Em defesa dos adolescentes

Ora, esta rebeldia faz parte do processo natural de crescimento do indivíduo e é característico da adolescência.

Angola /
14 Fev 2022 / 12:45 H.
Fátima Fernandes

“Mimados, exigentes, manipuladores, sem princípios nem valores, desrespeitosos, vaidosos, superficiais, materialistas, preguiçosos”... Estas e outras críticas ainda piores, dirigidas aos adolescentes, parecem intermináveis.

Basicamente, optamos por ignorar que a adolescência é a idade da busca de identidade, da busca de uma voz própria, e decidimos que os únicos adolescentes de que gostamos são aqueles que falam e se comportam como se fossem “mais-velhos”.

Num início de século em que os adolescentes parecem ser as vítimas ideais do nosso descontentamento generalizado, convém trazer alguma luz sobre o assunto, a partir da Psicologia do Desenvolvimento, para desconstruir esses julgamentos.

Na adolescência – o período piagetiano das operações formais – “os indivíduos começam a ser capazes de analisar acontecimentos hipotéticos (que não ocorrem no mundo natural), tornam-se aptos a detectar inconsistências entre as suas crenças, e conseguem avaliar se esgotaram todas as soluções possíveis para resolver um dado problema” (in Crianças e Adolescentes, ed. António Castro Fonseca; KAGAN, 2010: 20). Começam, pois, a afastar-se da infância, mas não são, ainda, adultos. É um período de grandes transformações físicas e mentais e de autodescoberta.

O adolescente está, muitas vezes, confuso, desorientado, à procura de modelos, num complexo processo de construção de identidade. Pode tornar-se menos comunicativo, mais fechado. Tenta diferenciar-se dos seus pais e busca aceitação junto dos seus pares. É, tipicamente, rebelde relativamente à autoridade e desconfiado em relação ao que os adultos dizem. O questionamento da autoridade parental é particularmente notório (GRIFFA, Maria Cristina, Chaves para a Psicologia do Desenvolvimento, tomo II, 2015: 25-35).

Ora, esta rebeldia faz parte do processo natural de crescimento do indivíduo e é característico da adolescência. Os pais não devem sentir-se “atacados” e há algumas atitudes que devem evitar, para não aumentarem formas indesejadas de rebeldia. Vejamos:

1. Muitos pais não aceitam o crescimento dos filhos, não confiam neles e não admitem a sua crescente autonomia, continuando a tomar todas as decisões por eles, sufocando-os.

2. Há pais que abusam da sua autoridade, alegando: “Eu sou o teu pai!”, ou “Eu sou a tua mãe!”. Muitas vezes não hesitam em humilhar os filhos, censurando-os em público, ridicularizando-os diante dos amigos, usando castigos próprios da infância. Esquecem que a função da autoridade, na família, deve ser educativa.

3. Também há quem caia no extremo do não exercício da autoridade paterna, mantendo-se distantes dos filhos, embrenhados no trabalho ou noutras actividades fora de casa, não oferecendo a orientação e a segurança de que os filhos necessitam. (cf. GRIFFA, 2015:36-37)

Qual é a resposta, então? A resposta é o equilíbrio!

Há, tradicionalmente, três estilos de maternidade/paternidade:

1. O autoritário, que valoriza a obediência “cega” e a defesa de medidas punitivas rígidas, não permitindo o diálogo entre pais e filhos, mas antes a mera aceitação de ordens parentais e total submissão.

2. O permissivo, que evita o exercício de controlo, deixando que o adolescente faça tudo o que quiser e tome todas as decisões sozinho.

3. E aquele que é considerado o mais equilibrado e o mais saudável: o estilo de maternidade/paternidade com autoridade. O estilo com autoridade promove a conversa aberta entre pais e filhos, o incentivo à autonomia e individualidade, o reconhecimento de direitos tanto dos pais como dos filhos, o estabelecimento de regras claras e firmes, explicando-se as razões das mesmas (cf. BERNS, Roberta, O Desenvolvimento da Crianças, 2002: 534-537).

A solução para uma relação saudável entre o adulto e o adolescente passa pelo respeito mútuo. Os pais não devem aterrorizar ou ameaçar o adolescente, não o devem insultar ou ridicularizar. Devem, sim, oferecer orientação, afecto, valorização, aprovação, ajuda, correcção, num ambiente são, seguro, com regras bem definidas e bem explicadas, que permita que os adolescentes se desenvolvam naturalmente curiosos, criativos, interessados, sem medo de explorar; em vez de serem os adolescentes que vemos com tanta frequência: assustados, com baixa auto-estima, com uma auto-imagem negativa, com carências afectivas, ansiosos, com medo de falar, com medo de falhar, e, ainda por cima, carregando a culpa pesada, amplamente difundida e claramente injusta, que nós lhes atribuímos, de serem sempre “preguiçosos, manipuladores, errados, ingratos, sem valores e sem princípios”.

Enquanto pais, familiares, professores, membros desta sociedade, podemos contribuir para a criação e manutenção de um ambiente onde não haja o medo de que as crianças e os adolescentes nos coloquem perguntas, nos questionem.

Se quisermos crianças e adolescentes com menos problemas de ansiedade e de depressão, com maior autoconfiança e autonomia, então temos de criar um ambiente propício para tal.

É óbvio que a depressão – ou outros transtornos – vivida pelo adolescente pode não ser de modo algum da responsabilidade dos pais. Pode haver – e há – muitos outros factores e muitas outras explicações! Mas façamos a nossa parte. Mais do que isso não nos poderá ser exigido.

Vamos começar a praticar?

Força! Vai valer a pena!

Não podemos mudar o que nos foi feito, no passado, na família, na escola ou na rua, mas podemos ser diferentes na forma como tratamos os nossos filhos, os nossos alunos ou mesmo os nossos vizinhos.

Fiquem bem!

* Psicóloga da Saúde