“A empregada doméstica não tem repouso, só senta quando come”

Luanda /
10 Fev 2021 / 11:17 H.
Paulo de Carvalho

Sou a terceira, de um total de oito filhos. Vivo no bairro São Pedro da Barra, com os meus irmãos. Somos 6 pessoas, a viver numa casa de quarto e sala. Os meus irmãos têm idades entre 7 e 19 anos.

Estudos e religião

Comecei a estudar com 6 anos, quando os meus pais ainda viviam juntos. Estudei até à 9ª classe, que concluí no ano de 2013. Parei então de estudar, porque os meus pais se separaram e deixei de ter como pagar a escola. Foi nessa altura que comecei a procurar emprego.

Recomecei a estudar este ano, na 10ª classe. Com o pouco que ganho, retiro uma parte para pagar os estudos, porque estou ciente que serão os estudos a melhorar a minha vida e a vida dos meus irmãos.

Sou religiosa desde criança. Sou testemunha de Jeová. Tenho actividades às quartas-feiras e aos domingos de manhã. Não imponho religião aos meus irmãos: cada um opta pela igreja que quer frequentar.

Já sofri muito assédio, até de senhores com dinheiro, mas nunca aceitei. Só comecei a namorar no ano passado. É o meu único namorado, até hoje. Ele está a estudar e vive sozinho; alugou uma casa.

Trabalho desde os 17 anos

Tal como já disse, a separação dos meus pais provocou uma mudança radical na minha vida. Tive que deixar de estudar e comecei a procurar emprego.

Comecei a trabalhar com 17 anos, como empregada de limpeza numa pastelaria, na Baixa de Luanda. Passado algum tempo, comecei a alternar a limpeza com a entrega de bolos.

Trabalhei nessa pastelaria durante 4 anos e só recebi o pagamento do primeiro ano. Depois de 3 anos de trabalho sem pagamento, tive de encontrar outro emprego.

Fui então trabalhar num bar próximo da Marginal, no caixa. O salário aumentou, de 20 para 35 mil kwanzas. Logo desde o início, o dono do bar estava a me conquistar. Não aceitei. Ia aceitar, depois como é que ia olhar na mulher do patrão? Ela também trabalha lá. Não, essas coisas assim comigo não.

Depois de oito meses a trabalhar no bar, tive que sair. Já não tinha como continuar, sem aceitar a conquista do patrão.

Fiquei desempregada durante um ano. Como aprendi a fazer bolos na pastelaria, fazia bolinhos e pastéis de massa tenra, que vendia para sobreviver com os meus irmãos.

A minha irmã, de 19 anos, vende bolinhos com a ajuda dos outros irmãos. Lá em casa ninguém estuda, porque não temos condições. Bem, eu recomecei este ano e vamos ver se consigo por os meus irmãos a estudar. Mas, primeiro, temos de tratar do bilhete de identidade para eles. Nenhum dos meus irmãos tem bilhete.

Vivemos numa casa alugada, com quarto e sala. Somos pobres, mas já sofremos assalto. Neste momento só estamos a usar o quarto, porque a chapa do tecto tem uma rachadura, de modo que entra água na sala quando chove. E não tenho como mandar arranjar, porque estamos a usar o dinheiro para o negócio dos bolinhos.

Portanto, o quarto é usado como cozinha, sala e quarto, para os 6 irmãos que vivemos lá em casa. Uns dormem na cama, outros no chão. A cama é feita com alguns blocos, com tiras de madeira e uma colcha por cima.

Não temos luz em casa, por falta de pagamento. E a televisão que tínhamos, foi roubada.

Sobre a dívida da pastelaria, são 3 anos de trabalho que não foram pagos, à razão de 20 mil kwanzas por mês. É só fazer as contas: dá mais de 700 mil kwanzas de dívida. Já reclamei e não sei mais o que fazer. Sempre que passo na casa dela, ela não tem coragem de me olhar. Também não vale a pena fazer queixa na polícia, porque vai só gastar dinheiro e depois não vão fazer nada.

Novo emprego

Há dois meses, consegui um novo emprego, no Sequele. Agora sou empregada doméstica.

Trabalho de segunda-feira até sábado e tenho o domingo livre. À quarta-feira também costumo folgar. Ganho 35 mil kwanzas por mês, mais o dinheiro do táxi.

Tive sorte em arranjar este emprego. Foi a patroa da minha prima-irmã que me arranjou o emprego. Estou muito contente, porque é mais uma fonte de rendimento para mim e para os meus irmãos (para além dos bolinhos, que continuamos a vender).

Um dia de trabalho

Acordo às 5 horas e tomo banho. Saio para o serviço quando começa a clarear, devido à bandidagem. Normalmente, saio antes das 6 horas e vou para a paragem de autocarro.

Se o autocarro aparecer, tenho um meio de transporte mais barato. Se não aparecer, apanho um táxi. Hoje fui de táxi.

Normalmente, chego ao serviço às 7h30. Tomo banho ou lavo-me e começo por pegar na cozinha. Deixo tudo arrumado e tempero a comida para o almoço. Trato depois da limpeza da sala e da arrumação dos quartos. A seguir, engomo a roupa.

Mas entretanto, matabicho entre as 9 e as 10 horas. Tomo sempre chá com pão. Hoje foi um bom dia, porque não comi pão simples; havia manteiga.

Calhou hoje a mim, fazer o almoço. Normalmente, é a patroa que faz o almoço. Nestes dias, só como se restar comida. Como fui eu a fazer o almoço, hoje também almocei.

A empregada doméstica não tem repouso. Só senta quando come.

Depois do almoço, lavei a loiça, limpei o chão da sala, da cozinha e do corredor, e limpei novamente a casa de banho. Deitei fora o lixo. Habitualmente, saio às 16 horas, mas hoje saí às 16h30. Fui para casa de autocarro.

Observação: O caso é real, mas o nome e alguns dos dados de identificação são fictícios.