A Bolsa pode travar o desperdício agrícola

24 Ago 2020 / 10:27 H.
Hernany Luís

O surgimento da Bolsa de Mercadoria-Futuros pode ser o meio pelo qual o Executivo, seguramente, pode estruturar políticas para ultrapassar o desaproveitamento da larga produção agrícola, particularmente no que tange ao escoamento e valorização da produção.

Mas, enquanto determinadas soluções concretas como essa, tardam a chegar no mercado, o País vai continuar a assistir o clamor de vários produtores devido a deterioração da produção da banana, abacaxi, abacate... e tantos outros produtos no campo.

Continuado, o desperdício da produção nacional, na verdade, decorre das inúmeras assimetrias entre o binómio produção e consumo. O que tem também originado várias distorções no agro-negócio, razão pela qual, as previsões de investimento, produção e colheita, dos empresários, geralmente ficam comprometidas.

A título de exemplo, recentemente, em entrevista a ANGOP um produtor de abacaxi referiu: “estou apreensivo com a deterioração da produção feita num espaço de cerca de dois hectares, por falta de compradores”. Esse testemunho, similar a outros que acompanhamos frequentemente na impressa, ilustram, em certa medida, a enorme produção desperdiçada nos campos agrícolas do País. Toda via, a colossal insuficiência alimentar, e a dependência da indústria transformadora, por matérias-primas agrícolas, demandam acções concretas para inverter o desaproveitamento produtivo.

Implementação da bolsa

A CMC - Comissão de Mercado de Capital vai jogar um papel essencial ao “implementar”, supervisionar e regular a Bolsa Agrícola. E, também, em garantir um ambiente profícuo para os operadores privados operarem. Portanto, esses, devem ser os principais actores do mercado. Fundadas na autonomia financeira e administrativa. Inicialmente dever-se-á trabalhar afincadamente e de forma coordena na melhoria das cadeias de produção, por forma a ultrapassar as assimetrias estruturais (vias de acesso, cobertura de comunicação e etc.)

É importante salientar que, a inauguração desse passo, vai dar ao agro-negócio um mercado de actuação transversal no circuito económico nacional, na medida em que, vai gerar riqueza às empresas que já actuam no sector e, também permitir o surgimento de diversos actores nacionais e estrangeiros decorrente do nível de transparência, além de oportunidades que vai instalar-se no segmento.

Funcionalidade do mercado

Nesse sector o comprador e vendedor das commodities agrícolas são previamente seleccionadas de acordo a um perfil. No entanto, a inauguração desse “step”, sugiro começar por contractos à vista. Dada as inúmeras debilidades em algumas estruturas de produção, colheita e distribuição.

Igualmente, advogo a implementação da plataforma com pacotes de incentivos claros às empresas e cooperativas, de modos a estimular os agricultores e não só. Por exemplo, o preço é crucial nas decisões de venda e consumo, por isso, deve ser anunciado em tempo real: por via de mensagens, sites, jornais e etc. Para mitigar estrangulamentos no mercado.

Referir ainda que, a partilha em “in real time” do preço vai possibilitar corrigir pontualmente os excedentes ou escassez, decorrente desse desequilíbrio. Não menos importante, o “step”, vai permitir que os participantes do mercado - mesmo aqueles que não negociam na plataforma - tenham um pressuposto de negociação fidedigno.

O mercado de futuro

Um dos benefícios é que o produtor pode vender a produção em uma data futura, ao preço praticado hoje (presente). Portanto esse tipo de operação permite que produtores de milho, feijão, jinguba... e, etc, diminuam os riscos de prejuízo quando acontece uma variação negativa nos preços ou quantidades. No entanto, todos esses processos ilustrativos de negociação de contratos que ocorre na Bolsa de Mercadoria – Futuros, também insere-se os especuladores, que procuram tirar lucros nas variações do mercado.

Em troca, permite que os produtores possam reduzir os riscos da produção, ao vender a produção antecipadamente. Seguramente, uma Bolsa de Mercadoria – Futuros, recomenda-se em Angola. Pois vai, certamente, responder às profundas dificuldades de escoar, e valorizar a produção nacional.

*Economista e consultor