O ciúme

Um relacionamento deve basear-se na confiança, no amor, no afecto, nas aventuras em conjunto, nas experiências partilhadas, nas responsabilidades divididas, nos objectivos desenhados, nas gargalhadas, nos lanches em família, no olhar cúmplice, nas conversas a dois, altas horas da noite.

Angola /
11 Abr 2022 / 08:52 H.
Fátima Fernandes

O meu marido está a dormir, praticamente inconsciente, o telemóvel dele está a piscar, o nome da Vanessa apareceu já quatro vezes, eu começo a ficar nervosa. Ele não se lembra, mas uma vez pediu que eu desbloqueasse o seu telemóvel e eu memorizei muito bem o código, claro! E agora? Devo desbloquear o telefone e ver quem é essa tal Vanessa? E já que vou mesmo entrar no telefone dele... devo aproveitar para ver as suas conversas no Messenger e no WhatsApp? A tentação é grande...! O que é que você faria?

Mulheres e homens sentem ciúmes. Ninguém está isento. Sentimos ciúmes das amigas do namorado; sentimos ciúmes das primas do marido; sentimos ciúmes da esposa do namorado; sentimos ciúmes dos colegas da esposa. Sentimos ciúmes quando o nosso companheiro ou a nossa companheira está a rir ao telefone, ou baixa um pouco a voz, ou, pior ainda, sai da sala para continuar a falar à vontade. Exigimos saber com quem está a falar! Se ele não faz uma cena depois de saber que estivemos a almoçar com um colega, pensamos que já não nos ama! Rimos dos ciúmes dele, secretamente: gostamos. Se os ciúmes são exagerados e começamos a sentir-nos perseguidas, sufocadas, deixa de ser engraçado. Se somos homens, dizemos que não temos ciúmes, mas controlamos os contactos da nossa parceira, para que depois não nos venham dizer que estamos a ser traídos – a maior vergonha possível para o nosso ego masculino! Ficamos zangados, irritados, furiosos, gritamos, choramos de raiva, pensamos que vamos morrer sem aquela pessoa, mas, primeiro, ela tem de pagar, pois atreveu-se a sair ou a conversar, FELIZ, com outra pessoa! Feliz com outra pessoa: um crime imperdoável!

Porque é que sentimos tantos ciúmes? Por medo de perdermos aquela pessoa. E porque é que temos esse medo? Será por medo de perdermos o apoio financeiro, medo do que os amigos vão dizer, medo da reprovação da família, medo de não sermos bons o suficiente, medo de sermos trocados, medo de sermos rejeitados, medo que todos saibam, medo da vergonha, medo da humilhação, medo de assumirmos que não temos o relacionamento perfeito? Sim, pode ser por tudo isso, mas, acima de tudo – ou abaixo de tudo, num lugar muito mais profundo, recôndito, que vem da nossa infância – nós temos, essencialmente, medo de ficarmos sozinhos! Temos medo de ser abandonados, de ficarmos desamparados. Parece um exagero?

A psicanalista Mariela Michelena, em Mulheres malamadas – liberte-se das relações destrutivas e sem futuro (A Esfera dos Livros, Lisboa, 2011), explica que o ciúme tem origem nas nossas relações afectivas de infância, no nosso apego à mãe. Por detrás dos ciúmes “está o desejo da unidade primordial originária e mítica com a mãe” (“mítica”, pois, explica também a psicanalista, “não é muito claro que alguma vez tenha existido uma união tão extraordinária como a que queremos imaginar”) (2011: 152). Essa união é ameaçada por terceiros: o pai, os irmãos. E isso dá origem a sentimentos de ciúmes na criança, muitas vezes avassaladores. Já na idade adulta, face aos ciúmes, experienciamos o desejo inconsciente de sermos um, de novo, com a nossa mãe, protegidos, seguros, e o terror de perdermos essa ligação! Na infância, os ciúmes cumprem uma função importante para o nosso desenvolvimento afectivo saudável. O ciúme é um “sinal de alarme que nos obriga ao reconhecimento do terceiro”! Mas esse terceiro (o pai, os irmãos, outros) não é apenas aquele que nos “tira” a mãe. Segundo Mariela Michelena, esse terceiro permitenos também “escapar da relação asfixiante com a mãe”. Ora, “a saída desta situação de exclusividade também tem as suas vantagens: a criança adquire o seu passaporte de autonomia... uma promessa difícil, mas necessária”. (2011: 154)

Diz-nos Mariela Michelena, de forma magistral: “A autonomia do outro é uma cruz com que temos de aprender a viver desde muito cedo. Por muito fortes que sejam os laços que mantêm unido um casal, por muito reiteradas que sejam as suas promessas de amor eterno, sabemos que há um reduto de liberdade individual que, em última instância, levará cada um a decidir se cumpre ou não cumpre o seu compromisso de lealdade. Esse território inconquistável do outro, onde só reina a sua independência, é o néctar de que se nutrem os ciúmes e o desejo. Só podemos defender-nos dessa horrível verdade com a nossa própria independência. Cada um de nós é dono do seu próprio território. Ninguém é dono de ninguém” (2011: 160-161).

Num relacionamento sério, deve dar o código do seu telemóvel ao seu parceiro ou à sua parceira? A senha para entrar nas suas contas? Sim, se assim o desejar. E se não o desejar fazer: não o faça. Somos seres completos e autónomos, temos o direito de ter um espaço privado, nosso, e isso não faz de nós más pessoas, nem pessoas em quem não se pode confiar. Continuamos a ser maravilhosos, mas com espaços privados... e está tudo bem. Do mesmo modo, devemos aceitar a independência e a autonomia do nosso parceiro.

Se a independência e a autonomia do nosso parceiro ou da nossa parceira nos tira o sono, a solução passa por trabalhar a nossa autoconfiança, o nosso amor próprio, o respeito por nós e pelo outro, para podermos construir relacionamentos equilibrados, saudáveis, que não nos diminuam e não diminuam o outro.

Um relacionamento deve basear-se na confiança, no amor, no afecto, nas aventuras em conjunto, nas experiências partilhadas, nas responsabilidades divididas, nos objectivos desenhados, nas gargalhadas, nos lanches em família, no olhar cúmplice, nas conversas a dois, altas horas da noite. As bases de um relacionamento não deveriam ser o maior ou menor acesso a um telemóvel.

Pense nisso.

E lembre-se... a terapia dói. Causa desconforto. Incomoda muito! Dá trabalho. Mas é uma viagem extraordinária.

Força!

Até à próxima semana!

Fique bem!

* Psicóloga da Saúde