A diabolização não suaviza o insucesso

Luanda /
21 Abr 2021 / 14:27 H.
Fernando Baxi

A política é, sem sombras de dúvidas, um actividade humana de tipo competitivo que tem por objectivo a conquista e exercício do poder, como conceptualizou Diogo Freitas do Amaral, in ‘História das Ideias Políticas’. O conceito do finando professor (catedrático) de direito contraria a ideia de que a política é a arte de governar. “A arte é uma manifestação estética e tem por objecto a procura do belo”.

Os partidos políticos são os principais actores políticos, pois estes competem para conquistar e exercer o poder. Face à natureza competitiva da política, uns vencem outros perdem. Quem está no poder utiliza todos os métodos possíveis para se manter.

O concorrente (denominado opositor) também luta de todas as formas, a fim de alcançar o poder. Na corrida ao leme, todos os meios são considerados válidos para se atingir o desiderato maior (conquista e exercício do poder político).

Todos os meios são considerados válidos, principalmente, quando a questão é a manutenção do poder. “Os fins justificam os meios”, frase proferida por Ovídio, poeta romano, na obra poética ‘Heroides’, erradamente atribuída a Nicolau Maquiavel. O argumento visa legitimar o emprego de meios desonestos ou violentos para a conquista do poder.

A ética e os bons costumes são princípios afastados da política, ou seja, a doutrina cristã (“não se pode justificar uma acção má com boa intenção”) nunca se vai compadecer com a competitividade política, sobretudo nas democracias emergentes, onde o poder é sinónimo de riqueza, influência e bem-estar.

A competitividade política é peculiar, no que tange à interacção humana, contrariamente à desportiva, em que o desportista age com fair play na inter-relação com o contrário.

Na política, o concorrente é um inimigo; no desporto é um adversário enquanto durar o jogo. As disputas políticas geram conflitos que resultam em vítimas mortais.

A media relata frequentemente actos de intolerância política em Angola. Tais factos levam-nos ao pensamento de Santo Agostinho de Hipona, segundo o qual o “homem tem como características o egoísmo, a arrogância, a vontade de dominar os outros e a tendência para procurar o bem próprio com desprezo do bem dos outros”.

A artimanha ou o estratagema, encapotado na propaganda, é o ponto chave da política seja qual for a geografia política, principalmente quando a intenção é chamuscar a imagem do opositor.

O espaço público reagiu à (pseudo)-informação a respeito do grau académico de um dos maiores políticos na oposição, no caso Adalberto Costa Júnior, presidente da União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA).

Alguns órgãos de Comunicação Social publicaram com pompa e circunstância a informação que dava conta que o substituto de Isaías Samakuva não era licenciado em engenharia electrónica, inclusive exigiam a apresentação pública do diploma de fim de curso.

Os mesmos esqueceram-se de que José Eduardo dos Santos, ex-presidente da República, é chamado engenheiro sem nunca exibir o diploma de fim de curso. Nunca ninguém questionou a formação académica do ex-Chefe de Estado. Aliás, ninguém está interessado em questionar autenticidade académica do ‘Arquitecto da Paz’.

Se José Eduardo dos Santos é formado em engenharia de petróleos (hidrocarbonetos) ou não, é problema dele, Angola nada perde ou ganha com isso.

Quantos angolanos acomodados no Parlamento, no Executivo, nos governos provinciais e nos conselhos de administrações das empresas públicas têm a epiderme clara, são de origem europeia, o ancestral é oriundo de outros países africanos de língua oficial portuguesa ou limítrofes de Angola?

Os políticos devem se preocupar com os reais problemas que afligem o País, principalmente em Luanda, onde o lixo abunda e enfrenta uma praga de moscas. A problemática da seca no Sul de Angola, acossada ainda mais com a praga de gafanhotos que já destruiu mais de 209 lavras naquela região do País.

Hoje, mais do que nunca, os angolanos estão mais esclarecidos, não se vão deixar levar por quaisquer joguetes políticos. A diabolização da imagem do opositor jamais servirá de ‘bálsamo’ ou ‘analgésico’ para amenizar a dor do custo de vida dos angolanos.

Hoje, o povo (eleitor amanhã) está mais preocupado com o preço do saco de arroz do que em saber a origem dos presidentes dos partidos políticos. Hoje, o luandense está mais preocupado em saber quando se vai limpar Luanda do que ver o diploma de fim de curso do presidente da UNITA.

Quem pretende se manter ou conquistar o poder deve ter em conta um pormenor muito importante. Em 2022, os jovens nascidos em 2004 vão participar das eleições gerais como votantes. Angola pouco ou nada melhorou desde o alcance da Paz de 4 de Abril de 2022. Se nos anos anteriores a guerra era desculpa encontrada para justificar a pobreza do País, qual será a justificação para convencer o eleitorado que nasceu depois do calar das armas?

Uma coisa é certa, os jovens de hoje são mais irreverentes e não têm medo de manifestar o descontentamento, independente das chamadas de atenção das autoridades ou dos órgãos de defesa e segurança.

Face à realidade económica e social do País, não é com a diabolização política que se vai garantir a manutenção ou a conquista do poder. Que haja amor e respeito pelo opositor. Quem hoje exerce o poder, amanhã poderá estar na oposição e fora do Parlamento.