A co-dependência

O co-dependente é aquela pessoa – homem ou mulher, mas principalmente mulher, devido à forma como esta é educada para agradar, ajudar, fazer os outros felizes – que cresceu, regra geral, numa família disfuncional, onde não recebia elogios, onde faltava afecto e abundavam as críticas e as exigências.

Luanda /
29 Nov 2021 / 09:36 H.
Fátima Fernandes

Iniciamos hoje, com este artigo, uma aventura quinzenal, em que nos debruçaremos sobre questões importantes, respeitantes ao nosso bem-estar mental (indissociável do nosso bem-estar físico e social).

Se há algo (e muito há) que a COVID-19 nos ensinou, durante a quarentena, é que, sem as distracções do costume – sem saídas para compras, sem a azáfama do dia-a-dia no local de trabalho, sem o convívio com familiares e amigos – o nosso cérebro (e todos os pensamentos e sentimentos) não é, afinal, muitas vezes, o lugar mais pacífico ou mesmo mais seguro do mundo.

A saúde mental, como já há muito sabíamos e agora comprovámos, é fundamental para a nossa existência, o nosso relacionamento com os outros e até mesmo para a nossa saúde física! É importante estarmos bem, estarmos maioritariamente felizes e em paz interior, sabermos lidar com os momentos de tristeza e sofrimento, para que nos possamos relacionar de forma saudável com os outros e até mesmo com o nosso diaa-dia e as nossas perspectivas de futuro.

Estar bem não é, obviamente, tão fácil como parece. Não acontece por milagre. Mas é possível! É um processo, e importa dar o primeiro passo.

Hoje vamos falar da co-dependência, termo que surgiu na literatura da especialidade a partir dos anos 70 do século passado. Os melhores livros que conheço sobre o assunto são “Vencer a co-dependência”, de Melody Beattie, e “Mulheres que amam demais”, de Robin Norwood. Há vários grupos de ajuda a pessoas consumidoras de substâncias psicotrópicas.

Há grupos de apoio a alcoólicos, toxicodependentes, etc. Entretanto, verificou-se que as pessoas com quem estes dependentes de substâncias se relacionam têm também características muito próprias. Mais tarde, percebeu-se que, afinal, os co-dependentes não são apenas aquelas pessoas que se sentem atraídas por alcoólicos ou toxicodependentes, mas pessoas altamente impulsionadas por uma vontade de ajudar, transformar, orientar, potencializar, controlar o outro, que vêem como necessitado.

Quem é, então, o co-dependente? O co-dependente é aquela pessoa – homem ou mulher, mas principalmente mulher, devido à forma como esta é educada para agradar, ajudar, fazer os outros felizes – que cresceu, regra geral, numa família disfuncional, onde não recebia elogios, onde faltava afecto e abundavam as críticas e as exigências. Esta pessoa foi crescendo e aprendendo que a única forma de receber algum tipo de apreço seria ajudando, servindo, sacrificando-se por outro, contentando-se com muito pouco, crescendo com a noção de ser a mais forte e a mais necessária criatura de todo o planeta.

O co-dependente procura alguém que precisa de ajuda! Alguém com menos estudos, ou menos dinheiro, ou menos capacidade intelectual, ou uma pessoa emocionalmente fria, incapaz de comunicar, ou alguém viciado em álcool, drogas, jogo ou outro. Uma vez encontrada (ou que já cresceu com ela, pode ser um membro da família), o papel do co-dependente é ajudar essa pessoa! Dar-lhe dinheiro, pagar-lhe os estudos, ajudá-la a fazer o trabalho de final de curso, dar-lhe um carro ou pagar-lhe o táxi. Os seres humanos, porém, não gostam muito de controlo. Tentam fugir desse controlo. Aí começa o bailado circular e aparentemente interminável da co-dependência: o co-dependente grita, exige determinado comportamento, chora, vai atrás, liga aos colegas e a todos os familiares à procura do seu “amor”, espera por ele na rua, à porta do trabalho, no bar onde ele costuma ir, depois o seu amor reaparece, promete mudar, o co-dependente pede desculpas, o seu amor volta a “portar-se mal”, o codependente volta a gritar que esta é a última vez. Dá tudo ao seu parceiro e precisa de o controlar. Para que o co-dependente se mantenha ocupado com aquela pessoa, basta um pouco de atenção no princípio da relação.

Quando é que a relação termina? Por vezes, só com a morte de um dos “bailarinos”. Outras vezes, quando o co-dependente se cansa, porque não consegue controlar o outro; apesar de tanto dinheiro e atenção que dá, o outro consegue escapar sempre dos seus braços. Ou então... quando o outro se cura! Quando o dependente deixa de beber ou deixa de gastar dinheiro na rua, arranja emprego e decide ter uma vida normal, dedicada ao lar – aí o co-dependente revolta-se e foge da relação... em busca de outra pessoa com quem possa reproduzir aquilo a que está habituado, desde a infância: ajudar, cuidar, alimentar, vestir, limpar... e controlar, se possível.

Mas então, qual é o problema do co-dependente? Os co-dependentes costumam queixar-se de ter “dedo podre” e vivem atormentados por esse facto e esgotados com os relacionamentos abusivos em que se encontram muitas vezes. O verdadeiro problema, no entanto, são as crenças nucleares, disfuncionais, por detrás desse comportamento. O co-dependente acredita que não merece amor, que ninguém pode gostar dele ou dela excepto se pagar ou se cuidar ou se sofrer pelo outro. Há, infelizmente, uma enorme e profunda baixa autoestima que tem de ser trabalhada! Bem, os assuntos da mente são vastos e complexos. Nos próximos artigos continuaremos a nossa viagem e falaremos de auto-estima e da importância de dizer “Não!”. Fiquem bem.

* Psicóloga da Saúde