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04 Mai 2021 / 15:37 H.
Paulo de Carvalho

Chamo-me Palmira dos Santos, tenho 42 anos e sou natural de Luanda, mais propriamente do actual distrito do Sambizanga.

O meu pai era militar, tendo falecido quando eu era criança. A minha mãe é enfermeira reformada e sempre foi a pessoa que cuidou de mim, desde a morte do meu pai. Ambos os meus progenitores são do Kuanza-Norte.

Sou separada e tenho duas filhas. A mais velha tem 16 anos e a segunda, 12 anos. Ambas estudam.

Estudos, trabalho e matrimónio

Comecei a estudar com 5 anos, quando entrei para a iniciação. Fiz o ensino primário na Escola 147 (na Av. Comandante Valódia), tendo depois passado para a escola Nzinga Mabndi e a escola Che Guevara.

Fiz o ensino médio no INE António Jacinto, no Cazenga. Concluí a 12ª classe com 18 anos. Reprovei apenas uma vez, na 6ª classe.

Quando terminei o ensino médio, já trabalhava. Tive que trabalhar alguns anos, para poder pagar eu mesma o curso superior. Foi assim que entrei na universidade com 27 anos, tendo feito o curso de Comunicação Social. Demorei 5 anos a concluir a parte lectiva do curso, tendo defendido 3 anos mais tarde.

Quando entrei na universidade, já era professora. Continuo nessa profissão, mas faço trabalho administrativo.

Nasci numa família católica e esta é a religião que professo. Como integro um dos grupos, vou à igreja três vezes por semana. Aos domingos, a missa é sagrada.

Comecei a namorar com 21 anos. O meu primeiro namorado foi o meu marido. Casámos tinha eu 25 anos e vivemos juntos 6 anos. Separámo-nos por mútuo acordo. O engraçado é que nos damos tão bem depois da separação, como não nos dávamos quando vivíamos na mesma casa...

Sempre fui saudável

Desde que me conheço, que sou uma pessoa saudável.

Tirando as doenças comuns na nossa terra (começando pelo paludismo), só me lembro de ter raramente infecções urinárias, ou uma ou outra gripe.

Nunca estive hospitalizada. Só fui à maternidade nos dois partos – portanto, não por razões de saúde.

No ano de 2014, já lá vão quase 7 anos, foi-me diagnosticado um glaucoma na vista. Isso obriga-me a consultas anuais de controlo, tendo de colocar diariamente um colírio em ambos os olhos. Esta é a única doença, que me aflige desde os meus 35 anos.

Tive COVID no ano passado

Em Setembro do ano passado, fui a uma festa. No dia seguinte, senti-me gripada. Não tinha muco nasal, mas tinha febre e doíam-me as articulações. Passei o fim-de-semana com esses sintomas de gripe ou paludismo, mas na segunda-feira fui trabalhar.

Fui à consulta nesse dia, tendo a gota espessa dado negativa. Ainda assim, a médica recomendou-me o tratamento da malária. Depois de começar a ingerir os comprimidos, senti grande fraqueza, que me obrigou a deitar-me. A minha mãe mediu-me a tensão e estava alta (14/11, até 15/12).

Melhorei, com um comprimido para baixar a tensão arterial. Tanto que voltei ao serviço no dia seguinte. Como me sentia cansada, fui novamente ao banco de urgência.

Só fiz o teste de COVID um dia depois, quarta-feira. Decidi aceitar a proposta, até para despistar essa possibilidade. Mas não conseguia conduzir, tal era o cansaço.

Por incrível que pareça, no dia seguinte não tive o resultado do teste de zaragatoa. Disseram-me que os meus elementos de análise tinham desaparecido. Fiquei irritada e não aceitei voltar a fazer o teste.

Só na segunda-feira seguinte voltei ao hospital, para fazer novamente o teste. Já me sentia melhor: sem febre, sem dores nas articulações e sem sintomas gripais. Uma forte dor no peito continuava a incomodar-me, de modo que aceitei fazer o segundo teste. E ainda bem, porque no dia seguinte telefonaram a comunicar que tinha COVID.

Internamento e recuperação

A médica recomendou que fizesse um tac, de modo que foi detectada uma séria lesão num dos pulmões. Como me sentia bem, não aceitei ser internada. Mas foi tal a insistência da médica, que lá acedi. Estava em causa uma consequência da COVID, de modo que preferi não arriscar.

Fiquei preocupada com as minhas filhas, os meus irmãos, a minha mãe e os meus colegas, que lidaram directamente comigo nas duas semanas anteriores. Felizmente, em todos eles, os testes foram negativos.

Fui então para o hospital, onde fiquei internada durante 6 dias. A medicação consistiu em antibióticos por via intravenosa e nos comprimidos contra a COVID (incluindo vitaminas).

Durante o internamento, para além de conversar com as outras duas companheiras de quarto, passava o tempo a ouvir rádio (pedi à minha irmã para mo levar), a ler e na internet (WhatsApp e Instagram).

Além das sequelas, que já mencionei, a COVID causou em mim angústia e uma grande ansiedade. O estado de ansiedade foi tal, que só queria ir para casa. A tensão arterial chegou a atingir os 17/13. Por isso, tive de tomar relaxantes.

Fui hospitalizada numa sexta-feira. Pois só consegui dormir três noites depois, graças aos tranquilizantes que me foram receitados. Foram três dias de grande angústia e seis dias de ansiedade.

Nunca me tinha sentido tão mal. Nem sabia que a ansiedade podia causar tanto stress e, até, distúrbios físicos e emocionais. Mas tenho de assumir que nunca pensei que ia morrer – nunca!

Graças a Deus, nunca sofri qualquer tipo de discriminação devido à doença – nem durante, nem após a recuperação. O único incidente ocorreu num dia da semana passada, em que tinha o carro avariado e tive de ir para casa de táxi. Três pessoas a conversar iam dizendo que a COVID não existe, que não passa de negócio. Tive de intervir, para esclarecer que a doença é real, existe e eu até já tinha passado por ela.

Observação: O caso é real, mas o nome e alguns dos dados de identificação são fictícios.