Heterotopia da beleza em Júlio Quaresma

Luanda /
10 Fev 2021 / 11:12 H.
Patrício Batsikama

Júlio Quaresma é arquitecto e artista plástico. A sua pintura é um theatron de poesia dos corpos a partir do qual o texto cromático constrói um parentesco estético entre três ações: (i) contra-poder da geografia ontológica; (ii) heterotopia da beleza sentida; (iii) geometria axiológica das categorias sociais . Essas ações parecem-nos ilustrar, em parte, o projecto estético do artista.

Este último concebe o seu discurso artístico em dois pressupostos epistemológicos: profanação de cânones tradicionais; desprazer do tabu. Ele coloca em cena padrões de gosto, a intolerância da deselegância cujo conflito promove um mercado simbólico onde predomina a razão arte-plástica .

Há duas vontades na linguagem cromática em várias pinturas de Quaresma. O subtexto de códigos da sua obra «Banquetes improváveis» contrapõe-se ao discurso, e isso deve provavelmente ser o «espaço feérico» que contracena o «espaço filosófico». Logo, a geografia ontológica do autor autonomiza-se como uma vontade da própria obra, diferente da idiossincrasia artística que a criou inicialmente.

Outo aspecto é a heterotopia da beleza. As linguagens que culminam na «Eating the Past» e «Arqueologies comestibles» constroem uma obra polissémica em termos de pertença simbólica. Talvez se justifique a profanação dos cânones do belo que, por sinal, a contemporaneidade fornece as razões estéticas e filosóficas.

Se, em Platão, a beleza consiste em aletheia que não é apenas formal – o que o artista reproduz com perfeito desenho e luz cromática –, a verdade é que interpretar a actualidade tecnológica pressupõe procurar outros padrões. O pintor traz, através da teatralização de linguagens ou mesmo das personagens que cria, vários lugares de memória, utopia e de realidade com elevada qualidade mimética.

As categorias socias tornam-se virtuais , intangíveis, e as suas diferenças abismais cada vez incalculáveis. Probidades e apreços articulam a geómetra axiológica que, na impossibilidade de conectar as extremas, passa a ser razão do belo.

De princípio, o pintor observa e regista de forma contrária a consciência que produz o facto. A partir do desprazer do tabu – negação ao sagrado instituído ao benefício do sagrado convivido, como se pode ver na resignificado de Cristo quaresmático – o pintor inscreve uma sociedade em transe, cujas categorias assentam-se nas virtudes e desvirtudes, no ser-ter e finalidades práticas.

Ipso facto, as assimetrias desenham-se. A beleza moral nem sempre corresponde à beleza dos corpos, pelo que as aparências e prazeres soltam-se dos padrões paradigmáticos. Trata-se de sensibilidade liberal ou da emancipação da beleza em si. Ele mostra quanto a vida tornou-se estética , onde incoerência considera-se prazerosa, tanto que se prefere o consumismo e o imediatismo passa a ser predilecto. Daí, o desprazer do tabu (sagrado).

Interessou-nos aqui o arquitecto Quaresma por duas razões: (i) reinvenção da angolanidade, enquanto memória estética nas arenas mundiais da arte ; (ii) sua démarche traz subtextos artísticos enquanto vontade polissémica do gosto. Com essas razões, a ideia de diáspora artística muntu-angolana pode ser apreciada com artistas portugueses cuja ligação umbilical vai além da cidadania expressa .