem aí para a satisfação dos clientes/utentes, sendo que os funcionários muitos não têm amor ao próximo, nunca se colocam no lugar do outro, ou seja, não são empáticos, não são educados e muitos nem são profissionais.

Há dias, estava a andar com alguém, fomos a uma instituição tratar algo e a pessoa disse-me: “Youran, entra só para fazer isso, porque eu estive aí a semana passada, tive um conflito com um funcionário, tudo por causa de um atraso, ontem, quando cá cheguei, disse-me que não posso usufruir do serviço. Logo dei conta que era mania e como estamos aqui, entra só e tente solicitar, lá entrei e o/a funcionário/a deu o produto/serviço solicitado sem problema e fiquei a pensar: em que ponto estamos e chegamos? Que profissionais temos? E essas pessoas despedem todos os dias aos seus familiares que estão a ir trabalhar, mas notamos que fazem tudo no trabalho, menos trabalhar.

Precisamos ser profissionais no verdadeiro sentido, ser pessoas que acrescentam valor às instituições, pessoas que cumprem os seus papéis, funcionários que atendem as pessoas como se estivem a atender eles mesmos.

Em gesto de conclusão, quero que, hoje, tenhamos a capacidade de reflectir sobre o que temos feito nos nossos locais de trabalho, que tipo de funcionários temos sido, quando despedimos que estamos a ir trabalhar, e se notarmos que não temos sido bons funcionários, que mudemos imediatamente para o nosso bem, precisamos perceber que nós vamos a uma instituição para fazer e nunca para ser ou ter, se pensarmos, assim, o bem será para a nossa instituição e para a nação.

*Licenciado em Língua Portuguesa e Comunicação