Contribuições de Dona Beatriz Ñsîmba Vita

Luanda /
23 Fev 2021 / 10:57 H.
Patrício Batsikama

Publicamos, recentemente, um livro intitulado «Dona Beatriz Ñsîmba Vita», a famosa (Kimpa Vita). Pela editora Ancestre, em colaboração com a UFRJ. Ela pertencia à linhagem Nsaku’e Lawu Vita Wânga, pela mãe. A linhagem paterna era Ñtâmba Tana. Nascida, provavelmente, em 1684, na localidade de Mbwêla [ngânda Mbwêla], (Kimpa Vita liderou um movimento religioso-político entre 1704-1706, que restaurou o reino do Kôngo, em declínio desde 1665. É provável que a sua mãe biológica tenha sido Dona Apolónia Mafuta Mfu’a Maria, uma sacerdotisa de renome na época.

A profetisa Ñsîmba Vita foi capturada com o seu filho ao colo, mas esse último não foi queimado vivo junto da sua mãe, no dia 2 de julho de 1706. Ela foi queimada viva com o seu marido Santo João Barros.

Os autores que nos precederam quase não fazem menção a Tradição Oral. De facto, a Tradição Oral Religiosa recuperou inúmeros factos históricos, mas desconfigurou-os a favor das religiões locais. É, por exemplo, o caso do anjo João que é considerado um anjo na semântica católica. Felizmente, a Tradição Oral Histórica chama-o de Mfula Ñsîmba.

Jean Cuvelier registou essa linhagem, sem genealogia. Contudo, é facilmente compreensível que se tratava de anjo no sentido de kimpasi. Mfula é aquele que sopra, que têm o sopro (mwêle, espírito). Esse próprio antropônimo fazia com que o povo acreditava que João Barros possuía o espírito de Ñzâmbi’a Mpûngu. Isto, caso o consideremos como pai do filho de Dona Beatriz, as razões que levaram a Profetisa a afirmar que o «filho veio do céu» e não de um desejo humano.

A produção de imagens na época que seguiu a morte da Dona Beatriz faz perceber que a Igreja Católica passou a utilizar os instrumentos locais (ver imagem do padre Bernardino Ignazio, em 1748). Segundo a teologia Ñsîmba Vita, o simbolismo destes instrumentos reforça a ideia de sagrado, conformidade à santidade, a presença do Espírito de Ñzâmbi, convicção da religiosidade que articula dogmas católicos e cosmogonia kôngo, etc. Essa evidência material deixa claro que uma revisão institucional da fé católica local foi possível na base da teologia de Ñsîmba Vita.

Em síntese, essa profetisa criou a sua Teologia para sustentar um catolicismo local tido, em rigor, como as primeiras bases no sincretismo que – nos anos de 1921-1949 – determinou o Messianismo na África Central Ocidental.

Na República Democrática do Congo, nasceu o Kimbanguismo. Em Angola, nasceu o Tokoismo que estimulou a independência cultural, financeira e política. Não só enfrentou a administração colonial, mas também fez face ao comunismo antes de retomar o seu curso normal. No Brasil, existem vários indicadores do legado de kimpasi tal como Dona Beatriz o moldou.

No candomblé e umbanda veiculam várias preces e simbologia religiosa relativa a kimpasi e teologia de Ñsîmba Vita. Citamos aqui dois exemplos com as nossas experiências de campo, limitando-nos apenas às questões objetivas.

Pensamos que, com esta humilde contribuição, tenhamos reaberto o espaço para a apreciação da História de Dona Beatriz Ñsîmba Vita (Kimpa Vita) e ansiamos que venha a cobrir, ligeiramente, a ausência de bibliografia nesta matéria em língua portuguesa