“A lavagem de carros é um trabalho duro, que exige esforço e transpiração”

Luanda /
16 Out 2020 / 12:17 H.
Paulo de Carvalho

O meu nome é Kamenga Vita. Tenho 36 anos e nasci na aldeia de Lupumba, na Ganda (província de Benguela). Os meus pais são de Kaluquembe e da Ganda. Ambos camponeses, já falecidos.

Vivo na Boavista, com a minha esposa e os nossos 3 filhos. O mais velho tem 7 anos, a segunda é uma menina com 4 anos e a mais nova tem 3 anos.

Vim para Luanda num grupo de 4 amigos. Eu era o mais novo, tinha apenas 8 anos. Os outros tinham 13, 15 e 16 anos. A vinda para Luanda ocorreu depois da morte dos meus pais. Primeiro morreu o meu pai, quando eu tinha 4 anos; e 4 anos depois, morreu a minha mãe. Como fiquei órfão e os meus amigos decidiram vir para Luanda, vim com eles.

Aqui em Luanda, ficámos os quatro a viver em casa da irmã de um deles, no bairro Sambizanga. O sofrimento lá era demais. O cunhado do meu amigo era uma pessoa de desenrascar, não tinha trabalho fixo; então, não tinha como nos alimentar. A irmã dele ajudava, mas tínhamos que trabalhar.

Já trabalhava com 8 anos

Comecei a trabalhar mesmo com 8 anos, já aqui em Luanda. Primeiro, ajudava nas casas, na limpeza e no transporte de coisas. Também levava o lixo para fora das casas, nos contentores. Cheguei a passar fome, porque não era um trabalho diário, dependia da vontade das pessoas, que às vezes davam pão ou outra coisa para comer. Mas nem sempre.

O pouco dinheiro que conseguia era para a alimentação. Às vezes eram só 200 kwanzas, que já davam para comer. Mas tinha dias que não conseguia mesmo nada; era só andar de casa em casa, todo o dia, com fome, à espera de um pão.

Ia para casa já de noite. Muitas vezes, chegávamos e encontrávamos as pessoas de casa “já jantaram, não te deixaram nada”. Eram as crianças que nos falavam que já jantaram.

Mas tem dias que dormia na rua, com os outros. Podíamos consumir alguma liamba, que nos fazia mesmo ficar a dormir na rua.

A situação melhorou, quando comecei a lavar carros. Aí, já pegava 500 kwanzas, mil kwanzas por dia. Às vezes tinha clientes fixos, o que era melhor. E podia levar alguma comida para casa, para contribuir para o jantar. Foi assim que me mantive no Sambizanga, até aos meus 18 anos.

Nessa altura, saí de lá e aluguei uma casinha na Boavista. Com o dinheiro da lavagem de carros, já podia ter uma casa mais perto do local de trabalho, que é junto do Ministério do Interior.

Quando tinha 22 anos, decidi começar a estudar. Estudei até à 3ª classe, mas mesmo a terceira não acabei, por falta de condições financeiras. Portanto, parei de estudar com 24 anos.

Hoje, num dia de trabalho, consigo pegar 2 mil ou 3 mil kwanzas. Neste momento, só tenho um cliente que paga semanalmente. Estes clientes que pagam semanal ou mensalmente são os melhores, porque nos permitem juntar dinheiro para as despesas de casa.

Posso dizer que não consumo drogas todos os dias, mas de vez em quando fumo uma liamba. Ali onde trabalho, somos uns 15 a lavar carros. Só tem discussão, quando consomem álcool. Eu não bebo.

Namoro e família

Comecei a namorar muito tarde, apenas com 26 anos. Antes, não queria arranjar namorada, porque era mais uma despesa e eu não tinha condições para isso. Tinha como resolver o problema sexual, pagando às amigas.

Tive 2 namoradas. A segunda é a minha esposa, com quem estou a viver desde 2012.

Eu continuo a lavar carros, enquanto a minha esposa faz trabalhos domésticos: lavar roupa, transportar água. Ela antes vendia na zunga (manga, couve e kizaka), mas o dinheiro acabou e deixámos de poder comprar negócio.

As crianças ficam em casa. É o mais velho que cuida das irmãs mais novas. Ficam mesmo a brincar e a fazer pequenos trabalhos domésticos. O mais velho, que tem 7 anos, já devia começar a estudar, mas não tenho condições para meter o miúdo na escola.

Um dia na vida de um lavador de carros

Saio cedo de casa, porque a lavagem de carros tem de começar muito cedo. Ontem, acordei antes das 6 horas e saí logo. A primeira coisa que fiz foi lavar um carro lá perto de casa. Tenho um cliente que sai muito cedo, às 6 da manhã, e quer sair com o carro limpo.

Depois, segui para a marginal, para lavar outros carros. Fiquei a trabalhar até às 16 horas. Sempre no Sol. A lavagem de carros é um trabalho duro, que exige esforço e transpiração.

Ontem, matabichei quando eram 9 horas. Apareceu um amigo, que deixou 200 kwanzas. Fui na praça, comprei um bolinho e uma quissangua.

Ao almoço, comi massa com frango. Compramos comida numas senhoras que vendem a refeição por 300 kwanzas. Não é muita comida, mas já nos ajuda no trabalho.

Sobre bebida, só bebo quissangua. Não consumo álcool. Nada mesmo.

Depois das 16 horas, fui para casa. Saudei a família e saí, para conversar com os amigos. A mulher estava a preparar o jantar: peixe com funge de milho (pirão). Jantámos quando eram 19 horas.

Depois do jantar, ficámos com as crianças a ver televisão e fui para a cama às 21h30. Normalmente, às 21 horas já estou deitado. Tenho que dormir cedo, para poder acordar também cedo.

Observação: O caso é real, mas o nome e os dados de identificação são fictícios.

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