A ‘nossa’ Mikhail Khodorkovsky

Em que difere Isabel dos Santos, a mulher mais rica de Angola e de África, da mulher mais poderosa de Portugal, do bilionário nigeriano Aliko Dangote, homem mais rico da Nigéria e de África, e do magnata Mikhail Khodorkovsky – até 2003 o homem mais rico da Rússia? Vamos aos factos.

25 Jan 2020 / 09:00 H.
António Pedro

O pior que pode acontecer a um empresário com dimensão internacional e reputação capaz de atrair investimentos de elevada envergadura é ser dono de uma visão política de curto alcance. Estamos a falar de empresários que conhecem o mundo dos negócios como a palma da mão. Quantos já se terão questionado como o bilionário nigeriano Alhaji Aliko Dangote, fundador e CEO do Dangote Group, resistiu a vários regimes políticos no seu país, adaptando-se aos ventos de mudança, fomentando empregos, criando riqueza contínua, mesmo com presidentes nigerianos que implementaram reformas como o combate à corrupção e ao nepotismo. Na vigência de muitos dos presidentes da Nigéria, citamos em diante, houve empresários que tiveram problemas com a Justiça por erguerem impérios empresariais com fundos públicos sem devolução durante décadas. Aliko Dangote superou adversidades diante de políticas de reformas de muitos presidentes no seu país. Sem recuarmos muito, listamos aqui os presidentes

Ibrahim Babangida (1985-1993), Sani Abacha (19931998), Olusegun Obasanjo (1999-2007), Umaru Yar’Adua (2007-2010), Goodluck Jonathan (2010-2015) e Muhammadu Buhari (de 2015 aos dias que correm). Hoje, o empresário nigeriano Aliko Dangote consta no ranking dos 25 homens mais ricos do mundo, na posição 23, segundo a Forbes. É o mais rico da Nigéria e de África, com vastos interesses de investimento em cimento, açúcar, farinha e bebidas, agora avaliados em cerca de 25 mil milhões de dólares norte-americanos. Estamos tão somente a falar do primeiro homem negro a alcançar essa posição entre as 25 pessoas mais ricas do mundo. É um empresário que ganhou dinheiro com a protecção do Estado, soube resistir diante de diferentes poderes políticos desde os seus 21 anos de idade quando se iniciou nos negócios. Hoje, com 62 anos de vida, está a investir cerca de 12 mil milhões de dólares norte-americanos numa refinaria de petróleo para ajudar a Nigéria a conter a prática ridícula de exportar petróleo bruto e reimportar produtos acabados, nomeadamente gasóleo, gasolina, combustíveis para a aviação civil, etc., uma política errada há décadas e que degrada o poder de compra do nigeriano no seu dia-adia. O mesmo não se pode dizer do magnata russo Mikhail Khodorkóvski, que até 2003 foi o homem mais rico da Rússia, com uma fortuna pessoal avaliada em oito mil milhões de dólares norte-americanos. O então dono da Yukos, a maior empresa privada do sector petrolífero da Rússia, avaliada em 30 mil milhões de dólares norte-americanos, com uma produção diária de três milhões de barris de crude, não se adaptou às reformas políticas em implementação na Rússia quando Vladimir Putin assumiu o poder com uma agenda de combate à corrupção e à impunidade.

Num encontro de Putin com oligarcas do país, o magnata do petróleo denunciou publicamente a corrupção do governo. A reunião acabou em gritaria. A visão política do magnata, mas de curto alcance, fez com que esquecesse que se tornou magnata com a protecção do Estado russo. Ou seja, Mikhail e outros oligarcas russos apoiaram, em 1996, a reeleição do então presidente Boris Yeltsin, antecessor de Putin. Como recompensa, o governo cedeu aos oligarcas a melhor fatia da indústria russa a um preço ridiculamente baixo. Foi então que, em poucos anos, Khodorkovsky criou a Yukos, a maior empresa (privada) petrolífera da Rússia depois da estatal Gazprom. Resistindo às reformas do governo e a financiar uma ala da oposição para se manter como o homem mais rico do país, acabou por ver a autoridade fiscal da Rússia às portas da Yukos: fuga ao fisco e branqueamento de capitais. Foi condenado a 10 anos de prisão e alojado numa penitenciária que dista mil quilómetros de Moscovo. Aos 51 anos de vida, em 2014, concluiu a pena de prisão e deixou os russos divididos. Para alguns, o então magnata é, de facto, um corrupto.

Para outros, um mártir. Hoje vive entre Londres e Suíça, sem o poder financeiro que fez dele o homem mais rico da Rússia. Isabel dos Santos, com a protecção do Estado, na anterior governação, pôs em marcha um programa de investimentos expressivos no País e no exterior, a ponto de ser considerada pela Forbes a mulher mais rica de África. Perante as reformas políticas em curso, nos dois últimos anos, e com impactos na economia - particularmente na classe empresarial privada onde muitos actores ao longo de décadas constituíram impérios empresariais com fundos públicos –, não se adaptou. Não engoliu com o ânimo do Círculo de Soleil o impacto do programa de combate à corrupção e à impunidade. Atirou-se contra as instituições republicanas do País. Viu privilégios confiscados, adquiridos ao tempo da governação do então Presidente José Eduardo dos Santos, seu pai biológico. Nesta semana, o Procurador-Geral da República anunciou que a empresária será notificada para responder perante a Justiça angolana e que, caso não colabore, será emitido um mandado de captura internacional. Tal como Mikhail, esteve nos holofotes dos veículos de media mais renomados do mundo, com Isabel dos Santos não é diferente. Depois dela, seguem-se outros políticos/empresários, e vice-versa, que não cooperaram com o Estado na fase de repatriamento voluntário de capitais. Nem Isabel, nem Mikhail, enquanto empresários, tiveram a visão política de longo alcance de Dangote - soube adaptar-se diante de diferentes regimes políticos, figurando hoje como o 23.º homem mais rico do mundo.