A inveja

Não sentimos inveja porque queremos. Simplesmente parece impossível controlar essa sensação avassaladora. Por vezes, em alguns momentos, podemos até ficar chocados connosco: Como é que eu posso pensar assim da minha amiga ou do meu amigo? O que se passa comigo?

Angola /
23 Mai 2022 / 10:57 H.
Fátima Fernandes

A nossa melhor amiga entra no escritório, está sorridente, vistosa, com óculos de sol e um vestido justo. Todos os homens se viram para olhar para ela. Cumprimentamo-la com um sorrisinho amarelo e, por dentro, sentimos raiva e surgem pensamentos venenosos: “Só está a querer chamar a atenção. Óculos de sol dentro do edifício, que ridículo! O vestido está tão justo que se nota a celulite!”. O nosso vizinho e amigo de longa data foi promovido: “Parabéns! Muito bom!”, dizemos-lhe. Já em casa, irritados, confidenciamos à nossa esposa: “Pediu ao primo para fazer os projectos. Quero ver quando descobrirem que ele não sabe fazer nada! Até vou rir!”.

Não sentimos inveja porque queremos. Simplesmente parece impossível controlar essa sensação avassaladora. Por vezes, em alguns momentos, podemos até ficar chocados connosco: Como é que eu posso pensar assim da minha amiga ou do meu amigo? O que se passa comigo?

Não somos verdadeiros amigos? Somos, sim. Somos más pessoas? Não necessariamente. A inveja é um sentimento primitivo, visceral, difícil de controlar, direccionado a pessoas próximas.

Podemos ter um bocadinho de ciúmes da Beyoncé ou da Rihanna, por o nosso marido ficar praticamente imobilizado quando elas surgem no ecrã, podemos secretamente querer ser o Bill Gates ou o Warren Buffett, mas inveja a sério é o que sentimos da amiga que é muito atraente e está sempre a receber flores, e do nosso vizinho de porta, que recebeu um carro novo e um aumento salarial. Eles são tão próximos que é como se sofrêssemos uma partida do destino ou uma injustiça praticada de forma completamente aleatória. É frustrante! Porque é que não recebemos flores ou um carro novo? Não temos o direito também?

Admitir ter inveja é admitir que nos comparamos aos outros e que sentimos que eles conseguiram algo que nós queríamos e que merecíamos. Sentimo-nos inferiorizados.

Ora, ninguém admite que se sente inferior, e por isso: ninguém admite que sente inveja. Nem para si mesmo! Então, disfarçamos e convencemo-nos: “Só estou chateada porque ela faz de propósito e todos sabem que até é proibido andar com esses decotes”; “Só estou indignado porque foi uma injustiça, ele não percebe nada de informática”!

Experimente perguntar às pessoas em seu redor se já sentiram inveja. Todo o mundo vai responder: “Nada, eu nunca senti inveja!”, “Eu nunca tive inveja de ninguém!” ou “Inveja de quê? Nem pensar!”. Bem... talvez seja verdade. Ou talvez não seja verdade. O que é certo é que se não formos capazes de encarar os nossos sentimentos menos aceitáveis, não poderemos mudá-los.

Vamos fazer de conta que todos nós já sentimos inveja. É humano. É natural. A psicanalista Melanie Klein explicou que “a inveja é o sentimento irritado de que outra pessoa possui e desfruta de alguma coisa desejável – sendo o impulso invejoso o de tomá-la e estragá-la”. A inveja seria um impulso primitivo e destrutivo, encontrado já no bebé e na sua “inveja básica do seio” (KLEIN apud GROSSKURTH, Phyllis, O mundo e a obra de Melanie Klein, Imago, Rio de Janeiro, 1992: 440).

Ainda que primitiva e natural, devemos lutar para fazer desaparecer a inveja, para que não nos prejudique, fazendo-nos sentir mal, incomodados, frustrados e irritados, levando-nos a fazer comentários maldosos ou até a espalhar boatos infundados; e para que não prejudique as nossas relações com os outros, fazendo-nos perder bons amigos, por, no fundo, não suportarmos o seu sucesso.

Robert Greene, na sua obra As leis da natureza humana (Escolar Editora, Forte da Casa, 2018: 273-303), fala da inveja como sendo uma das leis da natureza humana que importa reconhecer – em nós mesmos e nos outros – para podermos lidar com essa emoção de modo mais consciente e informado, tendo como objectivo final aumentarmos a nossa força e conquistarmos o sucesso e o bem-estar!

Segundo Robert Greene, estas são as estratégias para ultrapassarmos a inveja:

1. Aproxime-se mais daquilo que inveja. Nada é tão perfeito como parece. Quanto mais perto estivermos, mais fácil será perceber que talvez não haja razões para sentirmos inveja. A colega recebe flores, mas está sempre desesperada por causa do namorado mulherengo. O vizinho recebeu uma promoção, mas agora chega sempre a casa cansado, às 22:00.

2. Envolva-se em comparações descendentes. Vamos parar de nos comparar com quem tem mais e vamos olhar para quem tem menos do que nós. Isso estimulará a nossa empatia para com quem está pior do que nós, e também a gratidão pelo que temos. Se olharmos para quem tem mais, sentir-nos-emos, possivelmente, diminuídos. Se olharmos para quem tem menos, sentirnos-emos empáticos e agradecidos. Afinal, há tanto de bom nas nossas vidas, não é?

3. Pratique a Mitfreude. Em vez de nos sentirmos felizes com o mal que acontece aos outros, como acontece quando sentimos inveja, vamos imaginar a alegria dos outros e vamos ficar felizes com isso. É tão raro que alguém demonstre genuína felicidade com o sucesso do outro que isso contém uma grande capacidade para unir as pessoas.

4. Admire a grandeza humana. A admiração é o oposto da inveja. Ao reconhecermos a grandeza de alguém, sem que isso nos faça sentir inseguros ou magoados, estaremos a reconhecer a grandeza da própria espécie humana. Acrescenta Greene, no seu jeito muito pragmático: “Embora seja mais fácil admirar sem mácula de inveja aqueles que estão mortos, devemos tentar incluir pelo menos uma pessoa viva no nosso panteão”. Esses objectos de admiração também poderão servir de modelos (cf. GREENE, 2018: 300-303).

Lembre-se: quanto mais bem-sucedidos forem os nossos amigos, mais fortes nós seremos! Afinal, são NOSSOS amigos, são os nossos recursos e são fundamentais para o nosso bem-estar físico, social e, acima de tudo, mental.

Imaginemo-nos rodeados de pessoas bem-sucedidas, com quem podemos conviver e aprender, e que nos poderão inspirar ou até mesmo ajudar. Afastarmo-nos dessas pessoas por nos sentirmos frustrados ou irritados com o seu sucesso é totalmente contraproducente. Não ganharemos nada com isso. Para quê ter inveja?

Pense nisso.

Força! Até à próxima semana!

Fique bem!

* Psicóloga da Saúde